Daniel Teixeira|Estadão
Bruna Takahashi, de 16 anos, é a mais nova da delegação Daniel Teixeira|Estadão

Atletas menores de idade precisam de permissão para ir aos Jogos

Jovens conciliam rotina de treinos com o fim da adolescência

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2016 | 07h00

A ginasta Flavia Saraiva ainda dorme com os pais. Ela tem seu quarto, todo bonitinho, mas sempre dá um jeito de se embolar com a dona Fabia e o seu João. E leva o irmão junto, o Junior. Outra coisa que ela gosta de fazer é ficar pulando na cama – dessa vez, na dela mesmo – como fazia antes de se tornar uma das grandes esperanças de medalha da ginástica. A alma de menina, no entanto, abre um cantinho para a vida de atleta. Quando tem dor de cabeça, ela dispensa os comprimidos de dona Fábia, não toma nem os infantis, e liga para o médico da confederação. Medo de doping. Cada caçula dos Jogos encontra uma receita particular para viver essa vida dupla, de ser atleta e menor de idade.

Ricardo Takahashi afirma que a filha Bruna deu um salto em distância, da infância para a vida adulta, sem passar pela adolescência. "Ela só brincou de boneca até os sete, depois só raquete e a bolinha", diz o analistas de sistemas. 

O pingue-pongue virou tênis de mesa com os títulos. Ao ganhar o Desafio Mundial Infantil, em outubro do ano passado, em Doha, ela se tornou a primeira brasileira a vencer um torneio desse nível no tênis de mesa. Aos 16 anos, ela é a caçula da delegação. 

Bruna joga tênis de mesa por seis horas diárias, de segunda-feira a sábado. Chega ao CT às 8h45 e fica lá até por volta de 11h45. Almoça, faz uma hora de preparação física (às terças e quintas) e treina de novo à tarde. Toma banho e vai para a escola, o Colégio Singular, em Santo André. Sua preocupação é recuperar as lições da escola que vai perder durante a Olimpíada. O jeito vai ser à recorrer às amigas do segundo ano do Ensino Médio. 

Estudar à distância foi a saída encontrada por Flávia Saraiva. Ela só vai ao Colégio Anglo-Americano para fazer as provas. Não tira dez, mas consegue o sete que precisa para passar e, nessa toada, já está no último ano do Ensino Médio. "O forte dela é a Matemática. Puxou a mãe", orgulha-se dona Fabia. 

Gabrielle Roncato, a mais jovem da equipe de natação, sentiu falta da vida escolar. Depois de ter iniciado a carreira em Santos, a nadadora, que fez 18 anos na última quarta-feira, azucrinou os pais para treinar no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. E toca a família se dividir: uma parte ficou em Santos, outra na capital. No final do ano passado, quis voltar para Santos. "Ela não gostava muito de ficar falando só da natação. Queria conhecer outras coisas", diz a mãe Andrea. 

A dona da medalha de ouro no Sul-Americano Juvenil de Natação, com quebra de recorde nos 100 m livre, em 2015, e a prata no Pan de Toronto nos 4 x 200 m livre está no primeiro ano de Direito. Seu desafio agora é levar a família de volta para Santos. 

Para Alexander Ferrer, treinador de saltos ornamentais e que tem Giovanna Pedroso, também de 17 anos, na equipe, é um desafio é conciliar escola e treino. "Nas horas livres, o atleta tem de se recuperar. Com isso, mesmo na adolescência, o atleta tem de abrir mão de festas e feriados". 

FINANÇAS

Gabi é "quase" dona do próprio nariz desde que ganhou o primeiro comprovante de rendimentos aos 12 anos de um patrocínio em Santos. Hoje, ela divide o apartamento com uma amiga. Mas a independência conquistada com patrocínios pessoais e incentivos federais vai até a página 2 da fatura do cartão de crédito. "Ela sempre pede socorro", diz o pai, o engenheiro automobilístico Roberto.

A carência também é afetiva. Ela fez questão que todo mundo descesse a serra para o aniversário e come a comida feita pela mãe, mesmo congelada. E ainda sente falta do leite com achocolatado e das refeições com todos os irmãos juntos na mesa. "Vou poder viajar sem precisar da autorização dos pais", celebra.

Entre as poucas escorregadelas de adolescente de Bruna está a paixão pelos seriados de terror, como Diário de um Vampiro e Sobrenatural. Ela queria ter feito uma festa de 15 anos e um anel de debutante. Por enquanto, ganhou apenas o segundo. O brilhante ainda fica meio largo nos dedos finos e ágeis – e, obviamente não dá para jogar com ele. 

O salto para a vida para a adulta para no ar quando o tema é outro tipo de paixão. O pai dá uma risada saborosa, fora dos padrões orientais, quando perguntado sobre namoro. "Só depois da próxima Olimpíada", sorri. "Tenho de aproveitar esse momento. Tudo tem sua hora", concorda a filha. 

Para as caçulas, os Jogos não representam apenas uma espécie de estágio olímpico. Na ginástica, Flavia tem chances reais de medalha. "Procuro deixá-la solta, sem cobrança. Meu marido diz que ela ainda não sabe direito o que está acontecendo e é melhor que seja assim", diz dona Fabia. 

Roncatto sonha com uma final dos 4 x 200 m livre, feito que o Brasil não consegue há 12 anos. Ela diz que não quer só aprender, ficar olhando os mais velhos, mas também quer mostrar o que tem bom. 

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COB repete projeto para preparar futuros calouros

Entidade leva ao Rio jovens esportistas que não conseguiram vaga olímpica

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2016 | 07h00

O Comitê Olímpico do Brasil reedita no Rio 2016 a experiência de levar um grupo de esportistas que não conseguiram vaga olímpica ganhar a experiência para Tóquio/2020. O projeto "Vivência Olímpica", iniciado em Londres/2012, é uma maneira de preparar a próxima geração de atletas.

O objetivo é permitir que vivenciem o ambiente olímpico, diminuindo a ansiedade e a pressão de uma estreia. Ao todo, 20 nomes estão participando de diversas atividades de treinamento, acompanhamento o dia a dia de sua modalidade e poderão assistir às competições. Além disso, terão acesso à Vila Olímpica.

Entre os nomes estão atletas que chegaram muito próxima da vaga no Rio, como Marcelo Costa, reserva da equipe de tiro com arco, Gabriela Cecchini, também reserva na esgrima, e Nathália Brígida, do judô, que quase deixou Sarah Menezes, medalhista em Londres, fora da Olimpíada.

Também foram convidados Beatriz Ferreira (boxe), Emily Figueiredo (levantamento de peso), Joílson Ramos (luta greco-romana), Maria Paula Heitmann (natação), Gabriel Bastos (vela), Andrea Santos (canoagem velocidade), Anderson Ezequiel (BMX), Ângelo Assumpção e Thaís Fidélis (ginástica artística), Rafael Macedo (judô), Felipe Ribeiro (natação), Edival Marques (tae kwon do) e Manoel Messias (triatlo). A lista será completada com mais nomes do atletismo, que serão definidos depois do Mundial Sub-20, disputado na Polônia.

"Com essa ação de levar atletas para vivenciarem o ambiente olímpico, pretendemos quebrar a ansiedade natural que antecede uma competição como esta", explica Sebastian Pereira, gerente de Performance Esportiva do COB e líder do Projeto Vivência Olímpica Rio-2016.

Em Londres-2012, o projeto deu certo. Metade daquela equipe chega aos Jogos do Rio com chances de medalha. O principal nome é o de Isaquias Queiroz, candidato ao ouro na canoagem. Thiago Braz (atletismo), Rebeca Andrade (ginástica artística), Laís Nunes (lutas), Hugo Calderano (tênis de mesa), Bernardo Oliveira (tiro com arco), Felipe Wu (tiro esportivo) e Martine Grael (vela) também têm boas chances de sucesso no Rio. "Foi uma grande experiência poder viver o clima olímpico antes de competir", disse Thiago Braz, do salto com vara.

Bruna Takahashi, uma das grandes revelações do tênis de mesa, sabe que a participação nos Jogos Olímpicos de 2016 será uma experiência única de aprendizado. Porém, a jovem espera subir ao pódio apenas em 2018, na Olimpíada da Juventude. Só depois pretende pensar nos Jogos de Tóquio.

"Como sou da categoria juvenil, tenho que melhorar para ter um bom nível para jogar pela categoria adulto. Meu sonho é chegar ao alto nível e estar entre as 100 melhores do mundo. Também vou batalhar para jogar nas Olimpíada da Juventude em 2018 e chegar ao pódio", diz.

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