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Morre Rafer Johnson, primeiro capitão negro de uma equipe olímpica americana

Sua triunfante performance nos Jogos de Roma, em 1960, foi o seu adeus ao atletismo e ao esporte de campo

Richard Goldstein, The New York Times

03 de dezembro de 2020 | 18h37

Rafer Johnson, que carregou a bandeira americana no Estádio Olímpico de Roma, em agosto de 1960 como primeiro capitão negro de uma equipe olímpica americana, e ganhou o ouro em um duelo memorável no decatlo, aclamado como o maior atleta do mundo, morreu na quarta-feira em sua casa em Sherman Oaks, Los Angeles, aos 86 anos. Um amigo da família, Michael Roth, confirmou o falecimento.

Johnson nunca mais competiu depois do seu triunfo no decatlo. Tornou-se Embaixador da Boa Vontade para os Estados Unidos e pessoa muito próxima da família Kennedy, assumindo um papel de destaque nas Olimpíadas Especiais, promovidas por Eunice Kennedy Shriver, e fez parte da comitiva de Robert K. Kennedy durante a campanha eleitoral em 1968. Ele foi lembrado particularmente por ajudar a agarrar e segurar no solo o assassino do senador em Los Angeles, em 1968.

O perfil nacional de Johnson se definiu principalmente a partir da Olimpíada de 1960, uma das mais celebradas da história dos Jogos, no momento em que inúmeros atletas afro-americanos explodiram no cenário mundial. Muhammad Ali, conhecido na época como Cassius Clay, ganhou a medalha de ouro na categoria de pesos pesados leves. Wilma Rudolph disparou para a vitória nos 100 e 200 metros para mulheres, e juntamente com as suas colegas de equipe do estado de Tennessee para o ouro no revezamento 4x4. Oscar Robertson contribuiu para o time de basquete masculino dos EUA levar outra medalha de ouro.

A vitória apertada de Johnson no decatlo sobre C.K. Yang de Taiwan e da UCLA, um bom amigo, foi um momento emocionante.

Johnson, de 25 anos, formado na UCLA e com perfeitos 1,90 metro de altura e pesando 90 quilogramas, era o favorito nos dois dias do decatlo, um evento com dez provas de versatilidade, força, velocidade e resistência que inclui corrida de velocidade, obstáculos altos, salto com vara, salto em altura e salto em distância, lançamento do dardo e do disco, e a corrida dos 1.500 metros.

Em 1956, ganhou a prata no decatlo nas Olimpíadas de Melbourne, atrás do americano Milt Campbell, que em seguida se tornou jogador profissional de futebol americano. Ele tinha pontuado mais que Vasily Kuznetsov da União Soviética em um encontro no Estádio Lenin, em Moscou, em 1958, inspirando os espectadores a deixar de lado a Guerra Fria e aplaudir o seu feito. E conseguiu o recorde mundial de 8.683 pontos no decatlo nas provas de atletismo e esportes de campo nas Olimpíadas em 1960 em Oregon.

Mas enfrentou um desafio em Roma com Yang, de 27 anos, que representava Formosa, na época a designação Olímpica dos atletas taiwaneses. Ambos haviam sido treinados por Elvin Drake, conhecido como Ducky, o técnico de atletismo e esportes de campo da UCLA.

O duelo no decatlo foi decidido na prova final dos 1.500 metros, em que Yang era particularmente forte. Johnson, liderando nos pontos, não precisou ganhar a prova para vencer a medalha de ouro, mas precisava terminar a 10 segundos de Yang.

“Eu planejei colar nele como companheiro de luta”, contou Johnson ao Los Angeles Times em 1990. “Eu tinha outra vantagem, e não acho que C.K. estivesse a par disso na época. Foi o meu último decatlo, e eu estava preparado para correr o mais rapidamente possível nesta última prova da minha vida”.

Yang, que morreu em 2007, lembrou: “Eu sabia que ele nunca me deixaria ir até cair no chão”. Johnson terminou a 1,2 segundo atrás de Yang, o suficiente para conseguir o ouro, Yang a prata e Kuznetsov o bronze.

Posteriormente, Johnson recebeu o Prêmio Sullivan como maior atleta amador dos EUA. Depois disso, ingressou em um novo capítulo da sua vida. Ele conheceu Robert Kennedy em uma cerimônia de premiação logo depois dos Jogos de Roma e se tornou parte da campanha do senador para a indicação presidencial democrata de 1968.

Ele estava escoltando Ethel Kennedy, grávida, no meio da multidão de apoiadores no Hotel Ambassador de Los Angeles, no dia 5 de junho de 1968 - momentos depois de seu marido declarar vitória nas primárias democratas na Califórnia - quando Kennedy recebeu um tiro mortal de Sirhan Surhan, um imigrante palestino que se revoltara porque Kennedy apoiara Israel.

Johnson e seu colega Roosevelt Grier, apoiador de Kennedy, ex-‘defensive tackle’ dos New York Giants e dos Los Angeles Rams, ajudaram a dominar Sirhan.

“A minha mão agarrou a arma”, escreveu Johnson em seu livro de memórias, The Best That I Can Be (1998, com Philip Goldberg). “A mão de Rosey cobriu a minha. Com uma dezena de outras pessoas que empurravam, obrigamos Sirhan a deitar sobre uma mesa e depois no chão. Torci os dedos de Sirhan para que soltasse a arma”.

Rafer Lewis Johnson nasceu no dia 18 de agosto em 1934 ou 1935, em Hillsboro, Texas, ao sul de Dallas, de Lewis e Alma (Gibson) Johnson. Quando ele tinha cerca de 18 meses, os pais se mudaram para um bairro afro-americano de Dallas, onde viveram no meio da pobreza e da segregação.

A família se mudou para a Califórnia quando Rafer era um rapaz, e se estabeleceu em Kingsburg, no Vale de San Joaquin, uma região agrícola. Na cidade moravam muitas pessoas de ascendência sueca, e ele lembrava de que sua família foi bem recebida ali. Mas a vida continuava dura.

Seu pai trabalhou em uma fábrica de conservas, entre outras ocupações, e por um ano a família morou em um vagão de um trem de carga. No entanto, segundo Johnson lembrava, a situação era muito melhor do que no Texas. “Não ligo se não vir o Texas nunca mais”, disse certa vez à ESPN. “Se minha família tivesse ficado no Texas, eu não teria representado os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos. Nunca teria ido para a universidade”.

No secundário, Johnson se destacou no futebol americano, no basquete e no beisebol, e também no atletismo e nos esportes de campo, mas ele se concentrou no decatlo, inspirado no desempenho do medalhista de ouro olímpico Bob Mathias, na vizinha Tulare, Califórnia.

Johnson casou-se com Elizabeth Thorsen em 1971. Ele deixa a esposa e seu irmão Jimmy Johnson, ex- cornerback dos San Francisco 49ers e membro do Pro Football Hall of Fame; dois filhos, Josh Johnson e Jennifer Johnson Jordan, que fez parte da equipe americana de vôlei de praia para mulheres nas Olimpíadas de Sydney, em 2000, atualmente treinadora de vôlei na UCLA; e quatro netos.

O momento final da glória das Olimpíadas para Johnson foi quando subiu os precários 99 degraus do Los Angeles Coliseum para acender a pira dos Jogos de 1984.

“De certo modo, eu estava novamente em uma Olimpíada, concentrado para que o meu corpo fizesse algo excepcional”, escreveu em suas memórias. “Se eu estava preocupado em chegar no topo da escadaria? Sim. Se estava pensando que poderia tropeçar ou cair? Sim. Tive alguma dúvida de que conseguiria? Não”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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