Medalhistas da vela viraram empresárias para poder competir

Fernanda Oliveira e Isabel Swan conseguiram patrocínio antes mesmo de ter conquistado a medalha olímpica

Marina Wentzel - BBC Brasil,

18 de agosto de 2008 | 06h54

Em um ambiente onde muitos atletas precisam bancar a campanha olímpica do próprio bolso, a dupla de vela da classe 470 Fernanda Oliveira e Isabel Swan é uma raridade. As duas brasileiras conseguiram arranjar patrocínio antes mesmo de ter conquistado a primeira medalha olímpica.Veja também: Vela feminina do Brasil conquista 1.ª medalha na história A campanha brasileira na Olimpíada de PequimA dupla venceu a última regata da classe nos Jogos de Pequim nesta segunda-feira e conquistou a medalha de bronze - a primeira da história da vela feminina brasileira em uma Olimpíada.Além de todo o treinamento esportivo normal de uma equipe olímpica, a dupla usou a experiência em administração e marketing esportivo de Fernanda para montar o modelo de gestão que rendeu o bronze em Pequim.Treinando juntas desde 2005, a dupla conta com o apoio de uma marca internacional de cosméticos para a realização do projeto olímpico, que incluiu treinos diários de seis horas e a assistência integral de um treinador, um psicólogo e uma personal trainer.Muitos atletas brasileiros ainda enfrentam dificuldades em encontrar patrocínio e acabam arcando com os custos do treinamento sozinhos.Na vela mesmo, a dupla Rodrigo Duarte e André Fonseca, que compete na classe 49er, se financiou com o salário que Fonseca recebeu por participar da regata de volta ao mundo Volvo Ocean Race no barco Brasil 1 de Torben Grael. O apoio de patrocinadores só veio às vésperas dos jogos."Infelizmente a vela é um esporte que ainda não tem muita divulgação no Brasil", diz Isabel Swan.CAMPANHA A campanha da dupla foi planejada pela velejadora Fernanda Oliveira. Após participar da Olimpíada de Sidney/2000 e Atenas/2004, ela percebeu que era necessário se profissionalizar. "Eu já tinha feito outras campanhas e nas outras vezes foi a minha família que me ajudou", conta."Mas depois de Atenas eu sabia que ou eu continuava de uma maneira bem profissional e conseguia um patrocínio, ou realmente ficava difícil competir de igual para igual, porque realmente é um nível muito profissional", diz.Aproveitando as lições que aprendeu na faculdade de administração, onde se formou com um trabalho de conclusão sobre captação de recursos para marketing esportivo, montou sozinha todo o projeto olímpico e foi bater na porta dos patrocinadores."Fui apresentada para o presidente da Nivea e em três meses de negociação eu consegui levantar esse patrocínio", relembra ela.Após fechar o acordo em 2005, a velejadora partiu para a montagem da equipe e chamou Isabel Swan. "Eu precisava de uma pessoa com disponibilidade total e a Bel foi super dedicada desde o início, ela se propôs a mudar para ir treinar em Porto Alegre", explica.Original de Niterói, no Rio de Janeiro, Isabel é ex-modelo e teve de ir morar no sul para participar da campanha. "Ela me chamou pela minha postura, pela minha vontade, e eu fui com 21 anos morar sozinha em Porto Alegre", conta.A dupla não revela em valores quanto recebe dos patrocinadores, mas o apoio permitiu que elas treinassem por três anos nas águas do Rio Guaíba, na capital gaúcha, antes de chegar a Qingdao, costa leste da China onde estão sendo disputadas as provas olímpicas.O apoio da confederação de vela também foi decisivo pois as passagens aéreas, hospedagens, alimentação e traslados de todas as competições internacionais são bancados pela organização.BELEZA Além de serem competentes atletas, Fernanda e Isabel também são bonitas e simpáticas. A dupla porém discorda entre si sobre a importância que esses atributos têm na hora de conseguir patrocínio, mesmo em se tratando de uma empresa de produtos de beleza.Fernanda não acredita que a beleza tenha ajudado a dupla. "Eu não vejo isso muito. Os resultados começaram a aparecer e o Comitê Olímpico e a Federação começaram a nos apoiar e isso sim facilitou muito", explica.Já Isabel acha que ter uma boa aparência faz parte do jogo. "O que vale mesmo é você estar na mídia. Para o marketing esportivo, de repente você nem precisa estar ganhando tanto, mas se você está aparecendo, se você está sendo falada, se as pessoas te conhecem, isso faz a diferença".Isabel Swan admite que a dupla cuida da aparência. "A gente procura estar sempre com a pele muito bonita, porque a marca é de mulher bonita, então tem que estar bem. Mas também cuidamos deste lado independente de sermos atletas porque não podemos descuidar, afinal somos mulheres também", diz a atleta.

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