Glauco de Pierri|Estadão
Estádio Olímpico é um dos legados da Olimpíada em Londres. Glauco de Pierri|Estadão

Londrino tem o seu legado olímpico cinco anos depois dos Jogos

Parque Olímpico Rainha Elizabeth vira ponto de encontro dos moradores da capital britânica, com atividades e lazer

Glauco de Pierri, enviado especial a Londres*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2017 | 17h00

“Para o legado olímpico ser completo, a população precisa estar envolvida em tudo. Ou nada vai funcionar”. É assim, direto ao ponto, que Ben Fletcher, diretor de estratégias, comunicação e marketing do Parque Olímpico Rainha Elizabeth, na região leste da capital britânica, explica ao Estado o sucesso de público do local cinco anos após os Jogos de 2012. O segredo? Planejamento, execução e gestão caminharam juntos desde o início do processo. Sempre com o foco no público.

Região de Stratford, área ao leste de Londres. Ao descer da estação de metrô ou trem, quem está ali sai dentro do maior shopping center da cidade. Alguns passos depois, novos empreendimentos residenciais e comerciais já prontos e uma série de outros em obras surgem no horizonte. Ao atravessar a rua, você está dentro do imponente parque, com gente de todas as idades aproveitando os 2.500 m2 de áreas verde, lazer e esportes. O legado olímpico em Londres é realidade.

“Nós pensamos no legado para a população desde o dia em que fomos escolhidos como sede”, diz Fletcher. Londres foi eleita em julho de 2005. Além do planejamento para Olimpíada e Paralímpiada, o governo montou e executou um plano de ação que determinaria os rumos dos equipamentos e locais esportivos após a competição.

“Após o fim dos Jogos, ficamos fechados porque precisávamos adaptar toda a estrutura para receber o público. Recebemos críticas, algumas diziam sobre gentrificação de Stratford. Dez anos atrás, o local era um bairro abandonado e ele se transformou. Novos empreendimentos foram surgindo, e outros vão ser construídos – alguns começarão obras em 2020. Temos agora as novas estações de trem e metrô, acessibilidade completa, shopping center ao lado do parque. São coisas que atraem os frequentadores, que passam a usar o local com frequência”, diz Fletcher.

A reportagem do Estado acompanhou em Londres a disputa do Mundial de Atletismo Paralímpico neste mês. Muita gente foi ao estádio para ver as provas. E outros aproveitavam o parque para relaxar, praticar exercícios, estudar e almoçar.

Na terça-feira, por exemplo, um grupo de cerca de 50 crianças fez aulas de educação física no gramado do parque, e não na escola. “Nós precisamos do povo. Não adianta ter uma estrutura magnífica, um parque olímpico impecável, sem ninguém frequentando. O que fazemos é seguir o plano original, criar atrativos às pessoas. Além do shopping, temos parque de diversões, restaurantes, sorveteria, lojas, aluguel de bicicletas. Temos interação com o londrino.”

O Rio poderia se inspirar em Londres para destinar o uso dos equipamentos olímpicos? A pergunta lhe foi feita porque ele esteve nos Jogos de 2016. “É difícil falar. São duas cidades diferentes, nem sempre o que se aplica a uma, daria certo na outra. É preciso ter um acerto entre os governos federal, estadual e municipal. Um plano que defina os rumos e que ações sejam executadas. Acredito que é possível o Brasil encontrar sua solução”, acredita Fletcher.

Três perguntas para Ben Fletcher, diretor do Parque Olímpico de Londres

1. Quais são as estratégias para manter o Parque Olímpico com público no ano?

Nós pensamos em atrativos para a população, como os mundiais de Atletismo, o futebol. Mas já tivemos competições de alto nível de natação, ciclismo, entre outras.

2. Os frequentadores podem usar os equipamentos esportivos?

Sim, sem dúvida. Alguns nós cobramos uma pequena taxa, mas a maior parte é gratuita.

3. Qual conselho você daria para os administradores do Parque do Rio? 

Não posso avaliar de longe, mas sempre digo que a população precisa participar. A partir daí, as coisas podem dar certo.

*O repórter viajou a convite do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

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Estádio dos Jogos vira a casa do West Ham na Liga Inglesa

Prefeitura de Londres peita rivais e aluga arena ao clube pelo valor de R$ 10,5 milhões para ele mandar 25 partidas

Glauco de Pierri, enviado especial a Londres*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2017 | 17h00

“Imagine se o governo do Rio de Janeiro repassasse o Maracanã para o Vasco, ou para outro time grande da cidade. Você acha que a torcida do Flamengo, por exemplo, não reclamaria e criticaria o acordo?”. Foi assim, aos risos, que Ben Fletcher, o executivo responsável pelas estratégias e pelo andamento do legado do Parque Olímpico da capital britânica, explicou a enxurrada de críticas que recebeu após o acerto entre a prefeitura da cidade e o West Ham, clube que passou a mandar seus jogos do Campeonato Inglês no Estádio Olímpico.

“Aqui em Londres temos muitas equipes grandes, todas com torcidas gigantescas. Tem Arsenal, Tottenham, Chelsea, Crystal Palace, Fulham... esqueci algum? Enfim, esse tipo de crítica a gente entende, porque envolve paixão do torcedor. Nós ajudamos apenas um time, o West Ham, e sabíamos que a maior parte da população de Londres não entenderia”, diz Fletcher. Mas os organizadores se prepararam para isso por um tempo.

De fato, o acordo entre Londres e o clube é benéfico para os ‘Hammers’, como eles são chamados. O time paga aluguel de 2,5 milhões de libras por ano, o equivalente a R$ 10,5 milhões – um valor irrisório para uma equipe que disputa a Liga Inglesa, cujo orçamento anual é de cerca de R$ 520 milhões. Pelo acordo, o West Ham pode disputar 25 jogos por ano na estádio – a equipe tem 19 partidas como mandante no torneio nacional.

Nesse cenário, a Prefeitura de Londres tenta acordo com alguma empresa para exploração dos naming rights. Quando o West Ham manda seus jogos, o local chama-se ‘London Stadium’. Mesmo se uma empresa topar dar nome à arena, 40% do valor vai para os cofres do time.

“É muito difícil quando a cidade ajuda especificamente um único clube. Certamente você será criticado. Mas é melhor você ter 50 mil, 60 mil pessoas felizes a cada jogo do West Ham, do que deixar o estádio vazio, parado, e, por consequência, sem ninguém. Não é só o futebol. Teremos shows, uma série de outros eventos no estádio. E tem mais: o futebol vai atrair outra parte da população, que passará a usar e usufruir dessa estrutura. Não temos dúvidas. Essa é uma outra forma de manter o Parque Olímpico com eventos e com a população usando o seu complexo”, diz Fletcher.

Além do ‘baixo’ valor com o aluguel, o West Ham fica com o dinheiro dos ingressos e com uma porcentagem da venda de comida e bebidas nas lanchonetes oficiais da arena. Logo na entrada do estádio, o clube possui uma megastore, em que comercializa todo tipo de produto, desde camisas oficiais até uniformes antigos, flâmulas, agasalhos e outras lembrancinhas.

O guardião do Parque Olímpico conta que parte de quem critica o acordo torce pelo próprio West Ham. Diz, porém, que a bronca é mais pelo abandono do antigo local das partidas, o Upton Park – estádio onde o clube passou mais de 100 anos.

Eternizado por Bobby Moore, lendário jogador da Inglaterra e maior ídolo dos ‘Hammers’, o antigo estádio era adorado pelos torcedores, inclusive pelos briguentos da Green Street Elite – a torcida organizada do clube, que leva o nome da rua do antigo estádio e que foi eternizada no filme Hooligans, que mostra o confronto entre os uniformizados com quase todos os outros adversários do país, principalmente contra a torcida do Millwall, seu maior rival.

*O repórter viajou a convite do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

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Vila dos Atletas abre as portas para moradores em Londres

Espaço dos competidores durante a Olimpíada de 2012 agora serve como moradia

Glauco de Pierri, enviado especial a Londres*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2017 | 17h00

A menos de um quilômetro do Parque Olímpico de Londres, a Vila Olímpica onde os atletas ficaram hospedados agora serve de moradia para muitas pessoas comuns. Neto de imigrantes portugueses, Antonio Seppas mora em um dos apartamentos do local, mas não quer mostrá-lo. “É igual a todos os outros. Mas você sabia que uma parte paga aluguel bem barato e a outra paga mais caro?”, afirmou, da sacada da janela de sua moradia, no primeiro andar.

“Eu acho isso legal, de ajudar as pessoas comuns. Mas tinha de ser para todo mundo igual”, diz. “Agora estão construindo outros apartamentos, e eu quero me mudar para esses novos.” Questionado sobre os motivos, já que as construções mais recentes têm a mesma planta das erguidas para os Jogos de 2012, ele diz que sua intenção é comprar definitivamente o imóvel. “Quero tentar pegar alguma facilidade para financiar”, disse.

VOLUNTÁRIA

Alice Spencer é uma senhora divertida. Voluntária no Mundial de Atletismo Paralímpico, que acaba hoje, ela é de Yorkshire, e atende a todos com simpatia. Sua missão é resolver problemas e tirar dúvidas. Ela responde perguntas de todos os tipo. “Olha, eu realmente não tenho a menor ideia se a gente poderia pescar por aqui”, diz a um garoto que perguntou se há peixes no canal, e se ele poderia pescá-los. Referia-se a um dos canais do Rio Lea, que passa dentro do parque olímpico e onde visitantes podem andar de pedalinho. Mas vai atrás de uma solução.

Alice é engajada em Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Esteve no Rio em 2016 – além dela, outros voluntários afirmaram que fizeram o mesmo, e que agora estão de malas prontas para Tóquio-2020. “É uma forma de vida. Esporte é vida”, diz. Ela não conseguiu ir para os Jogos de Pequim, em 2008, mas foi para Sidney-2000 e Atenas-2004. “A Grécia já vivia um problemão financeiro, e acho que aumentou depois que o país foi sede dos Jogos. Não se aproveita quase nada hoje, é triste saber que não se pensou no que fazer com as estruturas da competição após as disputas”, diz.

Ao saber que a reportagem era do Brasil, deu uma bronca no repórter do Estado. “Mas e o Brasil? O que o Rio está fazendo com o seu Parque Olímpico que só chegam notícias ruins aqui? Aquilo era lindo, deveria ser como em Londres, utilizado agora pelo povo”, sentencia.

Ela diz lembrar bem do que seus colegas falavam de Deodoro, cenário das provas de canoagem e hipismo, entre outras. “Muitos me diziam que após os Jogos tudo seria abandonado. Dizia que não. Mas tinham razão. Precisam resolver isso, senão estragará tudo”, diz.

*O repórter viajou a convite do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

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Parque Olímpico do Rio ainda procura um caminho

Complexo na Barra ainda não é atrativo para a iniciativa privada

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2017 | 17h00

Dez meses após os Jogos do Rio-2016, o Parque Olímpico da Barra ainda não conseguiu se firmar como opção viável para eventos esportivos ou shows na cidade. Pior: o plano de legado e ocupação só foi literalmente para o papel no mês passado.

A intenção inicial era conceder todas as instalações à iniciativa privada, mas não houve interessados. Assim, no fim de 2016, o governo federal assumiu a gestão das Arenas Cariocas 1 e 2, do Velódromo e do Centro Olímpico de Tênis. A Arena Carioca 3, a Arena do Futuro e o Estádio Aquático ficaram nas mãos da Prefeitura do Rio.

As instalações sob cuidado da União só tiveram seu plano de legado divulgado em junho, o que motivou pedido de multa por parte do Ministério Público Federal do Rio (MPF-RJ). Desde o início do ano, eventos esportivos esporádicos têm sido realizados no local, como torneios de tênis, ciclismo e vôlei de praia. Este fim de semana, haverá um evento de jiu-jitsu.

As arenas da Prefeitura do Rio, por sua vez, estão praticamente paradas. As escolas prometidas nem sequer aparecem no horizonte porque o município alega falta de recursos para desmontar a Arena do Futuro.

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