Fábio Motta/Estadão
O nadador paralímpico Daniel Dias: ‘Não desistam da gente. Por favor, não vamos parar por aqui’  Fábio Motta/Estadão

Incertezas deixam atletas no escuro para novo ciclo olímpico

Após o fim dos Jogos do Rio-2016, repasses de verbas públicas dos programas como o Bolsa Pódio vão ser revistos

Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2016 | 17h00

A passagem dos Jogos do Rio encerrou um ciclo de grandes eventos esportivos no Brasil. Agora o olhar repousa sobre os próximos quatro anos. A reflexão vem carregada pelo clima de incerteza e pelo temor diante da possível diminuição de investimentos no esporte para Tóquio-2020. “Não desista da gente, não vamos parar por aqui”, apelou Daniel Dias, recordista da natação paralímpica. E ele não é o único que pensa no futuro.

Marcus Vinicius D’Almeida, do tiro com arco, era apontado como esperança de medalha na Olimpíada. O pódio não veio no Rio, mas o jovem de 18 anos torce para que tenha oportunidade de continuar como aposta. “No momento, a gente não tem muita informação. É uma fase de decisões. Tomara que nada mude”, afirma. A indefinição também é apontada por Aline Silva, da luta olímpica. “Não sei ainda se houve redução no investimento público, não teve qualquer anúncio.” Ambos eram contemplados pelo programa Bolsa Pódio, do governo, que varia de R$ 5 mil a R$ 15 mil/mês.

Para o próximo ano, o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, garantiu que não haverá redução no programa. Admitiu, entretanto, que será feita uma reavaliação dos critérios em vigor. “Podemos ter modificação dos parâmetros para aperfeiçoar o programa, para que seja mais efetivo no objetivo de tornar o Brasil cada vez mais competitivo”, disse ao Estado.

A proposta orçamentária do Ministério do Esporte para 2017 é de R$ 960 milhões, enquanto o valor à disposição da pasta este ano era de R$ 1,72 bilhão. Em 2016, o programa Bolsa Atleta patrocinou 6.152 atletas de modalidades olímpicas e paralímpicas. Foram R$ 80 milhões de investimento. Dos 465 brasileiros participantes da Olimpíada, 358 eram beneficiados pelo programa do governo federal (77%). A proporção era maior na delegação brasileira dos Jogos Paralímpicos, com 262 contemplados (90,6%).

A preocupação com o futuro se estende aos atletas paralímpicos. No entanto, o sucesso dos Jogos do Rio é um alento para os medalhistas. “A gente não sabe realmente o que vai acontecer, fica na expectativa. Depois dos bons resultados dos atletas e com o apoio da torcida brasileira, acho que vai dar certo”, afirma Shirlene Coelho, que ganhou projeção ao faturar a medalha de ouro no lançamento de dardo da classe F37.

Presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Andrew Parsons ressalta que o investimento nas modalidades deu um salto com o aumento do valor de repasse da Lei Agnelo/Piva e não sofrerá alteração. Por outro lado, reconhece a inquietação dos atletas. “Além do dinheiro, eles têm uma cadeia de profissionais que depende deles. Entendo o receio. Tem um tempo para a renovação com os patrocinadores, mas as contas continuam chegando mensalmente na casa dos atletas.”

BOLSA ATLETA

Pódio: De R$ 5 mil a R$ 15 mil/mês

Olímpico/Paralímpico: R$ 3.100,00

Internacional: R$ 1.850,00

Nacional: R$ 925,00

Estudantil: R$ 370,00

Base: R$ 370,00

*Colaborou Paulo Favero

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‘Vamos manter o programa e desejamos fazer reajuste da tabela'

Ministro do Esporte fala em aumento de até 10% no Bolsa Atleta

Entrevista com

Leonardo Picciani, Ministro do Esporte

Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2016 | 17h00

Ciente da preocupação com investimentos após os Jogos do Rio, o ministro Leonardo Picciani (PMDB) promete um “diálogo aberto e franco” com os atletas e confederações. Em entrevista ao Estado, disse que o Ministério do Esporte estuda o reajuste nos valores do Bolsa Atleta e comentou a previsão orçamentária de 2017.

O que podemos projetar para o próximo ciclo olímpico?

Nossa expectativa é de manter a evolução do esporte brasileiro, tendo um resultado melhor no próximo ciclo olímpico. Para isso, manteremos um ritmo forte de preparação.

De que forma a redução no orçamento afeta o esporte?

O orçamento teve uma redução nas rubricas que tratavam da construção de infraestrutura. Elas estavam com valores maiores porque suportavam a construção dos equipamentos olímpicos, que agora estão prontos. Nos recursos discricionários do Ministério, ou seja, que podem ser aplicados livremente nos diversos programas, temos aumento de 30%, saindo de R$ 505 milhões neste ano para R$ 656 milhões. 

Qual é o planejamento para o programa Bolsa Atleta?

Nós vamos manter o Bolsa Atleta e o Ministério deseja fazer um reajuste da tabela. Mas isso não temos como afirmar ainda, só vamos tratar após a aprovação efetiva do orçamento e posteriormente ao decreto do Ministério do Planejamento, que regula a execução orçamentária do ano.

De quanto seria esse reajuste?

A gente tem vários estudos, diria que pode ser em torno de 10%, mas não é definitivo. Dependemos de fatores que não estão no nosso domínio.

Como o senhor vê a preocupação dos atletas? 

É natural que os envolvidos no esporte estejam atentos. O diálogo do Ministério com as entidades esportivas e com os atletas é aberto e franco. Posso assegurar que não há razão para preocupação.

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Comitê Paralímpico espera apoio da iniciativa privada

Presidente do CPB crê que Jogos Paralímpicos do Rio mudou percepção dos patrocinadores brasileiros

Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2016 | 17h00

Os Jogos Paralímpicos do Rio deixaram a desconfiança de lado com a venda de 2,1 milhões de ingressos e o sucesso de público. A expectativa é de que essa popularidade se transforme agora em investimento para Tóquio-2020. “Havia uma miopia na iniciativa privada que não conseguia enxergar o potencial do esporte paralímpico como ferramenta de marketing. Depois de ver a forma como o brasileiro abraçou o esporte paralímpico, a miopia vai virar cegueira total se a iniciativa privada não se envolver”, analisou Andrew Parsons, do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). 

Prata nos 100 m e bronze nos 400 m da categoria T38, Verônica Hipólito ganhou confiança após o apoio da torcida no Rio. “Se não tivesse público nos Jogos Paralímpicos, sabia que seria muito difícil de as empresas se interessarem por mais que a gente fizesse uma boa campanha. Agora não tem justificativa para não investirem na gente.”

A medalhista paralímpica integra o Time São Paulo, composto por 44 atletas de elite. O convênio, previsto para acabar em outubro, teve sua renovação confirmada pelo governador Geraldo Alckmin na última semana. “Vamos agora avaliar quais serão os atletas e em que modalidades vamos investir com vigor, sem esquecer naturalmente os que já são atletas do Time São Paulo”, explicou Linamara Rizzo Battistella, da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Outro impasse enfrentado pelo esporte paralímpico diz respeito à concessão da gestão do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro. O CPB ganhou o direito de administrar o espaço por um ano, prazo que termina em maio de 2017. Definir a situação do CT o mais rapidamente possível é prioridade para Andrew Parsons. “A origem da maioria dos nossos recursos é pública, fica difícil fazer os investimentos quando você tem um curto período.” 

O presidente do Comitê Paralímpico está otimista. “Temos recursos disponíveis e a gente já demonstrou a eficiência na gestão esportiva. Temos grande expectativa em resolver a bom termo para que a gente possa assumir uma gestão mais longa.” 

A concessão não deve se transformar em entrave. “Não há alguém mais preparado que o CPB para a gestão do centro. Só temos, por lei, de fazer o edital”, diz Alckmin.

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O investimento no esporte precisa ser algo contínuo no País

Grandes potências esportivas mundiais não trabalham em "ciclos olímpicos"

Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2016 | 17h00

De forma geral, quando se fala em ‘revisões dos critérios em vigor’ boa coisa não vem. A impressão que fica é a de que os orçamentos olímpicos e paralímpico serão reduzidos. Por isso, os processos precisariam ser mais claros – o dinheiro vai diminuir? 

Mais uma vez a história se repete no Brasil das outras modalidades esportivas após o fim de uma Olimpíada. Federações, confederações, prefeituras, estados e o governo federal falam em revisões no orçamento do próximo ciclo olímpico – Japão-2020.

Esse, talvez, seja um dos grandes problemas do esporte de alto rendimento no País – não existe processo contínuo. Atleta e estafe precisam do mínimo de planejamento para atingir objetivos e conquistar medalhas.

Se o atleta não recebe apoio público, ele precisa encontrar um clube para treinar e competir. Com o Brasil em recessão, isso fica mais difícil – não tem como Pinheiros, Minas, Palmeiras e outros tantos absorverem toda essa demanda sozinhos, sem apoio público.

As grandes potências esportivas mundiais não trabalham em “ciclos olímpicos”. Investe-se em infraestrutura, em treinadores e na busca por jovens talentos que serão lapidados não para uma edição de Olimpíada ou de Mundial, mas para uma vida dedicada ao esporte. Não há descontinuidade no ciclo. 

Como é que um atleta brasileiro vai se concentrar em treinos e disputa, índices e marcas, se há uma série de incertezas em relação aos programas que o sustentam, como o Bolsa Pódio? A questão nem é se a verba vai diminuir ou se o número de esportistas contemplados será reduzido, porque se isso acontecer, não haverá a menor expectativa de melhora na performance brasileira. É retrocesso.

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