Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Me Tarzan, you Jane

Como o choro está um pouco gasto, apareceu o outro modo de exteriorizar 'emoções': o berro

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2016 | 03h00

As lágrimas estão um pouco fora de moda. Cansamos de ver pessoas chorando de emoção. Por muito tempo foi um espetáculo que fez as delícias da televisão. Hoje alguma coisa me diz que está um pouco gasto, já que todos choram. Até o câmera, aposto que muitas vezes estava chorando quando se aproximava apressado dos olhos de alguém “emocionado”.

Estava na hora de aparecer uma outra coisa. Não sei se estou certo, mas acho que apareceu esse outro modo de exteriorizar “emoções”, sobretudo diante da vitória. Trata-se do berro. Um berro primitivo, em que o atleta, comemorando, se esgoela para demonstrar como a vitória mexe com o mais profundo do seu ser.

Creio que nem no reino animal há berros assim. Nunca vi nem em filmes animais berrarem diante de outro animal caído a seus pés. Mas é assim, e o costume acabou não poupando evidentemente as mulheres. Elas também urram e berram com os mesmos gestos de mãos fechadas e punhos sacudidos em direção de adversários reais ou imaginários.

Esportes onde nunca se viu mais do que discretas comemorações , como por exemplo a natação, hoje se manifestam através do berro selvagem, mesmo com o nadador ainda dentro da água. Talvez escape ainda a esgrima, certamente por causa da proteção do rosto que, infelizmente, atrapalha a visão de alguma cara convulsionada pelo grito, na suposição de que algum esgrimista esteja, ao fim do duelo, urrando atrás da tela.

Falta ainda o som do berro apavorante, no momento substituído pelo berro correspondente emitido pelos narradores. De fato, em qualquer padaria desta cidade fregueses e serviçais derrubam cafés e bandejas, assustados por berros súbitos que vêm de alguma TV próxima, mesmo quando a partida é de tênis.

Num futuro, que acho pouco distante, certamente alguém vai inventar de colocar microfones nos lutadores e jogadores mais prováveis de emitir o berro. Daí é só abrir o microfone na hora certa e teremos finalmente o berro sonoro, imagem e som. Ou, sofisticação das sofisticações , apenas dublar os uivos e berros por vozes ainda mais possantes, selvagens e assustadoras. Por que não?

Por enquanto, vou continuar de olho nos atletas, que é o que temos. E nos brasileiros, principalmente. O que querem nos dizer? Uma possibilidade é que, sendo legítimos representantes do modo de viver atual, extremamente competitivo no pior sentido da palavra, queiram deixar claro que fazem parte dos vencedores, dos que entram numa competição para matar ou morrer. Cruéis e impiedosos como qualquer executivo atrás de um notebook.

Pode ser também que o fenômeno seja um produto desse tempo cheio de câmeras , onde todos filmam e são filmados e onde se exige, portanto, que todos sejam atores. Esses atletas, dos berros e das carrancas de triunfo, representam o papel que julgam o mais apreciado. Pensam estar de acordo e ter a admiração de um público que aprecia cada vez mais a violência , seja no cinema, seja nessas lutas que deixam para trás o que havia de mais violento no boxe. Certamente os atletas-atores, que sabem que alguma câmera sem dúvida vai focalizá-los em close no momento da vitória, urram e berram como se estivessem num filme. No fundo trata-se apenas de pobres efeitos especiais e a carranca e o urro não passam de mau teatro.

Alguns nem têm a aparência necessária para a performance que pretendem. Há jovenzinhos bem tratados, no rosto dos quais a carranca assenta muito mal. Querem meter medo em quem? Curiosamente num tempo em que nas guerras de verdade quase desapareceu o combate e a valentia pessoal, substituídos por prudentes, distantes e indiscriminados ataques aéreos, é preciso talvez demonstrar que, em algumas circunstâncias, o homem ainda pode ser bravo. E, certamente por isso, o berreiro que se vê nesses jogos olímpicos faz corar de vergonha velhos Tarzans e seus gritos na selva

Mais conteúdo sobre:
Jogos Olímpicos Tarzan Ugo Giorgetti

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.