Cleia Viana/Agência Camara e Alessandra Cabral/CPB
Cleia Viana/Agência Camara e Alessandra Cabral/CPB

Ministro da Educação deveria assistir e aprender com a Paralimpíada

Enquanto Milton Ribeiro cria repulsa com falas excludentes sobre alunos com deficiência, Brasil vai aos Jogos de Tóquio novamente com status de potência paralímpica

João Abel, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 12h27

Durante os próximos 10 dias, é provável que você leia e ouça que os atletas paralímpicos são uma inspiração, super-heróis, pessoas ‘especiais’. Que eles contam histórias de superação. Esqueça tudo isso. Os paratletas são esportistas de alta performance. Que treinam duro. E temos o privilégio de viver em uma potência paralímpica.

Cerca de 15% da população mundial (ou seja, um bilhão de pessoas) vive com algum tipo de deficiência. O Comitê Paralímpico Internacional lançou na última semana a campanha #WeThe15 (Nós Os 15), apoiada por organizações como as Nações Unidas e a Comissão Europeia. 

“Nós não somos ‘especiais’, essa não é nossa realidade. E somente quando você nos enxergar como um de vocês, maravilhosamente ordinários, maravilhosamente humanos, só aí nós poderemos quebrar todas as barreiras que nos separam”, diz o vídeo institucional da campanha, que mostra pessoas com deficiência fazendo atividades cotidianas: rezar, encontrar um amor, fazer sexo, cuidar dos próprios filhos. Assista ao vídeo abaixo em inglês e acesse o site oficial do #WeThe15 aqui.

 

A iniciativa do Comitê Paralímpico é um recado claro a muitas pessoas. O nosso ministro da Educação (que 90% dos brasileiros possivelmente não sabem o nome), Milton Ribeiro, insistiu nesta semana que crianças com deficiência “atrapalham” o aprendizado dos demais estudantes. 

“Nós não queremos o inclusivismo”, disse o chefe da pasta da Educação ao tentar explicar sua preconceituosa teoria. ‘Inclusivismo’ é mais um daqueles termos inventados pela direita bolsonarista que compactua com ideias conspiratórias e discriminatórias. ‘Globalismo’, ‘terraplanismo’, ‘ideologia de gênero’, ‘kit gay’, ‘mimimi’. O vocabulário é extenso. Tão extenso que o Estadão fez, em 2019, um ‘glossário Bolsonaro’ para que as pessoas pudessem entender o que se passava na cabeça dos integrantes do governo.

Este jornal também mostrou no último fim de semana que, ao contrário do que prega a atual gestão do MEC, a inclusão em sala de aula eleva os ganhos de alunos com e sem deficiência. A presença de estudantes com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento, altas habilidades e superdotação aumentou 86% no ensino básico. Vale ler a reportagem aqui.

O ministro chegou até a citar os Jogos Paralímpicos para justificar seu ‘inclusivismo’. “Estamos no meio das Paralimpíadas. Nós descobrimos que tem pessoas que têm limitações físicas, no caso, que não podem competir com outras que não têm”, disse ele.

O pastor Milton esquece que a Paralimpíada foi criada justamente para incluir e mostrar que as pessoas com deficiência também podem praticar modalidades de alto rendimento. 

Sem o tal ‘inclusivismo’, Daniel Dias jamais se tornaria uma lenda da natação paralímpica, com 25 medalhas conquistadas (e contando). O Brasil não teria o corredor mais rápido do paratletismo mundial, Petrúcio Ferreira. A campeã mundial Alana Maldonado não praticaria judô. O craque Ricardinho não seria tricampeão paralímpico com a seleção de futebol de 5 (para cegos).

No mundo mágico de Milton, a palavra de ordem para pessoas com deficiência é ‘limitação’. E não ‘oportunidade’ ou ‘inclusão’.

A despeito das falas capacitistas de Milton Ribeiro, o Brasil já iniciou sua campanha nos Jogos Paralímpicos de Tóquio com 4 medalhas na natação: ouro para Gabriel Bandeira nos 100m borboleta classe S14, prata para Gabriel Araújo nos 100m costas classe S2 e bronzes para Phelipe Rodrigues 50m livre classe S10 e Daniel Dias nos 100m livre da classe S5.

Ao ministro da Educação, uma questão e uma dica. A questão é “por que não te calas?”. E a dica é: assista aos Jogos Paralímpicos. De olhos e coração abertos para aprender.


*João Abel é editor do Drops, no Instagram do Estadão, autor de ‘Bicha’ e coautor de ‘O Contra-Ataque’. Escreve às quartas-feiras.

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