Fabio M. Salles|Estadão
Gustavo Borges sofreu com a cronometragem na Olimpíada de Barcelona, em 1992 Fabio M. Salles|Estadão

Métrica do esporte: o sistema de contagem de tempo

Engenharia garante a precisão dos resultados, mas o mau funcionamento pode causar transtornos

Gustavo Zucchi e Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

O ano era 1992. O jovem nadador brasileiro Gustavo Borges, então com apenas 19 anos, se preparava para nadar a final dos 100 metros livre ao lado dos atletas mais rápidos do mundo na Olimpíada de Barcelona, em 1992. Após tocar o fim da piscina, erguer a cabeça e olhar o placar, uma grande decepção tomava conta de Gustavo: 5º lugar, sendo que seu tempo sequer estava contabilizado. Mal sabia ele, naquele momento, que havia feito história.

Por uma falha no touchpad da piscina, o placar deixou a cronometragem de Gustavo em branco durante minutos. Quando divulgado, o tempo apontava 1m02s, colocando o brasileiro em último lugar e gerando revolta entre a equipe do nadador, a torcida brasileira e sua família, que assistia da arquibancada. A olho nu, era claro que Gustavo havia chegado junto ao bloco dos competidores. “Está claro que ele conseguiu, no mínimo, o terceiro lugar”, bradou o presidente da CBDA à época, Coaracy Nunes.

Uma segunda revisão foi feita, colocando, agora, o brasileiro em quarto lugar, com a marca de 49s53, bem abaixo dos 1m02s divulgado previamente. Gustavo permanecia indignado, sentado à beira da piscina de aquecimento com as mãos na cabeça. Até que, 40 minutos depois da prova, veio o tempo oficial: 49s43. Gustavo Borges era medalha de prata em Barcelona.

“A expectativa era ganhar uma medalha. Estava bem treinado e preparado para isso. Na prova, o fator da cronometragem foi terrível. O placar eletrônico não funcionar em uma situação como esta é praticamente inadmissível. Eram quase 12 segundos a mais”, lembra Gustavo Borges, que ainda ganharia mais três medalhas olímpicas: duas em 1996 (de bronze e de prata) e uma em 2000 (de bronze).

“Estava na piscina de aquecimento quando começou a comoção geral, pessoas gritando, repórteres comemorando… Foi uma medalha muito sofrida, afinal, ganhamos poucas naqueles Jogos. Vi aquela algazarra na área dos repórteres, ouvi os gritos de ‘é prata!’, saí correndo e fui buscar a minha medalha. Acho que foi uma das mais importantes. Por toda a história, o contexto, a representatividade… É uma história gostosa de ser contada e foi um marco na minha carreira. A Olimpíada de 1992 tem um gostinho especial, apesar de meu melhor desempenho ter sido em 1996”, afirma Gustavo.

Este episódio serve para retratar a importância do bom funcionamento dos aparelhos de cronometragem, principalmente em um ambiente de Jogos Olímpicos, em que resultados e até medalhas, como no caso de Gustavo Borges, podem acabar sendo comprometidos.

Boa parte dos aparelhos que são utilizados atualmente no auxílio aos árbitros nos Jogos Olímpicos foram inventados há décadas. Porém, isso não quer dizer que tenham se tornado obsoletos. Pelo contrário, eles ainda são referências nas métricas do esporte e vêm sendo constantemente aprimorados para garantir uma maior isonomia de resultados. “Decisões de olho humano foram retiradas dos Jogos desde a década de 40. Agora, temos a precisão das máquinas”, afirma Alain Zobrist, CEO da Omega, empresa de relógios manufaturados que fornece contadores ao Comitê Olímpico Internacional desde a Olimpíada de Los Angeles, 

“É verdade que a cronometragem eletrônica fez uma grande diferença. O olho humano obviamente tem limitações para a cronometragem. Mas nós continuamos dependendo do senso humano para concepção, engenharia e operação do equipamento. Graças a isso, os juízes têm agora toda as informações de que precisam para entregar as decisões corretas”, finaliza Alain. Comprometida em continuar evoluindo suas mecânicas e garantindo precisão nos resultados, a Omega tem contrato com o Comitê Olímpico Internacional e continuará a cronometrar as provas das Olimpíadas até a edição de 2020, que acontecerá em Tóquio.

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Entenda a ciência por trás da cronometragem olímpica

Contagem nos Jogos é feita pela mesma empresa há 84 anos

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

Ao contrário do que muitos pensam, cronômetro é um certificado emitido pela COSC - Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres (ou Controle Oficial Suíço de Cronômetros) que atesta a alta precisão de um relógio. O aparelho, em si, que cronometra o tempo chama-se contador ou cronógrafo, utilizado para medir o tempo em milésimos de segundo ou até unidades ainda menores, com o apoio da tecnologia. O primeiro deles foi desenvolvido em 1898 e tinha a precisão de contar até um quinto de um segundo.

Porém, a cronometragem passou a ser usada em Olimpíadas apenas na edição de 1932,em Los Angeles, que também trouxe o pódio até o terceiro lugar e juízes de boxe dentro dos ringues. Antes disso, eram necessários, por exemplo, 24 juízes para determinar a ordem de chegada dos nadadores em uma piscina. Por isso, a Olimpíada de 1932 foi determinante para o processo de profissionalização dos esportes.

Já na primeira edição, a cronometragem provou seu valor e sua indispensabilidade, já que as americanas Mildred Didrikson e Evelyne Hall terminaram a corrida de 80m com barreira com o mesmo tempo. A diferença só foi notada no filme da chegada, que deu o ouro a Didrikson. Nos 100m livre masculino, o mesmo problema aconteceu com Edward Tolan e Ralph Metcalfe, também ambos dos EUA. Tolan levou a melhor.

Nestes 84 anos, o Comitê Olímpico Internacional contou com apenas uma empresa responsável pela cronometragem das provas: a Omega, empresa suíça de relógios manufaturados de luxo. De lá para cá, a empresa sempre apresentou novidades a cada edição e, no Rio, em 2016, não deve ser diferente. Inovações estão previstas para serem anunciadas em maio.

Após as duas Guerras Mundiais, a Omega levou às Olimpíadas de Londres, em 1948, as células fotoelétricas, ou seja, câmaras que paravam o cronômetro exatamente na hora que o atleta cruzasse a linha de chegada, por meio da interação com a luz. Isso acabou abolindo as faixas da linha de chegada, que serviam de referência para parar o cronômetro. Para a época, este tipo de tecnologia era algo avançado, por isso, estas câmeras ganharam o apelido de ‘olho mágico’ (ou photo-finish). A própria foto da chegada também pode ser usada em caso de dúvidas mais persistentes. Ainda foi instalado um dispositivo dentro da pistola de largada, que trouxe os blocos de partida às competições e aboliu a largada falsa.

Por fim, em 1968, nos Jogos da Cidade do México, foi introduzido o touchpad na natação, mecanismo que permite que o atleta pare seu próprio cronômetro ao bater a mão no fim da piscina (instrumento que não funcionou no caso de Gustavo Borges, em Barcelona-1992).

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