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Humanos heróis

Olimpíada de Tóquio tem essa particularidade: por acontecer em meio a uma pandemia com as proporções que vemos, ela é a primeira que nos faz pensar ao mesmo tempo nos heróis e ainda nos super-heróis

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 05h00

Ninguém quer ser herói. Às vezes nós nos enganamos, sonhando com o glamour de uma vida heroica - os elogios, os louros, a admiração -, mas quando acordamos e nos damos conta do preço que se paga para chegar até lá, rapidamente esses devaneios esmaecem e voltamos para nosso dia a dia.

Afinal, o heroísmo é uma forma de sacrifício. E é preciso amar algo acima do normal para que nos sacrifiquemos por aquilo. Não que os heróis e heroínas sejam pessoas perfeitas, longe disso; tanto quanto nós, eles são também motivados por uma mistura de altruísmo e egoísmo, com uma boa dose de vaidade e até umas pitadas de ganância. A diferença é o valor que dão para o que almejam. Eles querem tanto algo que o preço que pagam não lhes parece demasiado. Abrir mão de tempo com a família, perder horas de sono, passar horas e horas repetindo a mesma tarefa, em busca do aperfeiçoamento, submeter-se a rotinas extenuantes, investir recursos próprios na busca de um objetivo.

Ainda assim (ou talvez exatamente por isso), nós exaltamos essas figuras abnegadas, que transcendem o limiar do desconforto, da dor, aproximando-se mesmo do esgotamento para alcançar seus feitos. Somos inspirados pelas barreiras que superaram, pelos esforços que fizeram, pela persistência que tiveram, tomando-as como modelos para vida. Mas no fundo não queremos assumir uma conta tão alta. Tanto é assim que a maioria de nós será, quando muito, heróis para nossos filhos - os únicos pelos quais o ser humano médio se sacrifica. 

Sejamos francos: em regras a gente não ama nada tanto assim.

Desde a eclosão da pandemia do novo coronavírus nós nos demos conta de que pessoas comuns podem se tornar heróis quando as circunstâncias exigem. Tornou-se lugar-comum descrever o heroísmo dos profissionais da saúde, trabalhando como nunca, arriscando serem contaminados, trocando momentos de folga por escalas dobradas de plantão, afastando-se da família. Talvez muitos ali nem quisessem ser heróis, mas assumiram a missão e pagaram o preço de fazer a diferença na vida das pessoas. E foram louvados por isso.

Mas agora chegam os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 para nos lembrar que existe um grupo ainda menor de gente - os atletas olímpicos - que levam aos limites do humanamente possível todo esse conjunto: amor, vaidade, abnegação, sacrifício, dor, superação, persistência, ambição, para fazer o que parece impossível. Eles levantam pesos aparentemente inamovíveis, correm a velocidades inimagináveis, voam, andam sobre as águas, esticam-se e se encolhem, preveem o futuro, desafiam todas as leis da física - são o mais próximo possível do que pode ser um super-herói.

A Olimpíada de Tóquio tem essa particularidade: por acontecer em meio a uma pandemia com as proporções que vemos, ela é a primeira que nos faz pensar ao mesmo tempo nos heróis e ainda nos super-heróis. As pessoas comuns que se tornam excepcionais por seu sacrifício e as pessoas excepcionais que se tornariam comuns se não se sacrificassem.

Comecei dizendo que ninguém quer ser herói. Mas ninguém quer viver num mundo sem eles. Nós queremos saber que eles estão lá. Precisamos vê-los em ação. Não é só para ficarmos tranquilos por saber que alguém se sacrificará por nós quando precisarmos. É mais do que isso: seja pela vida de um semelhante, seja por um lugar no pódio, queremos ser lembrados de que o ser humano é capaz de amar algo mais do que a si mesmo com tal intensidade a ponto de se colocar em segundo plano. De alguma maneira, saber disso faz todos nós mais humanos.

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