Kirill Kudryavtsev/AFP
Kirill Kudryavtsev/AFP

Maicon faz história e vai de ajudante de pedreiro a medalhista olímpico em 3 anos

Por câncer da mãe, lutador quase desistiu da modalidade

Demétrio Vecchioli, enviado especial ao Rio, Estadão Conteúdo

20 Agosto 2016 | 23h37

Caçula de uma família de 12 irmãos, dos quais quatro já falecidos, Maicon Andrade é o herói mais improvável do esporte brasileiro no Rio-2016. Há três anos, quando ainda morava na Grande Belo Horizonte, era servente de pedreiro de segunda a sexta e garçom aos sábados. Só aos domingos treinava tae-kwon-do, modalidade que uma medalha de bronze para o Brasil neste sábado.

As coisas só mudaram quando os irmãos Clayton e Reginaldo dos Santos, da equipe de São Caetano do Sul (SP) finalmente o encontraram. Reginaldo o havia visto lutar nos Jogos Regionais de 2012 e gostou da técnica do garoto, então com 19 anos. Levou um ano até achá-lo e convidá-lo para se mudar para o ABC. O começo no alto rendimento foi duro e, por pouco não acabou interrompido.

Após quatro meses, a mãe do lutador, Vitória, foi diagnosticada com câncer e o filho, morando fora de casa pela primeira vez, sentiu o baque. "Ele queria desistir. Chegou um dia chorando. Eu tive uma conversa muito franca com ele: 'Você pode desistir e voltar a ser pedreiro ou pode suportar essas dificuldades e ser medalhista olímpico", lembra Reginaldo. Curada, Vitória estava na arquibancada para festejar o feito do filho e foi a primeira a ser abraçada.

O caminho até o pódio não seria fácil. Uma das pedras encontradas no meio da jornada foi a falta de entendimento entre a Confederação Brasileira de Tae-Kwon-Do (CBTKD) e a Two Brother Team, academia de São Caetano onde Maicon treina. Reginaldo classifica como "política" a decisão de deixar o lutador dele fora do Pan e do Mundial do ano passado.

"O Maicon é um guerreiro. Eles, da confederação, não fizeram nada para que essa medalha fosse conquistada", reclama o treinador. Segundo ele, toda a preparação final de Maicon, no período em que ficou à disposição do Comitê Olímpico do Brasil (COB), foi passada a ele diariamente via Whatsapp.

"Eu me manifestei sobre algumas coisas que não achava certo e cortaram meu irmão da preparação dele. Essa medalha representa um legado moral", continua Reginaldo. Oficialmente, o técnico de Maicon na missão brasileira foi Junior Maciel, presidente da federação do Amapá e treinador pessoal de Venilton Teixeira, o outro homem brasileiro que lutou tae-kwon-do no Rio.

Após a conquista histórica na Arena Carioca 3, Maicon cobrou mais diálogo entre confederação e academias. "Gostaria que a confederação estivesse mais presente com os atletas, buscasse conversar com as respectivas academias dos atletas, acompanhar, ver o dia a dia dos atletas. Já aconteceu de não ter nenhum dinheiro para disputar a competição", lembrou.

Ele se recusou a responder se já fez qualquer viagem internacional bancada pela confederação. Mas reclamou que, para competir num nível olímpico, precisa de rodagem. "Se você não rodar, você não está na Olimpíada."

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