Werther Santana / Estadão
Em Franciso Morato, Albert Berti treina ginástica rítmica, modalidade que não possui reconhecimento oficial Werther Santana / Estadão

Homens buscam espaço na ginástica rítmica, esporte só para elas

Federação Internacional descarta inclusão alegando baixo número de participantes

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2019 | 04h30

Os atletas Gabriel Prado e Albert Berti praticam ginástica rítmica masculina. Ao som de uma música experimental, eles apresentam coreografias que combinam balé, dança teatral e acrobacias com arcos, bolas e cordas. Os dois amigos treinam quatro ou cinco horas por dia, aprimoram os movimentos, analisam vídeos, mas não têm campeonatos oficiais para disputar.

A modalidade não possui reconhecimento da Federação Internacional de Ginástica (FIG) nem da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Na Olimpíada e em Campeonatos Mundiais, apenas as mulheres competem. Confinados aos torneios amadores, os homens lutam por espaço em uma modalidade só para mulheres.

Albert reclama de preconceito. “Tentei entrar em um grande clube de São Paulo, mas eles não me aceitaram por ser menino. A atendente disse que essa ginástica é só para meninas. Tive de procurar outros lugares. Não queria competir, só praticar”, diz o menino de 17 anos que hoje treina na Academia Dé Dance, em Francisco Morato, zona oeste de São Paulo.

O baiano Wesley Souza afirma que o preconceito vem do fato de a modalidade não ser reconhecida oficialmente e também por remeter à dança, que seria relacionada principalmente ao sexo feminino. “É uma coisa completamente equivocada e pejorativa, mas, infelizmente, muitos meninos passam por isso”, opina o baiano de Cajazeiras que demora uma hora e meia para chegar à academia Talent, especializada na modalidade que ele pratica ao lado de 200 meninas.

Gabriel Prado é o único menino da ginástica rítmica em uma academia especializada de Ubatuba desde 2007. São 40 meninas só na equipe dele. Ele já organizou um abaixo-assinado enviado para a Secretaria de Esportes e Lazer pedindo a inclusão da modalidade nos Jogos Abertos do Interior. Não teve resposta.

De acordo com a Federação Internacional de Ginástica (FIG), a vez dos homens ainda vai demorar a chegar. Questionada pelo Estado, a entidade afirmou que uma pesquisa feita com as federações afiliadas dois anos atrás mostrou que a grande maioria não tem interesse na modalidade masculina. Para que um esporte se torne olímpico deve, antes de tudo, ser praticado em escala global – no mínimo 70 países (ou 50 para categorias femininas) e quatro continentes – e pertencer a um órgão esportivo que regulamente a modalidade.

“As competições internacionais seguem dois critérios: universalidade, um número suficiente de países representados, e popularidade. Somente um pequeno número de federações afiliadas têm a ginástica rítmica masculina. Além disso, em alguns países, ela se parece com a ginástica acrobática”, afirmou Stéphanie Pertuiset, porta-voz da FIG.

Albert aceitou um desafio proposto pelo Estado. Para mostrar a reação das pessoas diante da modalidade e retratar o local onde treina, em Francisco Morato, ele fez uma parte do seu treino ao ar livre, em um local movimentado do bairro. As pessoas passavam, olhavam, mas não queriam comentar. A moradora Josefa Perez fez diferente: abriu sua casa para que as fotos fossem feitas também no seu quintal. “Esses meninos são lutadores”, elogiou Josefa.

Gabriel, Wesley e Albert ainda moram com os pais, estudam, estão procurando um caminho na vida, mas sabem que não podem apostar em uma modalidade com pouco futuro, na opinião deles. A ginástica exige investimentos razoáveis. Um macacão de competição, equivalente ao collant feminino, custa R$ 400. Nenhum dos três tem patrocinadores; eles contam com a ajuda de amigos e de recursos próprios para as raras apresentações de que participam.

“Tento pensar que dias melhores virão. É o amor pelo que eu faço. Eu treino desde pequeno”, diz Gabriel, que preferiu abrir mão de outra ginástica, a artística, por causa de seu biotipo de 1,80 m. Normalmente, os ginastas mais baixos levam facilidade nesse esporte, pois têm o centro de gravidade mais perto do solo, o que facilita o equilíbrio.

Flexibilidade

A CBG se mostra mais flexível que a FIG ao comentar a entrada de homens. “Acredito que o ponto principal para a falta de reconhecimento seja a tradição de ser uma modalidade feminina, com nuances e características próprias. A GR masculina tem que buscar uma identidade mais peculiar, de forma que não seja tão somente as regras femininas aplicadas aos homens. Vejo com excelentes olhos a entrada dos homens na modalidade, acredito que só tenha a enriquecer”, diz Renata Teixeira, coordenadora do Comitê Técnico de Ginástica Rítmica da CBG.

No Brasil, o movimento é lento, como toda mudança cultural, mas presente em várias localidades. Algumas federações estaduais, como a do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Paraná, já organizam competições não oficiais para meninos. 

Como exemplo de uma mudança possível, Renata Teixeira cita outra modalidade só para mulheres: o nado artístico (antigo nado sincronizado). Desde 2017, o nado vem promovendo provas mistas. Um homem faz par com uma mulher na coreografia. “Quem sabe, assim como no nado artístico, essa entrada (dos homens) possa se iniciar em uma competição de duplas mistas?”, questiona a especialista.

Por enquanto, a inspiração dos brasileiros é a Espanha, primeiro país a promover campeonatos na categoria masculina, no começo dos anos 2000. Um dos pioneiros do esporte foi Rubén Orihuela, nove vezes campeão espanhol, que chegou a competir com meninas antes que a Federação Espanhola reconhecesse a modalidade.

O brasileiro Albert não pretende viajar para a Espanha para poder competir na ginástica rítmica. Pessimista quanto a uma mudança na modalidade a curto prazo, mas sem perder a esperança de mudança, ele pretende se tornar professor de Educação Física e dar aulas de ginástica rítmica. “Minhas turmas terão meninas e meninos”, promete o atleta.

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Seleção feminina ainda busca vaga nos Jogos de Tóquio

Próxima chance será no Campeonato Pan-Americano, em maio, nos Estados Unidos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2019 | 04h30

A seleção brasileira de ginástica rítmica ainda luta para garantir vaga nos Jogos de Tóquio. No Campeonato Mundial de Baku, disputado em setembro, o País terminou na 13ª posição – só os cinco melhores se classificaram. Agora, a meta do Brasil será buscar a vaga no Campeonato Pan-Americano, que será realizado nos Estados Unidos, em maio. Brasileiras, americanas e mexicanas deverão protagonizar a briga pela última vaga olímpica. EUA e México terminaram o Mundial à frente das brasileiras, em 10 e 11º lugar. No Pan, o País foi ouro na provas por equipes

Para Camila Ferezin, treinadora do conjunto e coordenadora de seleções da CBG (Confederação Brasileira de Ginástica), a campanha do Brasil em Baku poderia ter sido ainda melhor se não fossem os erros cometidos nas apresentações. “Neste ano subimos de posição mesmo com falhas graves no conjunto misto. Competição não dá chance para quem erra. Agora, é seguir trabalhando, lembrando que é uma equipe jovem e que vem adquirindo experiência neste ano. Vamos agora encarar Estados Unidos e México no Pan-Americano e acredito que esses três países estão no mesmo nível”, disse Camila Ferezin.

O Brasil busca evoluir para garantir sua primeira medalha em Jogos Olímpicos na modalidade. A seleção brasileira permanente, formada por 11 ginastas, fica concentrada em Aracaju (SE). De acordo com Renata Teixeira, coordenadora do comitê técnico de ginástica rítmica da CBG, a modalidade é a maior dentro da ginástica em número de praticantes. Não existem dados oficiais das federações locais, pois nem todas as atletas são cadastradas. “A criação de centros de formação de base ajudou ao surgimento de novos talentos”, comenta Renata Teixeira.

Os desafios da modalidade são os mesmos de todo o esporte olímpico brasileiro. A falta de investimento é o primeiro passo. “A qualificação exige aprimoramento e isso requer recursos financeiros para se capacitar, aperfeiçoar os treinadores, viajar e competir para adquirir experiência”, explica Renata Teixeira. “Estamos formatando um modelo ideal de desenvolvimento da GR do País, que possa ter uma identidade comum, seguindo um mesmo plano de trabalho. São muitas coisas ainda a serem feitas, mas sentimos que estamos caminhando na direção correta”, avalia. 

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