Fabrice Coffrini/ AFP
Fabrice Coffrini/ AFP

Jogos de poder: a mão de ferro de Thomas Bach sobre as Olimpíadas

Presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) e sua força à frente dos esportes

Andrew Keh, The New York Times

26 de julho de 2021 | 12h00

Era o começo de março. Thomas Bach, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), estava olhando para um mosaico de telas de vídeo que exibiam os rostos plácidos e sorridentes dos membros da organização espalhados em escritórios, bibliotecas e salas de estar ao redor do mundo.

Na pauta da reunião virtual, estava uma eleição presidencial. Mas Bach, concorrendo sem oposição para um segundo mandato, não encontrou questões difíceis sobre o futuro do movimento olímpico, mas, sim, um banho quente de subserviência – prova do poder que acumulou controlando o maior e, de certa forma, o mais problemático dos festivais esportivos.

“Temos um capitão”, disse Gianni Infantino, presidente do órgão dirigente do futebol mundial e membro do COI, a Bach, “e esse capitão é você”. “Durante esses tempos difíceis, ninguém pode ser melhor do que o senhor, presidente Thomas Bach”, disse outro membro, Khunying Patama Leeswadtrakul, da Tailândia, “para nos guiar por águas turbulentas, transformar crises em oportunidades e guiar o COI a patamares maiores de sucesso”.

Bach ouviu uma pessoa, depois outra e mais outra, parecendo ao mesmo tempo constrangido e satisfeito com essa corrida de revezamento de elogios. Ele chorou depois de ser chamado de “visionário” e se recompôs para a votação secreta. Dos 98 votos, obteve 93, com quatro abstenções e um voto contra.

O COI está tão acostumado com a harmonia de cima para baixo que o único voto contra Bach logo se tornou assunto de conversas de bastidores. A singular influência do presidente é tão aceita que muitos passaram a presumir que o único dissidente, quem quer que tenha sido, simplesmente apertara o botão errado.

Desconhecido para a maioria dos torcedores casuais, Bach, 67 anos, é uma das pessoas mais poderosas dos esportes globais, um alemão quadrilingue cujas decisões podem alterar o destino não de um esporte, mas de dezenas; não de um país, mas de centenas; e não apenas de um seleto grupo de profissionais de elite, mas de uma população de milhões de atletas.

No ano passado, enquanto fervia um apaixonado discurso internacional em torno dos Jogos de Tóquio – primeiro, adiado por um ano e, agora, abrindo passagem em meio a um estado de emergência relacionado à pandemia e a um coro de críticas cáusticas no Japão –, Bach foi a força que os impulsionou.

Entrevistas com mais de dezenas de colegas, ex-colegas, atletas, especialistas e autoridades esportivas internacionais confirmaram que as perspectivas sobre Bach são tão diversas quanto a variedade dos esportes que ele supervisiona.

Ele é louvado como uma estrategista clarividente. É criticado como um autocrata. Respeitado como um chefe de estado. E difamado como um amigo de ditadores. Bach é ex-esgrimista e quatro décadas atrás ganhou uma medalha de ouro que ajudou a dar o pontapé inicial no movimento de empoderamento dos atletas. Ele irrita a geração mais jovem de atletas, que agora buscam diferentes formas de empoderamento. Mas garantiu a sorte das Olimpíadas na próxima década. E também inspirou debates sobre se os Jogos deveriam sequer existir.

Com poucas barreiras internas e pouca responsabilidade externa, Bach consolidou o controle dentro da organização a tal ponto que se tornou, aos olhos de muitos aliados e críticos, o presidente mais influente da história das Olimpíadas.

O cargo ficou mais complicado ao longo dos 127 anos de história da organização, mas, em essência, Bach, assim como os homens que o precederam, sempre teve uma única tarefa: salvaguardar o futuro dos Jogos Olímpicos, não importando a oposição que enfrentassem, não importando se alguém os considerasse indignos dessa proteção. E, neste momento crucial, Bach fez exatamente isto, agarrando-se a uma instituição vista pelos críticos como anacrônica, insular e até mesmo corrupta, garantindo que ela prosperará por mais uma geração, por todos os meios necessários.

O campeão

Os tijolos que erigiram a carreira de Bach se moldaram na esgrima. Ganhar uma medalha de ouro com a equipe da Alemanha Ocidental nas Olimpíadas de Montreal em 1976 lhe proporcionou uma credencial inestimável para o resto da vida. Assistir ao boicote de seu país aos Jogos de 1980 em Moscou o despertou para as tensões labirínticas e magnéticas entre esportes e política. E alguns teorizaram que seu domínio dos princípios fundamentais da esgrima – astúcia, antecipação, disposição para se adaptar – lhe foi de muita serventia no mundo selvagem da administração esportiva internacional.

Com um metro e setenta de altura, Bach era baixo para seu esporte, uma circunstância que o obrigou a inventar um estilo próprio. “Ele ficava vindo para cima de você – pah-pah-pah! – era simplesmente implacável”, disse Ed Donofrio, que competiu pelos Estados Unidos nos Jogos de 1976. “Ele era difícil de acertar, porque estava sempre se movendo, escapando, lutando”, disse Barry Paul, duas vezes atleta olímpico pela Grã-Bretanha.

Bach se tornou membro fundador da Comissão de Atletas do COI em 1981. Fundou seu próprio escritório de advocacia. Entrou no mundo dos negócios corporativos, chegando a ser executivo de marketing da Adidas sob Horst Dassler, que ajudou a criar o sistema de patrocínio atlético que transformou os esportes profissionais em uma indústria gigantesca (e que The Guardian certa vez definiu como o homem que “escreveu o manual sobre o sistema de propinas e mecenato que determina a política desportiva moderna”).

E, em 1991, Bach recebeu um convite para se tornar membro do COI das mãos de Juan Antonio Samaranch, o carismático presidente olímpico que lançou as bases para que os Jogos se tornassem o rolo compressor econômico que são hoje. 

O diplomata

De todas as questões que Bach tem de enfrentar, o papel da política nos Jogos – começando com o que, exatamente, poderia ser categorizado como político, para começo de conversa – muitas vezes parece o mais espinhoso.

Ele continua acreditando fortemente que as Olimpíadas devem ser um refúgio livre de política (como ele mesmo as define) e até hoje invoca a experiência do boicote de Moscou em 1980 – um momento, diz ele, em que a política corrompeu os esportes – ao encarar questões sobre por que as Olimpíadas proíbem, por exemplo, os atletas de se manifestarem no pódio dos Jogos ou por que o COI faz parceria com países anfitriões, como Rússia ou China, que têm histórico ruim em direitos humanos.

Muitas vezes, ele expressa alguma variação de um pensamento que articulou em um manifesto de 2013, no qual expressou sua visão do movimento olímpico: “O esporte deve ser politicamente neutro, mas o esporte não pode ser apolítico”. Para ele, isto define a passagem estreita que o COI deve percorrer para manter sua autonomia, por mais absurda que alguns críticos considerem a distinção.

A enormidade da influência do COI e a singular autoridade de seu presidente são fenômenos bastante recentes. Outros presidentes também dirigiam a organização a partir de seus caprichos pessoais, como muitos afirmam que Bach faz hoje, mas nenhum deles estava puxando os cordões de uma instituição tão gigantesca quanto a versão contemporânea. E nenhum deles estava operando em um espaço tão complicado quanto o cenário dos esportes modernos.

Até o final da década de 1990, o COI manteve, em grande parte, um papel secundário na operação das Olimpíadas, afastando-se depois de selecionar a cidade-sede para permitir que os comitês organizadores locais realizassem os Jogos. Essa atitude mudou depois dos Jogos de Atlanta em 1996, que passou tão perto do desastre – com obstáculos no transporte, problemas técnicos e falhas de segurança – que o COI determinou que precisava de uma abordagem mais pragmática para evitar mais desordens.

Em resposta, a equipe do COI em sua sede em Lausanne, Suíça, cresceu de algumas dezenas de pessoas na década de 1980 para umas cem pessoas na década de 1990, até cerca de seiscentas hoje. Esse crescimento, por sua vez, diminuiu o papel dos membros do COI, um grupo de 102 dirigentes esportivos de todo o mundo que antes cuidavam de muitas das tarefas especializadas agora realizadas por profissionais experientes em Lausanne.

O golpe mais recente no poder dos membros veio quando Bach retirou sua maior responsabilidade: votar para escolher as cidades-sede. O processo era tradicionalmente repleto de suborno e corrupção. Mais recentemente, porém, o COI vem enfrentando dificuldades para atrair candidatos viáveis em meio a preocupações com custos exorbitantes.

Bach abordou essas questões simplesmente mudando as regras. Em 2017, sem a menor cerimônia, ele alterou o antigo processo de escolha de sedes, concedendo direitos de realização para dois Jogos de uma vez. Os Jogos de 2024 foram dados a Paris, então Los Angeles, que também estava na disputa por essas Olimpíadas, foi persuadida a ficar com o evento de 2028. Dois anos depois, Bach descartou o protocolo antigo, realizando quase todo o processo a portas fechadas, atrás das quais cidades-sede incontroversas poderiam ser escolhidas apesar das dúvidas sobre transparência e potenciais conflitos de interesse.

“Às vezes, você simplesmente tem que tomar decisões. E, às vezes, isso pode parecer autocrático. Às vezes, pode parecer que você está fazendo tudo com um pouco de pressa. E a realidade é que ambas as suposições provavelmente são verdadeiras e às vezes são necessárias”, disse Sebastian Coe, presidente da World Athletics, órgão internacional de gestão do atletismo e membro do COI.

O fato de o COI também exercer um controle considerável sobre a Agência Mundial Antidopagem e o Tribunal Arbitral do Esporte, dois órgãos que, em um universo paralelo, poderiam servir como observadores independentes das Olimpíadas, amplia ainda mais o alcance de Bach.

“Em essência, trata-se de uma corporação transnacional, com uma peculiaridade: eles são autogovernados, autorregulados e autônomos”, disse Lisa Kihl, diretora do Instituto Global para Organizações Esportivas Responsáveis da Universidade de Minnesota. “A quem eles se reportam quando fazem algo errado? Ninguém”.

O presidente

A personalidade pública de Bach é expressa em palavras cuidadosamente escolhidas, proferidas em parágrafos professorais, salpicadas de humor seco. Na vida particular, Bach procura boas garrafas de vinho tinto – as ruins, ele as chama de Brühe, palavra alemã que significa algo como gosma – e gosta do jogo de cartas skat. Em seu país natal, ele é membro do FDP, partido de liberais pró-livre mercado conhecido por seu eleitorado abastado. Ele é famoso por gostar de um prato de currywurst.

O presidente do COI é, tecnicamente, voluntário, embora em 2015 a organização tenha revelado que Bach estava recebendo um pagamento de “indenização” anual de 225 mil euros (cerca de US $ 244 mil na época) para cobrir suas atividades como presidente. Como os dois presidentes do COI anteriores, ele mora gratuitamente no Palácio de Lausanne, um hotel de luxo no centro da cidade.

No ano passado, quando o coronavírus varreu a Europa, Bach partiu de Lausanne e foi para as montanhas próximas. Fez longas caminhadas ao ar livre e deixou seu cabelo grisalho, até então sempre aparado, crescer livremente. Quando sua esposa, Claudia, voltou à Alemanha para cuidar da mãe, ele teve de se virar na cozinha. Perdeu peso. A parte mais difícil da situação, disse Bach, era a falta de conexão humana. “Eu meio que gosto muito de abraçar”, disse ele.

Ele saboreia uma boa discussão da mesma forma que se esmerava no vaivém da esgrima e quase nunca hesita publicamente. Mas respondeu sim – “definitivamente” – quando questionado se se arrependia de alguma coisa na maneira como encarara o início da pandemia. Menos de três semanas antes do anúncio do adiamento dos Jogos de Tóquio, por exemplo, ele pediu aos atletas olímpicos que treinassem “a todo vapor”. Os atletas, lutando para se preparar, estavam ficando ansiosos e irritados com a escassez de informações do COI.

“Acho que faltou comunicação para explicar melhor as coisas”, disse Bach, “para pedir às pessoas, para pedir também aos atletas, que tentassem se colocar no nosso lugar”.

Bach sabia que o mundo dos esportes dependia de cada uma de suas declarações. E admitiu que deveria ter sido mais transparente sobre os possíveis desdobramentos. Sua contrição, porém, esse mínimo de questionamento de si mesmo, parou por aí. Ele não se comoveu com as rodadas de pesquisas deste ano mostrando que a maioria dos japoneses queria que os Jogos fossem cancelados ou adiados mais uma vez. “Não se pode tomar uma decisão em relação a uma Olimpíada, que é acompanhada por bilhões de pessoas no mundo todo, que é almejada por atletas do mundo todo, por meio de uma votação”, disse ele.

De maneira similar, ele contestou que as Olimpíadas, como conceito, possam estar desatualizadas ou de alguma forma impraticáveis, como afirmam muitos críticos. Ele reconheceu que havia uma “cultura mundial de desconfiança” em relação aos governos e às grandes organizações, como o COI. Mas qualquer noção de que os Jogos estejam enfrentando alguma crise existencial, disse ele, não condiz com a realidade. Ele observou que cidades anfitriãs promissoras, grandes patrocinadores (como Coca-Cola e Visa) e parceiros de transmissão nacional (NBC) assinaram contrato até 2032.

“Se eles não tivessem confiança na nossa gestão dos Jogos e do movimento olímpico, eles nunca fariam esses acordos de longo prazo”, disse Bach.

Os argumentos de Bach, é claro, não passaram despercebidos pelos membros do COI. Assim que a reeleição de Bach foi confirmada na reunião virtual de março, ele se levantou e caminhou em direção à parede de telas de vídeo, onde os membros batiam palmas na frente de suas câmeras. Eles não foram mutados e logo alguns gritos tímidos de "bravo!" e "felicidades!" tomaram a sala. Bach estendeu os braços, apertou os dedos e simulou um abraço coletivo na imponente grade de rostos sorridentes e virtuais.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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