Frank Augstein | AP
Douglas, do vôlei, se tornou um fenômeno nas redes sociais Frank Augstein | AP

Douglas, do vôlei, se tornou um fenômeno nas redes sociais Frank Augstein | AP

Astros brasileiros na Olimpíada de Tóquio ganham até 4 milhões de seguidores em 1 dia

Embalados pelo Jogos, nomes como Rayssa Leal, Douglas Souza, Rebeca Andrade e Ítalo Ferreira experimentam popularidade crescente e se tornam influenciadores digitais

Gabriel Pinheiro , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Douglas, do vôlei, se tornou um fenômeno nas redes sociais Frank Augstein | AP

Na Olimpíada dos estádios vazios e do silêncio, os atletas acharam um caminho para criar proximidade com o torcedor. Em Tóquio, a plateia não é física, mas, graças às mídias sociais, ela nunca esteve tão perto de seus ídolos. E eles entenderam bem essa nova realidade: no dia em que conquistou sua medalha histórica, Rayssa Leal tornou-se um fenômeno também no Instagram. Com um perfil que traz a informação de ser administrado pela mãe, a "fadinha do skate”, de 13 anos, ganhou mais de 4 milhões de seguidores em 24 horas, segundo dados da rede social. Chegou ao Japão com pouco mais de 600 mil fãs e hoje já supera a marca de 6 milhões. Rayssa foi a atleta mais mencionada no Facebook e no Instagram em todo o mundo no dia 26 de julho. Não é pouco. 

Além dela, nomes como Douglas Souza, Rebeca Andrade e Ítalo Ferreira também têm experimentado popularidade crescente nas redes. Conforme os Jogos avançam, os fãs se multiplicam, ávidos pelos bastidores e dia a dia de seus ídolos. "A gente vê este momento com muito entusiasmo", afirma Felipe Kozlowiski, líder de parcerias do Instagram no Brasil, que está acompanhando de perto os esportistas olímpicos. Para ele, o cenário de pandemia potencializa o interesse dos atletas nas redes, mas eles são protagonistas. "Os estádios estão lá, mas estão vazios. E as plataformas entram justamente para trazer essa áurea de estádio virtual e infinito, sem limite de público. Os atletas estão sabendo tirar proveito desse holofote, entregando bastidores que só eles podem dar, que não aparecem nas transmissões", afirma.

No Twitter Brasil, Rayssa também é a atleta olímpica mais citada, seguida por Rebeca Andrade (2º), Italo Ferreira (3º), Gabriel Medina (4º) e da americana Simone Biles (5º). "Essa interação entre atletas e público já era bastante presente no Twitter, mas, com o cenário de pandemia e a impossibilidade de torcedor em Tóquio, isso se potencializou", avalia Mariana Romeu, gerente de parcerias do Twitter para América Latina. Vôlei (1º), skate (2º) e ginástica artística (3º) completam o pódio dos esportes que atraem maior interesse do público na rede.

Oportunidades

Diante deste cenário, abre-se um leque de possibilidades para os atletas olímpicos influenciadores. "Como usuários das redes, nós esperamos que nossos ídolos também estejam ali, sem a mediação da televisão. É por isso que esses perfis têm dado tão certo", afirma Issaaf Karhawi, pesquisadora em comunicação digital na USP e autora do livro "De blogueira a influenciadora". "O digital gera uma percepção de intimidade que pode ser positiva para os atletas quando ali eles são compreendidos em momentos difíceis da competição", acrescenta.

 Essa interação íntima com a audiência tem sido bem explorada por Douglas Souza. Em apenas dez dias, entre 19 e 29 de julho, o jogador de vôlei da seleção masculina viu seu perfil no Instagram crescer 1.000%. Começou o mês de julho com pouco mais de 200 mil seguidores e terminou batendo a marca de 3 milhões. Mas o que Douglas faz de diferente nas redes sociais? O jogador tem apostado em mostrar os bastidores da Olimpíada nos Stories, dividindo sua rotina e levando a audiência aos locais onde só ele tem acesso e ela não. Os momentos de preparação antes dos Jogos e o dia a dia da equipe também foram mostrados ao público, sempre com muita descontração. 

 "Douglas já tem a chancela de campeão olímpico, ele foi ouro no Rio. Mas agora que ele entendeu as redes sociais e está fazendo uso, com muita inteligência, trazendo o público para aquela delícia de conteúdo que ele foi dividindo ali, a saga da lavanderia, a brincadeira da cama de papelão... Foram coisas inéditas que ninguém esperava", pontua Kozlowiski.

Tanto o Twitter quanto o Instagram e Facebook investiram em treinamentos para os atletas. "O Twitter tem uma relação próxima com comitês, equipes e atletas. São realizados treinamentos para que tenham em mãos todas as ferramentas e possam desenhar a melhor estratégia de uso", diz Mariana. "A gente passa muitas dicas. Tem aqueles que são mais interessados e bombam, tem os que têm uma certa timidez, mas que ainda assim entendem a importância de estar ali. A gente vê com muita alegria como eles se desenvolveram desde a última Olimpíada, no Rio", avalia Kozlowiski. 

​Depois da Olimpíada

Com as bases de fãs ampliadas e o engajamento em alta, proporcionados pelo momento particular de Tóquio, como os atletas influenciadores podem manter o interesse do público em suas mídias sociais depois da competição? Este é o desafio que eles terão de encarar a partir de 9 de agosto. Tanto o representante do Instagram quanto a pesquisadora em influência digital veem um cenário positivo para os competidores.  

"Durante a pandemia muito se falou sobre uma nova influência, um tipo de influenciador que não é apenas aquele de ostentação, mas que coloca pautas importantes em circulação. Acredito que os atletas seriam esse tipo de influenciador. Pautas como saúde, bem-estar, disciplina e resiliência poderiam ser temáticas constantes", afirma Issaaf. "Além disso, a economia das redes é fortemente sustentada pela publicidade. Esse destaque pode gerar frutos como patrocinadores em um cenário de falta de incentivo ao esporte brasileiro."

No mesmo sentido, Kozlowiski espera que este trabalho gere um "legado" digital. "O atleta olímpico precisa disso, até para ter interesse de marcas e apoiadores comerciais, para que eles não apareçam só de 4 em 4 anos, afinal o esporte olímpico no Brasil, como um todo, é muito difícil. É uma grande cortina que se abre para todos eles", afirma. A pesquisadora, porém, ressalta que com todo esse holofote, eles também terão de aprender a lidar com a cobrança das redes. "Quanto mais exposição, mais vigilância.

Influenciadores que compartilham sua rotina diária acabam vivendo sob constante avaliação de seus seguidores", pontua Issaaf. "Atuar como influenciador digital não é um passatempo, manter a visibilidade nas redes depende de praticamente acumular um novo emprego, ao lado da exaustiva rotina dos atletas de alto rendimento."

A dica que ela dá para esses novos influenciadores é deixar evidente que as redes são um espaço para diálogo com os fãs, e ali não deve haver cobrança para produção de conteúdo diária, no ritmo acelerado do algoritmo. "E essas cobranças vão surgir, afinal estamos acostumados a consumir influenciadores digitais que tem na própria rede social o seu espaço de trabalho. Não é o caso dos atletas olímpicos."

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Atletas usam estratégias distintas para lidar com as redes sociais nos Jogos Olímpicos de Tóquio

Com aumento de casos de bullying online, há quem prefira ficar longe do mundo virtual, enquanto outros usam o contato com os fãs para se motivar

Raphael Ramos, enviado especial/TÓQUIO, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 15h00

Nunca uma edição dos Jogos Olímpicos foi tão comentada, curtida, compartilhada e acompanhada pelas redes sociais como essa de Tóquio. Sem a presença de torcedores nas arenas por causa da covid-19, as redes viraram uma espécie de arquibancada virtual. Mas, para os atletas quais são os efeitos dessa avalanche de posts a cada segundo? Depende. Ao longo dos Jogos, cada um usou uma estratégia. Enquanto uns gostam de acompanhar tudo o que circula nas redes e usam isso até como motivação extra na hora de competir, outros preferem o isolamento para se concentrar exclusivamente nos Jogos.

Fato é que o tema já provocou polêmica. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) chegou a pedir que os atletas evitem entrar em discussões virtuais e teve país, como o Japão, que montou um grupo só para monitorar o que estão falando de seus competidores numa tentativa de evitar que mensagens de ódio e discriminatórias cheguem a eles.

Mas nem sempre esse trabalho preventivo dá certo. A ginasta japonesa Mai Murakami, por exemplo, chorou muito quando questionada por jornalistas sobre as críticas que recebeu nas redes sociais por participar em meio à pandemia de uma Olimpíada que boa parte da população do Japão é contrária. “Mesmo que eu não quisesse ver esses comentários, eles chegaram até mim e realmente me fizeram sentir péssima. Foi perturbador e triste”, disse a medalha de bronze no solo.

No caso da sul-coreana An San, nem mesmo o fato de ela ter se tornado a primeira arqueira a vencer três medalhas de ouro em uma única edição dos Jogos fez com que ela ficasse livre dos ataques nas redes por causa do seu corte de cabelo, considerado “feminista” por alguns usuários. Coube ao seu treinador atuar como “escudo” da atleta e impedir qualquer pergunta sobre bullying online a ela.

Entre os atletas brasileiros há exemplos de situações totalmente opostas vividas em Tóquio. O ponteiro da seleção de vôlei Douglas Souza virou um fenômeno nas redes sociais ao mostrar os bastidores dos Jogos de forma descontraída e saltou de 250 mil seguidores para 3,2 milhões 3 depois foi para mais. Mas, depois do sucesso repentino, o próprio atleta procurou o técnico Renan Dal Zotto para dizer que iria reduzir a sua exposição.

Já o ginasta Arthur Nory relatou ter tido as suas redes sociais invadidas por comentários relembrando o ato racista que cometeu em 2015 contra o também ginasta Angelo Assumpção. Ele não chegou a culpar os xingamentos que sofreu nos últimos dias pela sua queda de rendimento que o deixou fora da final olímpica, mas revelou que teve depressão.

O nadador Bruno Fratus foi um dos atletas que optaram por ficar fora das redes sociais para não tirar o foco de seu último objetivo no Japão: conquistar uma medalha. E deu certo. Fratus faturou o bronze nos 50 m livre. “Um dos motivos pelo qual saí de rede social aqui é porque precisava estar isolado no meu mundo. Quando a competição vai chegando eu vou afunilando e tirando cada vez mais coisas que não importam muito e priorizando o que é importante”, explicou.

Para o skatista Kelvin Hoefler, isso já não funciona. Segundo ele, o apoio recebido pelas redes sociais foi fundamental para a conquista da medalha de prata. “Não temos público nos Jogos Olímpicos, então eu estava vendo as mensagens no telefone, vendo minhas redes sociais e sentindo toda a energia da torcida.”

Bárbara, goleira da seleção brasileira feminina de futebol, se envolveu em uma confusão no Instagram que acabou motivando o COB a lançar a recomendação para que os atletas evitassem polêmicas. Ela foi marcada em um post de Andrea Pontes, atleta paralímpica da canoagem, questionando o seu peso e dizendo que deveria ser substituída por Babi Arenhart, goleira da seleção brasileira feminina de handebol. Bárbara respondeu o bate-boca virou público.

POLÊMICA

O Facebook bloqueou por engano do Instagram a velocista jamaicana Elaine Thompson-Herah, mulher mais rápida do mundo e medalhista de ouro nas provas dos 100m e 200m nos Jogos de Tóquio. O mal entendido se deu depois que a atleta publicou vídeos de suas provas no Japão. Depois, o Facebook admitiu que a suspensão foi aplicada incorretamente. Elaine, então, postou em seus stories no Instagram emojis sorridentes após o erro ter sido corrigido.

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