Evelson de Freitas/Estadão<br>
Evelson de Freitas/Estadão<br>

Morten Soubak: 'Agora todos querem ganhar do Brasil'

Técnico da seleção feminina de handebol fala da necessidade de a equipe saber jogar com o selo de campeã mundial na camisa e vê briga por medalha em 2016

PAULO FAVERO, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2014 | 16h52

Dinamarquês de nascimento e brasileiro de coração, Morten Soubak é mais latino do que qualquer um pode imaginar. Técnico da seleção feminina de handebol e campeão do mundo no ano passado, ele tem uma história de paixão pelo País que começou ainda na escola, por causa do futebol. "A primeira redação de tema livre que tive escolhi fazer sobre o senhor Edson Arantes do Nascimento. Claro que não estava na minha cabeça vir para o Brasil, mas a paixão estava de uma forma ou outra ligada ao futebol."

Ele tinha seis anos quando Pelé brilhou na Copa de 1970 e quatro anos depois já torcia fervorosamente pela equipe canarinho, até porque seu país não engrenava no nível internacional no futebol. "Em 1982, fui o cara que mais chorou quando o Brasil perdeu da Itália. Ficou muito claro para mim esse amor, que ficou mais forte", garante. Esse fascínio não tinha muita explicação, mas desde cedo Morten lidava com a curiosidade dos amigos sobre isso.

Quando acabou a faculdade, no início dos anos 1990, ele foi procurar trabalho na Cruz Vermelha. "No mesmo dia fui aceito. Eu me formei praticamente junto com a guerra da ex-Iugoslávia e, naquele período, muitos refugiados foram para todas as partes da Europa. Eu tinha de fazer atividades esportivas para eles, em um lugar que moravam mais de mil pessoas, e fui organizar isso para adultos e adolescentes. Era um lugar parecido com um navio. Em cima disso, fiz contatos com clubes em Copenhague, para que uma pessoa fizesse badminton, outra futebol, outra basquete e por aí vai. Assim eles conseguiam ter outra coisa na cabeça."

Por ser professor, ele podia dar aulas para crianças até adultos. Mas também buscou algumas especializações, em educação física, e como técnico de handebol e futebol. Para tentar colocar seu sonho em prática, ele passou a estudar mais o Brasil e pensou em uma viagem pela América do Sul. "Em 1993, peguei minha mochila e vim sozinho para o Brasil, para passear. Foi o ano que tive a possibilidade de conhecer algumas pessoas de handebol em São Paulo, pois no ano anterior um time feminino tinha ido para o Brasil e peguei alguns contatos. Foram exatamente essas pessoas que me trouxeram em 1995. Também fui para Aracaju, sem falar português ou até espanhol, e me encontrei pela primeira vez com o Manoel Luiz de Oliveira (atual presidente da Confederação Brasileira de Handebol)."

Foi o dirigente quem colocou o dinamarquês na seleção feminina. "Eu conheço o Morten há muitos anos. Quando ele era técnico da Chana Manson, na Dinamarca, fez um trabalho maravilhoso, assim como quando ele veio ao Brasil treinar o Pinheiros. Antes do Morten assumir a Seleção Feminina, buscamos mais informações e mais referências e tudo foi muito positivo", explica, elogiando. "Estamos muito felizes com o trabalho que o Morten vem desenvolvendo para o handebol brasileiro. Ele tem tomado conta também de categorias de base femininas, assim como o Jordi Ribera faz com o masculino, e isso é fundamental para o futuro da modalidade", continua Manoel Luiz.

Morten já tinha atuado anteriormente como técnico do Pinheiros e desde 2009 está no comando da seleção feminina. "Antes de entrar eu já percebia o potencial do Brasil no handebol. Sabia que poderia entrar no grupo dos melhores do mundo. Falei para as meninas isso logo que assumi. Claro que ninguém pode garantir uma posição no pódio, mas iríamos trabalhar para isso", explica. O trabalho começou a render frutos dois anos depois, quando o Brasil conseguiu sua melhor colocação no Mundial do Brasil, mas foi eliminado pela Espanha nas quartas de final. Nos Jogos de Londres, a equipe fez ótima campanha, mas caiu nas quartas de final diante da Noruega.

"Esse jogo foi uma decepção enorme para todo mundo, porque nunca tivemos uma preparação tão boa, com avanços significativos. Sentimos que estávamos crescendo. Ficamos com a sensação de que era possível tirar o campeão mundial, europeu e olímpico. A goleira saiu com aproveitamento de 63%, e isso não existe. Se fica com 40% já é muito bom. Claro que todos ficamos muito tristes, mas acho que também deu uma força, pois queríamos mostrar que éramos capazes."

SUCESSO

A redenção veio no Mundial da Sérvia, com o título inédito. Ele comandou um grupo talentoso formado por Alexandra, Fernanda, Dara e Duda Amorim, entre outras. Nas quartas de final, uma verdadeira batalha contra a Hungria, com direito a duas prorrogações. "O peso que sentimos antes das quartas, por termos sempre perdido nessa fase, depois virou alegria quando nos classificamos."

Na semifinal o Brasil passou pela Dinamarca, sem muitos sustos, e para a final contra a Sérvia, o treinador já vinha pensando fazer alguma coisa para provocar suas atletas. Então ele mandou fabricar umas medalhas de prata e, no vestiário, antes do jogo, começou a falar que o Brasil não teria chance. "Quando vimos a Sérvia jogar contra a Polônia na semifinal, com 20 mil pessoas gritando, percebemos o quanto as polonesas sofreram. E sabíamos que na final não teria uma pessoa a nosso favor no ginásio. A pressão seria gigantesca", diz.

Como o Brasil já havia enfrentado a Sérvia, Morten tinha uma flâmula do país. Aí ele pegou o agasalho da guia da equipe, na cor vermelha, e começou a falar para as meninas que o ouro já era das europeias, que ninguém acreditava no Brasil. A provocação continuou até Duda se levantar e arrancar uma medalha de ouro do treinador. As outras jogadoras fizeram o mesmo e derrubaram Morten. "Fiquei feliz de não ser técnico de um time masculino de rúgbi, senão teria me quebrado", brinca, feliz da vida por sua tática ter dado certo.

Com o título, o Brasil passou de caçador a caça. Passou a ser mais respeitado por seus adversários e agora carrega nas costas o peso de ser campeão mundial. "Recebemos um respeito diferente dos adversários, pois somos os campeões do mundo. Isso mudou a forma como somos recebidos. Precisamos agora ganhar experiência de atuar com esse selo de campeão na camisa", comenta, ciente de que o time passará a ser alvo. "A moeda virou. Com certeza vai ficar mais difícil. Vencemos o Mundial ganhando de todos, o que é bem raro, e agora todo mundo quer ganhar do Brasil e já sentimos isso. Temos de lidar e aprender com essa situação, porque agora é o contrário. Já falei para as jogadoras que o nosso perfil é procurar e atacar, não defender. Temos de melhorar o que deu certo e não buscar outra coisa."

No próximo ano, o Brasil disputará o Pan, em Toronto, no meio do ano, e o Mundial na Dinamarca, em dezembro. Morten garante que vai usar o que tem de melhor em todas as competições até o Jogos Olímpicos, em 2016. "Quando penso nos Jogos do Rio, acho que teremos um evento histórico para todos nós, mas não vamos para participar, vamos para brigar pela medalha. Classificar na fase de grupos será difícil, e passar das quartas de final será mais ainda. Serão vários desafios, pois teremos as melhores seleções do mundo."

Morten, que foi taxado de louco por muitos amigos quando decidiu largar um país que é potência no handebol para se mudar para o Brasil, assume o rótulo de louco. Pelo Brasil. "Falam que eu sou o dinamarquês mais brasileiro que existe. Já um amigo diz que eu sou um gringo que nasceu no lugar errado. Acho que o sonho completo seria eu ser técnico de futebol, mas acho que tem pessoas em quantidade suficiente para fazer isso muito melhor do que eu. Vou ficar onde estou."

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