Patrick B. Kraemer/EFE
Patrick B. Kraemer/EFE

Michael Phelps não participará da Olimpíada de Tóquio, mas seus pupilos sim

Nas provas de natação dos EUA, a influência de Phelps é abundante entre os atletas que ele orientou e aconselhou enquanto o esporte tenta superar sua aposentadoria das piscinas

Karen Crouse, The New York Times

21 de junho de 2021 | 15h00

O jogo de luzes apresentado dá aos fãs a sensação de estarem presos em um lustre gigante de gotas de chuva de cristal, e faz parte do legado de Michael Phelps. Com um recorde de 28 medalhas olímpicas, sendo 23 delas de ouro, Phelps transformou as seletivas de natação dos Estados Unidos para os Jogos Olímpicos de reuniões de famílias a cada quatro anos em um espetáculo que ele descreveu como “quase sufocante”.

Phelps, 35 anos, esteve presente nessas provas por tanto tempo que sete das oito nadadoras finalistas nos 100 metros borboleta não tinham nem nascido na última vez que ele foi a um desses eventos apenas como espectador, em 1996. Para se ter ideia do tamanho de seu reinado, Phelps é detentor do recorde mundial nos 400 metros medley por quatro meses a mais do que a vencedora da prova dos 100 metros borboleta, Torri Huske, 18 anos.

Após cinco anos de aposentadoria, Phelps trocou o isolamento pela proximidade, espalhando instruções e conselhos como se fosse um papa abençoando seu rebanho com água benta. Como mentor, ele encontrou uma maneira de fazer com que essa equipe dos EUA siga seus passos sem cometer tantos erros.

Dentro da arena do CHI Health Center Arena na terça-feira, a influência de Phelps podia ser vista nas braçadas longas e quadris altos que Luca Urlando manteve nos 50 metros finais da fase preliminar dos 200 metros borboleta. Urlando, que tem 19 anos e é de Sacramento, Califórnia, chamou a atenção de Phelps quando quebrou seu recorde nacional entre aqueles de 17 a 18 anos no evento. Isso foi há dois anos. Desde então, Phelps tem compartilhado dicas técnicas e táticas que Urlando usou para avançar para as semifinais.

Michael Andrew, que devorou os recordes nacionais de sua faixa etária da época de Phelps como Pac-Man, venceu os 100 metros peito e se qualificou para sua primeira participação na equipe olímpica americana. Andrew era uma criança tímida e de 5 anos que estava mais interessada em se tornar um goleiro do que em medalhas de ouro quando posou para uma foto com Phelps em uma escola de natação em Atlanta. Ele se tornou profissional aos 14 anos, superando em um ano o marco que era anteriormente de Phelps como o mais jovem nadador do sexo masculino a abandonar seu status de amador.

Phelps mantém contato com Andrew, 22 anos, que disse: "É legal que ele tenha se aproximado porque quis, para me apoiar e me encorajar a chegar onde estou." Ele acrescentou: “É muito surreal que o melhor de todos os tempos esteja de olho na minha carreira. Não é algo que eu esperava, mas sou grato demais.”

A influência de Phelps nessas provas foi palpável desde o início, quando, no primeiro evento, Chase Kalisz superou uma crise de dois anos ao ganhar a prova dos 400 metros medley masculino. Kalisz, 27 anos, é como um irmão mais novo para Phelps, que o conhece desde que ele tinha 6 anos. Eles treinaram juntos por quase uma década, primeiro em Maryland e, depois, no Arizona. Quando Kalisz ficou para trás por conta de uma lesão no ombro em 2019 e não pôde mais competir devido à pandemia do novo coronavírus em 2020, Phelps estava em contato, regularmente, com conselhos e observações que ele nunca se preocupou em pegar leve.

Quando a Olimpíada foi adiada em um ano, isso deu a Kalisz a oportunidade de reiniciar sua carreira e, pela conversa entre eles, Phelps intuiu que Kalisz estava de volta ao seu desempenho habitual. Ele mandou uma mensagem para Kalisz dizendo que assistiria à final do nado medley das arquibancadas, então Kalisz não ficou nada surpreso quando Phelps, usando uma máscara vermelha devido à pandemia, passou pelos seguranças e estava lá para abraçar Kalisz quando ele saiu da piscina depois de superar o parceiro de treinos no Georgia Aquatics, Jay Litherland.

A final feminina dos 400 metros medley na primeira noite teve a participação de outra pupila de Phelps, Hali Flickinger, que não precisava de nada do tratamento exigente que ele deu a Kalisz. Ela era sua pior adversária, admitiu, sabotando seu sucesso com uma conversa interna negativa. Hali se mudou para Tempe, Arizona, para treinar com o técnico de longa data de Phelps, Bob Bowman, após o Campeonato Mundial de 2019. Ela ganhou uma medalha de prata nos 200 metros borboleta que parecia sem valor em seu pescoço por causa da maneira como ela perdeu o ouro, nadando em pânico e sendo ultrapassada nos metros finais por Boglarka Kapas, da Hungria.

Hali ficou com Phelps, a esposa dele, Nicole, e seus três filhos pequenos até que seu marido se mudou da Geórgia para morar com ela. Durante muitas tardes depois do treino, ela fazia companhia a Phelps na cozinha enquanto ele preparava o jantar e falava sobre sua mentalidade durante as competições.

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Quando cheguei ao Arizona, havia muita coisa que eu precisava descobrir relacionado à mente
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Hali Flickinger, nadadora de 26 anos

Uma conversa ficou gravada em sua cabeça. Ela perguntou a Phelps o que ele pensava quando colocava os pés no bloco de saída. Ele disse a ela que vivia para as competições porque elas eram a recompensa por todo o seu trabalho árduo. As competições eram a parte mais divertida para ele na natação e quanto maior fosse o palco, maior era sua diversão. Essa percepção daquele momento, disse ele, brotava de sua empolgação para ver o resultado de todo o trabalho que havia realizado até então.

Sua resposta fez virar a chave mental de Hali. Ela lembra que a perspectiva que tinha daquele momento era justamente o oposto. “Eu tinha medo das competições”, disse Hali. “Fazia anos que eu pensava da maneira errada e me preocupava com coisas que não consigo controlar.”

Hali, 26 anos, se viu em uma situação familiar. Na final dos 400 metros medley feminino, ela estava na liderança após o nado costas, dois segundos à frente de Emma Weyant e cinco segundos à frente da favorita, Melanie Margalis. Depois da terceira pernada do nado peito, sua vantagem em relação à Melanie havia praticamente desaparecido e ela estava se agarrando a uma vantagem de um segundo sobre Emma.

Melanie ultrapassou Hali na primeira volta do estilo livre e Emma passou na sua frente na última volta. “Do jeito que eu costumava pensar, eu teria paralisado depois que Melanie me ultrapassou”, disse Hali. Mas com a voz de Phelps em sua cabeça, ela colocou em prática todo o trabalho árduo que tinha acumulado até ali. Hali alcançou Melanie e a superou em 0,12 segundo e terminou a prova em segundo lugar, atrás de Emma, praticamente conquistando sua vaga olímpica. Quando ela chegou na área de aquecimento, Phelps estava esperando para dar um abraço nela.

Depois de passar boa parte da vida focado em maximizar seu potencial, Phelps está gostando do seu novo objetivo: ajudar a próxima geração de nadadores a maximizar o deles. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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