Maracanã recebe ensaio geral para a abertura dos Jogos

Regina Casé foi a rainha da diversidade; rap contagiou plateia e poema de Drummond foi declamado

O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2016 | 05h00

Soquinhos para o alto, palmas, o corpo faz uma onda, braços agitados. A plateia será protagonista da cerimônia de abertura, com coreografias ensaiadas momentos antes do início de festa. Coube a Regina Casé, apresentada como “rainha de diversidade”, interagir com o público: “Caraca, tô no meio do Maraca”, começou. “Tô me sentindo o Pelé”.

Regina ensinou o público a fazer sons da floresta, com batidas de um, dois, três dedos na palma da mão, barulho de chuva, imitar macacos e araras. “Todo mundo de pé. Sacode o braço que nem o ‘boneco do posto’”.

O piso do estádio foi convertido num enorme telão onde foram projetadas as ondas do mar, a terra habitada por índios, os prédios, que pareciam brotar do chão, num bonito efeito. Alegorias simulavam as caravelas portuguesas. Bailarinos negros lembraram a escravidão em acrobacias sobre uma moenda.

O público mostrou empolgação num bonito voo do 14-Bis, uma réplica do avião de Santos Dumont, que começa no estádio c e depois “sobrevoa” a cidade em imagens projetadas nos telões que mostravam desde cartões-postais tradicionais, como a Lapa e o Cristo, às novas paisagens.

Os presentes no ensaio geral no Maracanã sacudiram aos primeiros acordes do Rap da Felicidade (eu só quero é ser feliz / e andar tranquilamente na favela onde eu nasci), e o Maracanã virou um baile funk, com direito a passinhos.

O carnaval carioca não foi representado como ocorre usualmente. Ficaram de fora passistas de biquínis mínimos. A mais importante festa do Rio de Janeiro foi lembrada pelas fantasias coloridas dos blocos de rua - é aí que entra a coreografia da plateia, com soquinhos no ar e braços descoordenados.

A abertura lembra ainda das questões ambientais, como aquecimento global e derretimento da calota glacial. Nos alto-falantes, as vozes alternadas das atrizes Fernanda Montenegro e Judi Dench declamavam A Flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade. O público aplaudiu o anúncio de que serão plantadas 12 mil mudas de árvores na chamada Floresta dos Atletas, o legado ecológico dos Jogos.

Em seguida, teve início a entrada das delegações dos países. Durante a longa (e monótona) entrada dos atletas, baterias das escolas de samba se revezavam circulando a área do antigo gramado, bem junto aos primeiros assentos.

A chegada ao Maracanã serviu como teste para a cerimônia de abertura. O metrô circulou cheio. Um turista francês teve o celular furtado na saída da estação Presidente Vargas, quando um grupo numeroso desceu. Nervoso, ele não quis dar entrevista. “Que absurdo”, repetia.

A entrada no estádio estava organizada. Às 16h40, o acesso levava menos de 10 minutos. Agentes de Força Nacional de Segurança revistavam o público. Quando os espectadores entraram no estádio, encontraram cadeiras sujas.

Enquanto esperavam pelo início do show, os espectadores se distraíam com suas imagens refletidas nos telões, que mostravam um coração se formando em volta dos casais.

Os telões do estádio exibiram avisos de “Mantenha a surpresa. Não tire fotos”. A apresentadora Gloria Maria chamou o público para um “papo reto” e também fez um apelo pela discrição, para “surpreender o mundo”. Mas a recomendação não foi seguida. Muitas pessoas filmaram e fotografaram o ensaio geral da festa de abertura. Dezenas de fotografias e vídeos foram publicados nas redes sociais da internet.

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Estádio tem aperitivo da festa de abertura do Rio-2016

Lea T., filha de Toninho Cerezo, diz cerimônia quer passar mensagem de inclusão

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2016 | 05h00

Além de contar, em apresentações teatrais e de dança, a história do Brasil e a formação do povo brasileiro, a cerimônia de abertura da Olimpíada, no Maracanã, na noite de sexta-feira, abordará temas atuais, como o respeito à diversidade racial e sexual. Aos já confirmados Gilberto Gil, Caetano Veloso, Anitta, Elza Soares e Gisele Bündchen, somam-se ao elenco de artistas e celebridades a MC paulistana Soffia, que aos 12 anos já é ativista contra o racismo, a rapper curitibana Carol Conka, do sucesso feminista "Tombei", e a modelo transexual Lea T.

Em entrevista à rede britânica BBC divulgada na semana passada, Lea T. se disse orgulhosa por levantar a bandeira da diversidade sexual num evento para 70 mil pessoas no Maracanã, e assistido por 3 bilhões em todo o mundo. Ela será a primeira transexual a ter um papel de destaque numa abertura de Olimpíada, que será às 20 horas e se estenderá até as 23h30.

"Não posso falar nada ainda, precisamos manter a surpresa. Mas a mensagem será muito clara: inclusão. Todos, independentemente de gênero, orientação sexual, cor, raça ou credo, somos seres humanos e fazemos parte da sociedade. Meu papel na cerimônia, num universo micro e representativo, ajudará a transmitir esta mensagem", disse Lea T., filha de Toninho Cerezo, ex-jogador da seleção brasileira de futebol.

Os criadores da cerimônia são os cineastas Fernando Meirelles (Cidade de Deus), Daniela Thomas (Terra estrangeira) e Andrucha Waddington (Eu, tu, eles). Os três já declararam que a festa é o maior desafio de suas carreiras, pelas grandes dimensões: as apresentações, que envolvem 5.500 pessoas, entre bailarinos e amadores, selecionados em audições, ocuparão quase todo o gramado do Maracanã, com 128 metros de comprimento por 63 metros de largura.

"Nunca fiz nada nessa escala nem nunca mais farei na vida. Tudo é muito grande, o palco é muito grande. É uma responsabilidade enorme", declarou Meirelles no dia 18, durante o revezamento da tocha olímpica em Ribeirão Preto.

Segundo Abel Gomes, diretor executivo de criação, a cerimônia será "diferente, com um olhar voltado para o futuro". "Ao contrário das cerimônias anteriores, que sempre foram centradas no passado e que celebraram as conquistas nacionais, queremos dialogar com o planeta inteiro através do convívio com as diferenças para além das fronteiras, o esgotamento dos recursos naturais, a união entre povos e a paz, que é um dos pilares de toda celebração olímpica. O Brasil é um país mundialmente conhecido pela exuberância natural", disse.

Gomes é sócio da SRCOM, empresa que traz a expertise de um grande evento anual: há nove anos realiza o réveillon de Copacabana. Na Olimpíada, a SRCOM trabalha em parceria com a holding italiana FilmMaster Group. "Vamos mostrar que somos um país alegre e receptivo, que gosta de receber visitantes e mostrar para o mundo o que temos de melhor. Vamos exaltar a riqueza da cultura popular brasileira, da garra e da paixão de milhares de voluntários para pensar em uma grande celebração", explicou. Ainda há ingressos à venda no site dos Jogos do Rio, mas apenas para o setor mais caro, por R$ 4.600.

GASTOS

Por causa da crise econômica, a cerimônia não será rica em recursos tecnológicos, como foram as edições de Londres (2012) e Pequim (2008). O orçamento é de cerca de R$ 100 milhões, um terço do que a Inglaterra gastou há quatro anos. No total, nas quatro noites de cerimônias (contabilizando o encerramento da Olimpíada e abertura e encerramento da Paralimpíada) serão investidos R$ 250 milhões.

As festas da Paralimpíada serão criadas por uma equipe que inclui o escritor Marcelo Rubens Paiva, o designer Fred Gelli e o artista plástico Vik Muniz. Uma obra de Vik será reproduzida no gramado do Maracanã, em um enorme mosaico formado por figurantes.

A intenção do grupo criativo é dar leveza às dificuldades físicas por que passam os atletas paralímpicos e retratá-los como fontes de inspiração para os que não têm necessidades especiais. A cerimônia de abertura tem a pretensão de elevar o interesse das modalidades paralímpicas ao mesmo patamar das olímpicas.

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Show terá o menor número de chefes de Estado em 16 anos

Evento terá somente 45 representantes de governos. Nos Jogos de Londres, mais de 90 estiveram presentes

Jamil Chade - Enviado especial ao Rio, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2016 | 05h00

A abertura dos Jogos terá o menor número de chefes de Estado em 16 anos. Mas, mesmo assim, a ala VIP do estádio do Maracanã será transformada em uma intensa sala de negociações, campanhas e luta por prestígio político. No total, 45 chefes de Estado e de governo estarão no local. O número é o menor desde o evento em Sydney, em 2000. Em Atenas, em 2004, 48 lideranças internacionais estavam presentes. Há quatro anos, em Londres, foram mais de 90.

Desta vez, o Brasil não conseguiu convencer nenhum líder dos Brics a estar no evento. Muitos sul-americanos também irão ignorar o convite. Outros, pelo mundo, gostariam de esperar a definição do processo de impeachment no Brasil para fazer uma visita oficial ao País.

Apesar disso, cada um que fará a viagem não estará lá apenas pelos valores olímpicos. Maurício Macri, presidente da Argentina, viajará com um triplo objetivo: mostrar que seu país voltou a estar aberto ao mundo, dar apoio ao presidente interino Michel Temer e ainda começar uma campanha para voltar a colocar Buenos Aires na rota dos eventos internacionais.

Uma competição singular ainda promete ocorrer. O presidente da França, François Hollande, desembarca com a missão de convencer o COI a dar a Paris os Jogos de 2024. Ele dará entrevistas, terá uma intensa agenda e ainda promete fazer lobby entre os dirigentes.

Mas ele não estará sozinho. Viktor Orban, primeiro-ministro húngaro, é outro que estará no Rio para levar os Jogos para Budapeste em 2024. Já a cidade de Los Angeles terá o secretario de Estado norte-americano, John Kerry, no lobby.

Para que não haja incidente diplomático, a ordem foi a de que todos sejam instalados no Maracanã em ordem alfabética. E o protocolo já foi avisado para tentar evitar que líderes burlem as regras para poder ganhar mais atenção das câmeras. A transmissão do evento também já estudou cuidadosamente onde cada líder estará para que, na passagem de seus atletas pelo desfile, a imagem do governante seja mostrada ao mundo.

O esforço de ver e ser visto não se resume aos líderes internacionais. O Rio-2016 entregou convites a todos os senadores e deputados brasileiros, sob a justificativa de estarem "representando o povo". Entre os organizadores, não há ilusões de que muitos estarão em campanha para eleições municipais.

Delicada também será a participação de Michel Temer, que vai declarar aberta a Olimpíada. Os organizadores já se prepararam para uma eventual vaia. Todos os ex-presidentes brasileiros e a presidente afastada Dilma Rousseff foram convidados. FHC, Lula e Dilma já avisaram que não estarão no Maracanã.

No COI, se a regra é de convencer a todos de que o esporte e política não se misturam, os camarotes do Maracanã borrarão qualquer fronteira entre essas duas atividades humanas. "No Rio, teremos um encontro político", admitiu Ching-Kuo Wu, um dos membros mais influentes hoje na cúpula do COI.

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Coreografia de bailarinos na cerimônia vai desafiar a gravidade

Direção do movimento de cerimônia está sob responsabilidade de Deborah Colker

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2016 | 05h00

Uma das mais prestigiadas coreógrafas do mundo, a carioca Deborah Colker não é por acaso a diretora de Movimento da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos do Rio. Basta analisar seu mais recente trabalho, VeRo, que já passou por São Paulo e pelo Rio. Trata-se basicamente da noção de espaço e de como resulta em algo contraditório o diálogo com o espaço. Trocando em miúdos, Deborah idealizou VeRo com movimentos artísticos que remetem à prática esportiva como veículo para a liberdade expressiva e orgânica, refletida no espírito olímpico.

Quem assistiu a VeRo vai reconhecer durante as apresentações na Cerimônia de Abertura alguns movimentos idênticos. Deborah gosta de flertar e desafiar a gravidade em coreografias que exigem um enorme preparo físico de seus bailarinos. Como no movimento que encerra VeRo, Roda, quando uma aparelho como esse, medindo 5 metros de altura, transforma o palco em uma espécie de parque de diversões.

Inspirada na rotação da Terra, Roda traduz a investigação constante que Deborah faz dos conceitos da física e da mecânica do movimento. E esse trabalho é um dos esperados entre os que serão mostrados ao público no estádio do Maracanã, na sexta-feira.

Outro trabalho deverá incluir na Cerimônia de Abertura uma espécie de montanha de ferro, na qual os bailarinos escalam até o cume e de lá deslizam até embaixo, um exercício sincronizado no qual o esforço de cada um é decisivo no equilíbrio do gasto de energia, ou seja, os movimentos de quem desce são imprescindíveis para a execução de quem sobe.

Para Deborah Colker, o espetacular está na agilidade humana e não apenas na parafernália eletrônica e pirotécnica. Ciente de que apresentará um trabalho para milhares de espectadores que estarão nas arquibancadas do Maracanã na sexta-feira, ela criou coreografias que, à distância, revelam o trabalho em conjunto de dezenas de pessoas no gramado.

EFEITO ESPECIAL

Para quem assistir pela televisão e, portanto, com direito a acompanhar detalhes, a coreógrafa preparou movimentos belos e aparentemente simples na execução, mas que, na verdade, desafiam a capacidade física de cada bailarino que, em um belo efeito especial, alcança a proeza de parar no ar, algo conquistado apenas pelos beija-flores e por Dadá Maravilha.

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