Ueslei Marcelino / Reuters
Ueslei Marcelino / Reuters

Abner é fruto de um projeto social de Sorocaba e encontrou no boxe uma chance na vida

Brasileiro está na semifinal dos Jogos de Tóquio e já garantiu medalha de bronze; ele quer melhorar a condição da sua família com seu trabalho nos ringues; COB paga R$ 250 mil de prêmio pelo ouro

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 13h01

Com 1,93 metro e cerca de 90 quilos, Abner Teixeira não tem biótipo do boxeador brasileiro, mais presente nas categorias de menor peso. Mas sua habilidade e movimentação em cima no ringue, como ele tem feito aos 24 anos nos Jogos Olímpicos de Tóquio, impressionam os fãs na nobre arte. A cada luta vencida, ele se aproxima de seu objetivo: ajudar a família a melhorar de vida, comprar uma casa para sua mãe e se estabilizar nos ringues. Ele já garantiu o bronze em Tóquio.

"Esta medalha é importante, mas não vai mudar minha vida totalmente. Ela vai me ajuda a abrir portas, mas tenho de continuar firme em busca dos meus objetivos. Ainda tenho o que fazer aqui em Tóquio e depois que voltar para o Brasil, preciso melhorar, disputar talvez dois Mundiais e obter vitórias", disse o boxeador, depois de derrotar o jordaniano Hussein Iashaish, sexta-feira, em uma da melhores lutas da Olimpíada.

Nascido em Osasco, Abner tentou várias modalidades esportivas antes de chegar ao boxe. Fez atletismo, basquete e futebol. Mas foi em cima dos ringues, por intermédio de um projeto social, o "Boxe - Mãos para o Futuro", em Sorocaba, para onde a família se mudou em 2011, que o então garoto de 15 anos conheceu e se apaixonou pela modalidade.

"Meus pais sempre me apoiaram em tudo que quis fazer na vida. Mesmo perdendo ou ganhando, eles sempre estiveram lá. Sempre torcendo, dizendo para eu continuar", disse o lutador, que na terça-feira, diante do cubano Julio La Cruz, vai tentar alcançar a final olímpica na categoria até 91 quilos. Se isso acontecer, ele dará mais um passo no seu sonho. O Comitê Olimpico do Brasil estipulou pagar R$ 250 mil para os atletas que ganharem medalha de ouro em Tóquio. Isso se for numa modalidade individual, como é a de Abner. 

O boxe mostrou um caminho para Abner. Foi usando suas luvas que ele se tornou bicampeão brasileiro juvenil (2013 e 2014), bicampeão brasileiro de elite (2015 e 2016) e ouro no torneio Sul-Sudeste. O pugilista olha para trás e sabe que tem de agradecer a muitas pessoas por ter conquistado a medalha olímpica, desde o professor Vladimir Godoi, que viu talento no garoto recém-chegado ao projeto social, a todos aqueles que o ajudaram a se credenciar para a Olimpíada. 

"Não se obtém sucesso e vitórias sozinho. Aprendi muita coisa com muita gente e vou continuar ao lado das pessoas que me ajudaram a chegar até aqui. O caminho ainda é longo. Vamos em busca de mais vitórias porque o boxe brasileiro precisa e merece isso", disse o boxeador.

Como tantos outros atletas amadores no Brasil, Abner também teve de se desdobrar para seguir na profissão. Ele precisava caminhar seis quilômetros diariamente para chegar à academia em que treinava quando era adolescente. Não havia outro recurso. Mas isso nunca o fez desanimar. Dessa forma, Abner também foi bronze no Pan de Lima, em 2019. Talvez isso explique por que ele se ajoelhou no ringue após o juiz dar a vitória para ele nesta sexta. Sabia exatamente o tamanho do seu suor para se transformar num medalhista olímpico. Só precisa agora definir de que cor essa medalha será.

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