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Antero Greco
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Isto é Brasil

Sem panos quentes nem cornetagem gratuita, a verdade é uma, dura e óbvia: foi murcha a bola da seleção na estreia do torneio de futebol masculino. Mas não imprevisível ou fora de script. Em situação normal, time que joga em casa, formado por jogadores badalados, que tem um astro internacional do calibre de Neymar, não pode empacar no 0 a 0 diante de uma formação modesta, artesanal como a da África do Sul. Com a agravante de que o brioso adversário ficou com um a menos por quase 40 minutos. No mínimo, aplicaria 2 ou 3 gols.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2016 | 03h00

Mas o Brasil vive anormalidade – e não é de agora. Já faz tempo que se depara com uma crise de identidade num esporte no qual durante meio século, no mínimo, carregou a fama de ser o melhor do planeta. Com méritos, pois nesse período conquistou cinco Copas e ofereceu ao mundo a arte de Pelé, Garrincha, Zico, Rivellino, Rivaldo, Ademir da Guia, Djalma Santos e tantos outros. E continua a revelar talentos com relativa prodigalidade.

A qualidade individual, no entanto, não resulta em conjuntos confiáveis. Foi assim nos três últimos Mundiais e em Copas América recentes, para restringir o olhar à amarelinha. Num raciocínio esquemático e ilustrativo, ela não joga nem à brasileira (se assim se entender estilo solto, com base funda em criatividade e ginga), nem à europeia (como sinônimo de aplicação e disciplina tática rígidas.) É um lusco-fusco, em que sombras prevalecem e no qual frustrações se acumulam.

Como o empate de ontem em Brasília. Criou-se expectativa em torno da equipe de Rogério Micale. E, noves fora apelos baratos de audiência, qualquer seleção brasileira, em grandes eventos, tem tratamento exacerbado, tanto para euforia como para a depressão. Vai do céu ao inferno num átimo.

Não saiu do roteiro a que se apresentou no Mané Garrincha e se enroscou nos Bafana Bafana, um grupo de jovens esforçados. Decepcionou, porém o empate teve lógica. Como assim? Explico.

O amigo que segue as crônicas que batuco neste espaço talvez lembre que, em algumas ocasiões, tenho falado que não existe “projeto olímpico” no futebol. O que há é o mantra chato do “em busca do ouro inédito”, insuportavelmente repetitivo. Na prática, convocam-se jogadores e seja o que Deus quiser. Usei, até, termo pesado – catadão – para definir a aventura.

E é isso mesmo, pelo menos por enquanto. Até dias atrás, a seleção brasileira olímpica existia só na imaginação da CBF. Micale, de fato, dirigiu um bloco de atletas em amistosos esporádicos, um deles justamente contra os sul-africanos, com vitória nacional por 3 a 1. Comandou os jogadores que estavam disponíveis no momento, o que fica longe de um trabalho regular e planejado, como a do time principal.

Só na fase de treinamentos em Teresópolis, a partir da segunda quinzena de julho, teve grande parte da rapaziada com a qual pretende ir ao topo do pódio. Ou seja, a seleção nasceu agora. Para se ter uma ideia, cinco jogadores que enfrentaram a África do Sul nesta quinta-feira também estiveram no jogo de março contra os mesmos rivais. Seis mudanças.

Era admissível que triunfo – e, para mim, seria obrigatório – na rodada inaugural viria mais por meio da qualidade individual do que como desdobramento coletivo. O entrosamento surgirá à medida que a competição avançar, e o Brasil dentro.

Também nesse quesito a seleção desapontou. Neymar arriscou algumas finalizações, porém errou em passes, em deslocamentos, em postura. No início do segundo tempo, chegou a passar o pé sobre a bola, indício de enfado (já?!) e ausência de companhia. Gabigol e Gabriel Jesus estiveram aquém do que fazem no Santos e no Palmeiras. Renato Augusto fez figuração, Felipe Anderson e Tiago Maia foram bem. A defesa, com brechas, não comprometeu.

Há espaço de sobra para aperfeiçoamento, e o tal do ouro pode vir. Mas, incomoda pra burro a sensação de que o incensado “futebol brasileiro” não assusta mais ninguém.

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