Lucy Nicholson|Reuters
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Holofotes da Olimpíada e redes sociais ajudam atletas a obter patrocínio

Medalhista de prata, Rayssa Leal é uma das atletas que mais chamou a atenção de empresas e potenciais patrocinadores por sua performance em Tóquio

Felipe Rosa Mendes , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Lucy Nicholson|Reuters

Não é de hoje que os Jogos Olímpicos ajudam atletas a buscar patrocinadores. Mas em Tóquio a situação foi um pouco diferente. Esportistas como Rayssa Leal, do skate, e Douglas Souza, do vôlei, conquistaram apoiadores antes mesmo de competir, graças ao sucesso nas redes sociais. Os bons resultados nas pistas ou nas quadras da Olimpíada só aumentaram os holofotes, incrementando o número de seguidores e de patrocínios. 

Medalhista de prata, Rayssa é uma das atletas que mais chamou a atenção de empresas e potenciais patrocinadores por sua performance em Tóquio. Aos 13 anos, ela começou os Jogos com oito apoiadores. No momento, negocia com 20. “Hoje muitas marcas que não enxergavam o potencial dela no passado puderam assistir ao talento dessa atleta e os valores de união, respeito e autenticidade que só o skate é capaz de transmitir. Temos mais de 20 marcas de diversos segmentos querendo se associar à imagem da Rayssa”, afirmou Tatiana Braga, empresária da jovem skatista, ao Estadão.

Rayssa deve despontar na televisão em peças publicitárias em setembro. Uma de suas primeiras campanhas será para a Brasilprev, especializada em previdência privada que conta com o Banco do Brasil como um dos seus principais acionistas. “A Rayssa é a garota-propaganda do nosso produto destinado a crianças”, explicou Laura Beltran, gerente de marketing da empresa. 

A skatista foi contratada ainda em 2020, justamente pela proximidade da Olimpíada, que acabou sendo adiada para este ano. O contrato vai até o final de 2022. “Escolhemos a Rayssa pelos resultados, porque ela realmente encanta e porque queremos nos aproximar do público mais jovem do skate e do surfe”, disse Beltran. Será a primeira vez que a empresa terá uma adolescente e uma skatista como garota-propaganda. A gerente de marketing avisa que outros atletas olímpicos estão no radar da empresa. 

O sucesso de Rayssa em Tóquio já traz benefícios evidentes para patrocinadores mais antigos da atleta. A Nike registrou aumento de 700% na busca por itens de skate em seu site entre 24 e 27 de julho, quando a modalidade street do skate, de Rayssa, foi disputada na Olimpíada.

 

“A conquista da medalha impulsiona ainda essa vontade de adquirir os produtos e acessórios usados pelos heróis brasileiros em Tóquio. Na segunda-feira, lançamos alguns produtos que foram usados pelos atletas na competição e tivemos itens esgotados na mesma semana”, contou Gustavo Viana, diretor de marketing da distribuidora da Nike no Brasil. 

Parte deste sucesso de Rayssa se deve ao seu crescimento nas redes sociais. Ela ganhou pouco mais de 4 milhões de seguidores em 24 horas. Passou de 600 mil fãs para os atuais 6,6 milhões, um aumento de quase 1 milhão por cento. Sucesso semelhante vive Douglas. O jogador da seleção brasileira de vôlei começou o mês de julho com pouco mais de 200 mil seguidores. Hoje tem 3,2 milhões. 

Sua personalidade genuína e brincalhona não passou despercebida pelas empresas. Mesmo não sendo titular da seleção, ele entrou para o time da XP, que se tornou a principal patrocinadora do Comitê Olímpico do Brasil (COB) para o ciclo olímpico que se encerra nos Jogos de Paris-2024. 

“A gente se identificou muito com o Douglas, principalmente com a questão do alto rendimento nas quadras e o grande espírito de equipe que ele transparece. O sucesso dele nas redes sociais também foi um fator que contou na nossa decisão, mas não o único. É mais sobre uma conexão de princípios e valores”, explicou Pethra Ferraz, diretora de Marketing da XP Inc.

A empresa também acertou com outros atletas que vieram a se destacar em Tóquio, como o nadador Bruno Fratus, medalhista de bronze, Lucarelli, parceiro de Douglas na seleção de vôlei, e a judoca Mayra Aguiar, que faturou seu terceiro bronze em Olimpíadas no Japão. Eles foram contratados pouco antes do início dos Jogos. 

Para especialistas em marketing esportivo, a conquista de novos patrocinadores não se deve apenas ao resultado obtido na Olimpíada. A boa presença dos atletas nas redes sociais potencializam as atenções durante um grande evento como os Jogos. “O Douglas já era atleta da seleção faz tempo, já era campeão olímpico (no Rio-2016), mas precisou do holofote da seleção e das redes sociais. Ele começou a fazer um excelente trabalho nas redes para contar a sua história, mostrar sua personalidade e seu carisma. E começou a atrair a atenção das marcas”, destacou Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM. 

O bom trabalho na rede social também explica o sucesso de Rayssa na busca por apoiadores. “Quantas narrativas e histórias são construídas ao redor dela, pelo fato de ter apenas 13 anos, por sua busca por sonhos. Claro que essas histórias já existiam, mas a medalha fez com que elas viessem à tona. E ganharam ainda mais espaço com as redes sociais.”

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Desafio para atletas é seguir em evidência após a Olimpíada, diz especialista

Para ele, os esportistas devem usar as redes sociais como “ferramenta de contar histórias e conectar pessoas”

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2021 | 05h00

Finalizada a Olimpíada de Tóquio, os atletas brasileiros vão voltar a encarar a dura realidade de buscar patrocinadores para seguirem treinando em alto nível no ciclo olímpico que começa agora e se encerra com os Jogos de Paris-2024. O desafio para eles será se manter em evidência mesmo quando suas modalidades, algumas não muito populares, estiverem fora das transmissões televisivas e fora do noticiário.  

Um caminho a seguir, na avaliação de Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM, é o das redes sociais. “Existe um trabalho a ser feito pelos atletas para que eles encontrem formas nas redes sociais de se manterem ativos, mesmo que seja com menos luz ou atenção no período entre as Olimpíadas. E não somente uma vez a cada quatro anos, no caso dos esportes olímpicos”, explica o especialista ao Estadão.

Para ele, os esportistas devem usar as redes sociais como “ferramenta de contar histórias e conectar pessoas”. E cita como bons exemplos a skatista Rayssa Leal, medalhista de prata, o jogador Douglas, da seleção de vôlei, e Italo Ferreira, primeiro campeão olímpico da história do surfe. “Ele tem feito um ótimo trabalho de contar muito bem as suas histórias, de mostrar o ser humano por trás do atleta. Isso humaniza, aproxima as pessoas, conecta e faz com que todo mundo se encante com a história deste brasileiro. A Olimpíada é muito sobre histórias que ficam para sempre, muito mais do que os resultados.”

Martinho destaca que algumas ferramentas das redes, como os “stories” do Instagram, oferecem conteúdo que nenhuma mídia tradicional consegue levar aos seguidores. “Atletas e jornalistas em Tóquio filmaram bastidores que a TV não pega. São histórias que geram interesse ao público. Só as redes sociais são capazes de oferecer isso. O que pode ser mais próximo do que um Story? Melhor que isso só se você estiver lá no lugar.”

Ele acredita que as redes sociais, em conjunto com trabalhos de assessoria de imprensa e relações públicas, podem tornar o atleta menos refém do que chamou de “certo oportunismo das empresas” que investem nos esportes olímpicos somente a cada quatro anos.

“Existe um certo oportunismo de investir somente dois meses antes de começar a Olimpíada. O atleta não se faz em dois meses, se faz em anos de dedicação. Passou um mês, esqueceu as conquistas, como aconteceu com o Thiago Braz. Até esses dias era o atual campeão olímpico (do salto com vara), mas não tinha dinheiro para viajar. Quase deixou de competir por falta de apoio financeiro. E agora, depois de conquistar o bronze, recebe elogios de vários executivos de empresa, com posts emocionados nas redes sociais”, criticou.

Para evitar essas distorções no apoio aos esportes olímpicos, ele sugere uma “composição” entre as duas partes. “Os atletas precisam entender que, para se tornarem atrativos e interessantes para as marcas, precisam ser mais do que atletas, mais do que o resultado dentro da competição, mostrando suas histórias por meio das redes sociais”, afirmou.

“E do lado das marcas, poderia existir esta confiança de que para um atleta olímpico não cai do céu. Leva anos para se formar e eles precisam deste apoio duradouro. Os executivos poderiam tentar descobrir quem poderá ser o medalhista em 2024 para fazer esse apoio agora e não daqui a três anos. Vai custar pouco para a empresa, mas pode valer muito. E será muito mais genuíno do que patrocinar só depois que o atleta já tiver conquistado a medalha”, opinou.

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