Juan Ignacio Roncoroni / EFE
Juan Ignacio Roncoroni / EFE

Homem mais rápido do mundo, italiano Marcell Jacobs nasceu nos EUA e começou no salto em distância

Medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio, velocista mudou ainda criança para Desenzano del Garda, entre Verona e Brescia

Raphael Ramos, enviado especial/TÓQUIO , O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2021 | 15h21

Primeiro atleta italiano campeão olímpico dos 100 metros, façanha conquistada nos Jogos Olímpicos de Tóquio, neste domingo, Marcell Lamont Jacobs, 26 anos, tem uma história bastante incomum. Filho de mãe italiana e pai americano, ele nasceu nos Estados Unidos, na cidade de El Paso, no Texas.

Foi morar na Itália ainda na infância na pequena e bela cidade de Desenzano del Garda, entre Verona e Brescia, às margens do Lago de Garda, região norte do país. “Como americano só tenho fibras musculares. Sinto-me 100% italiano”, diz Jacobs em um inglês com sotaque bastante carregado.

Longe da lista de cotados ao pódio, a vitória de Jacobs neste domingo no Estádio Olímpico de Tóquio surpreendeu o próprio atleta. “Não sei o que dizer. É um sonho, é fantástico. É incrível. Era meu sonho de infância vencer a Olimpíada que se tornou realidade. Quero agradecer à minha família que sempre me apoiou e minha mãe, que é minha fã número um desde que eu era criança", disse.

Com porte físico diferenciado, ele começou a competir no atletismo com dez anos. Antes de se tornar o homem mais rápido do mundo, a especialidade de Jacobs no atletismo era outra. Em 2016, ele chegou a ganhar o Campeonato Italiano no salto em distância.

Até os 16 anos, inclusive, ele se dividia entre as provas de velocidade e as de salto. Foi quando um fortuito mudou a sua história. Jacobs sofreu uma lesão no tendão da perna esquerda em 2017 e, durante o período em que ficou sem poder treinar e competir, decidiu dedicar-se exclusivamente aos 100 metros rasos.

A escolha se mostrou correta e logo ele começou a colher bons resultados. Mas, eram basicamente apenas triunfos em competições dentro da Europa, sem que ele corresse ao lado de adversários de peso em torneios fora do continente. 

Mais um dado importante reforça o quão improvável era a sua vitória neste domingo nos Jogos de Tóquio: até este ano, ele nunca havia corrido abaixo de dez segundos. Na final olímpica, ele cravou impressionantes 9s80.

Antes de assombrar o mundo com a medalha de ouro, as melhores marcas do italiano na temporada eram 9s95 obtidos em maio e 9s84 nas próprias semifinais dos Jogos de Tóquio. 

Para herdar da lenda jamaicana Usain Bolt o posto de homem mais rápido do mundo, Jacobs diz ter recebido um incentivo extra antes da final. Foi quando ele se encontrou com o compatriota Gianmarco Tamberi, que, assim como ele, também se sagrou campeão olímpico neste domingo, mas no salto em altura. 

“Quando nos falamos, encorajamos um ao outro. Todos sabemos que ele poderia ter vencido nos Jogos do Rio, mas se machucou. Estarmos aqui juntos é algo espetacular. Eu acreditei nele e ele acreditou em mim."

TATUAGENS 

Após Jacobs cruzar a linha de chegada do Estádio Olímpico em primeiro lugar e as câmeras se voltarem exclusivamente para ele, chamou atenção o corpo musculoso cheio de tatuagens do italiano. Muitas imagens referem-se ao pai, ausente durante a sua infância e com quem sempre teve uma relação difícil.

“Odiava a ausência dele, mas mudei de perspectiva: ele me deu vida, músculos fortes e velocidade. Eu o julguei sem saber nada sobre ele", explicou.

A mudança de comportamento do velocista e o seu crescimento nas pistas também estão diretamente relacionados a um trabalho de fortalecimento mental que ele vem fazendo com uma psicóloga desde o ano passado. “Com ela concordamos em realmente atacar meus medos e meus fantasmas. Não foi fácil, há coisas íntimas que ninguém quer revelar para si mesmo”, confessou com certa dificuldade o mais novo homem rápido do mundo.

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