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Muito, mas muito, devemos ao skate

Antes vistos com preconceito, os skatistas viraram o jogo e deixaram de ser ‘moleques de rua’

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

As Olimpíadas começaram e foi como se tivesse chegado para cada brasileiro um respiradouro que aliviou  a pressão de tempos sombrios. Melhor dizendo, a fada Sininho sobrevoa o Japão e o Brasil. Os Jogos de Tóquio vêm sendo um sopro de alegria, um descarrego. Nossas noites são para assistir competições. Depois pegamos no sono aliviados. O que esses atletas estão fazendo nos faz esquecer por momentos os shows de indignidade dos políticos caquéticos cujas almas foram vendidas. A cada dia uma alegria.

Sim, estamos felizes, vibramos com cada salto de vara de Thiago Braz, que sobe com elegância. Quem diria, mas quem diria que os skatistas (ou esqueitistas?), antes vistos com preconceitos, jovens que, “nada tendo a fazer”, passavam o dia em manobras mirabolantes em cima de uma pranchinha com rodas, quem diria que logo eles acabassem trazendo a primeira medalha do Brasil?

Eles parecem brincar em serviço, mas poucos de nós sabemos o que custa a perfeição daqueles malabarismos. Momento de grande significado, é hora de explodir intolerâncias. Hora de derrubar dogmatismos (menino veste azul, menina rosa), de equívocos racistas ruírem.

Os skatistas (esqueitistas) viraram o jogo com graça, romperam idiopatias em um país tão cheio delas. Deixaram de ser “moleques de rua” que passavam velozmente e nos assustavam. Esquecemos que eles refazem nossa alegria de infância e juventude com os carrinhos de rolimã e os patinetes. Kelvin e Rayssa, a Fadinha, e Pedro Barros são agora heróis. Trouxeram medalhas de prata para um Brasil de chumbo.

Por momentos, a cada dia, esquecemos os desmandos, as vilezas e torpezas que nos chegam de Brasília e ligamos a tevê na madrugada para ver as meninas do vôlei. Esquecemos o indigente mental - como foi definido pelo jurista Miguel Reali Junior - alucinado, com suas motociatas, para ver o parrudo Darlan Romani, que treinou em terrenos baldios por falta de condições, atirando uma bola de ferro com a mesma dignidade de um deus olímpico.

A Olimpíada das mulheres. De Martine Grael e Kahena Kunze, de Laura Pigossi e Luisa Sfafani, da Ana Marcela Cunha a Rayssa e Rebeca. E Bia Ferreira, que têm dendê no sangue? E o palavrão que em milagre de filologia tornou-se rocambole? 

A cada ataque à Constituição, a cada manifestação de um ministro atrelado ao mito por interesses escusos, temos os saltos suaves e precisos de Rebeca Andrade sobre um estreitíssimo corrimão. Pensei esta madrugada que enquanto o País mergulha no descalabro, cultural, econômico e educacional, houve atletas treinando disciplinados em quintais, praças públicas, espaços comunitários, terrenos baldios. Atletas que superaram todas as condições e venceram.

Superações que nos aliviaram a alma, fazendo-nos dizer que há possibilidades de se reverter o impossível. Coisas boas neste Brasil. Não me digam que estamos nos contentando com pouco. Porque não é pouco, é muito o que eles esses atletas estão conseguindo em Tóquio. Um garoto nordestino, Italo Ferreira, que treinava surfe com uma prancha de isopor, foi lá e trouxe a medalha de ouro. E então o Gabriel Medina, tristemente, se achando, sem espírito olímpico, imitando o mito, acusou o resultado de fraude. Fraude, conhecemos essa acusação.

Não temos tantas medalhas quanto a China e os Estados Unidos. Mas se analisarmos as condições em que esses atletas treinam, vivem, se entregam, é uma grande virada. Podemos virar se nos dedicarmos com o mesmo afinco querendo o ouro da Democracia.

Esse é, a meu ver, o recado dado por esses atletas olímpicos de Tóquio-2020. Insistência, persistência, constância, pertinácia, fome de vencer. Eles nos estão dando a certeza de que correndo, saltando, voando com o skates em corrimões delgados, entrando no túnel das ondas sem medo, firmando a vara no chão e jogando o corpo com leveza para o alto, boxeando com golpes certeiros, podemos subir ao pódio.

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