Gonzalo Fuentes/Reuters
Gonzalo Fuentes/Reuters

Inquérito sobre Olimpíada inclui transações do Société Générale

Promotores investigam o papel do banco na transferência de dinheiro de suposto suborno para o Rio sediar Jogos

Tariq Panja, The New York Times

03 Outubro 2017 | 14h22

Promotores na França investigam o papel desempenhado por um dos maiores bancos do país na transferência de US$ 2 milhões que eles acreditam tenha como origem suborno para garantir que o Rio de Janeiro conquistasse o direito de sediar os Jogos Olímpicos de verão, segundo documentos vistos e verificados pelo The New York Times.

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Os documentos, que resumem o caso enviado por um investigador francês a promotores no Brasil, sugerem que o banco, Société Générale, possa ter infringido regulamentações referentes à lavagem de dinheiro.

O Société Générale informou em um comunicado que obedece aos padrões do setor, referentes à regulamentação sobre lavagem de dinheiro e às chamadas normas dos clientes, que se espera sejam seguidas por todos os bancos mais importantes.

“O grupo considera que a luta contra a corrupção e a lavagem de dinheiro estão como prioridades máximas”, diz o comunicado, acrescentando que o banco não comenta casos individuais.

Pagamentos feitos por um rico empresário brasileiro ao filho de um influente ex-integrante do Comitê Olímpico Internacional, dias antes que o Rio, em outubro de 2009, fosse surpreendentemente escolhido para sediar os Jogos, foram enviados para contas no Société Générale, segundo os documentos. As contas estavam ligadas a Papa Massata Diack do Senegal, cujo pai, Lamine Diack, comandou o setor de atletismo da entidade governante, durante 16 anos até 2015.

Os Diaks e o empresário, Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, cuja empresa controladora fez os pagamentos, estão sendo acusados de corrupção no processo de votação que levou os Jogos Olímpicos para a América do Sul pela primeira vez. Os investigadores querem saber se o Société Générale agiu de forma legal quando Soares tentou transferir os fundos para o Diack mais jovem.

Soares não foi encontrado para comentar o assunto e seu paradeiro é desconhecido.

Nove dias depois que os membros do COI se reuniram em Copenhague, Dinamarca, para declarar o Rio vencedor na competição que também incluiu Chicago, Madri e Tóquio, a empresa de Soares, chamada Matlock, tentou transferir US$ 2 milhões de uma conta que mantinha nas Ilhas Virgens Britânicas para a conta da Société Générale na França, controlada por Papa Massata Diack, segundo os documentos. Cinco dias mais tarde, em 28 de setembro, o dinheiro foi enviado de volta ao banco. De acordo com a lei francesa, a instituição deveria ter reportado a transação ao Tracfin, um organismo nacional para controle de transações suspeitas.

Em 29 de setembro, Soares usou a conta bancária da Matlock em Miami para fazer dois pagamentos separados no total de US$ 2 milhões para contas mantidas diretamente por Papa Massata Diack por intermédio da sua empresa, Pamodzi Consulting. Tais contas estavam em bancos afiliados ao Société Générale na Rússia e no Senegal, onde Diack mora atualmente.

“A análise dessas remessas sugere que a primeira transferência, devido ao montante e origem geográfica, poderia ser bloqueada na França com a aplicação de regras contra a lavagem de dinheiro”, segundo os documentos. “Isso explicaria porque foi imediatamente seguido de transferências separadas em favor da mesma empresa com sede em Miami, de outra conta bancária, para duas subsidiárias da Société Générale, sediadas em países mais complacentes em questões de lavagem de dinheiro”.

Ao comunicar-se com seus pares brasileiros, os promotores franceses disseram que ainda faltava determinar “o nível de envolvimento do banco”.

O fato de conseguir trazer as Olimpíadas foi saudado pelos líderes do Rio como uma oportunidade sem paralelo para transformar a cidade, em uma escala não vista em décadas e para melhorar a vida de milhões dos cidadãos mais pobres da metrópole litorânea. Em vez disso, foi transformado em “um enorme trampolim para a corrupção”, definiu a promotora brasileira Fabiana Schneider no mês passado. Chegando à etapa final de seleção, o Rio não era considerado favorito, mas acabou vencendo, segundo Schneider, apesar de ser "o pior candidato".

Os investigadores acompanharam várias transações feitas por intermédio das contas afiliadas ao Société Générale ligadas a Papa Massata Diack, incluindo uma no dia em que o Rio foi escolhido para receber a Olimpíada. Elas incluem mais de US $ 250 mil para joalherias em Paris e no Catar. Diack negou energicamente as acusações contra ele, chamando-as de “maior mentira na história do esporte mundial”. Seu pai, agora com 84 anos, está preso desde 2015 na França.

Para os bancos, deixar de alertar autoridades sobre transações suspeitas pode ter como resultado a imposição de penalidades financeiras. Em julho, em um caso separado, os responsáveis franceses pela regulamentação bancária multaram a Société Générale em quase US$ 6 milhões, por controle inadequado contra a lavagem de dinheiro.

Tradução de Claudia Bozzo

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