Molly Darlington/Reuters e Gaspar Nobrega/COB
Molly Darlington/Reuters e Gaspar Nobrega/COB

Não investem porque não traz medalha? Ou não traz medalha porque não investem?

Difícil cobrar desempenho de ponta em um país que ainda não percebeu o potencial transformador do esporte. Ainda assim, sairemos com recorde de pódios nos Jogos de Tóquio

João Abel, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2021 | 13h06

Tenho a impressão de ter visto essa cena em looping. E a impressão é verdadeira. Assim como em todas as últimas Olimpíadas e Copas do Mundo, a maior jogadora da história, Marta, deixa o campo no estádio de Miyagi e pede apoio à sua modalidade. “O peso de quem não trouxe a medalha não é das jogadoras. É de quem não investe no futebol feminino brasileiro”, ela desabafa.

A crítica da rainha encontra ecos nos mais diferentes cantos. Vivemos a era dos atletas que têm voz e querem ser ouvidos. 

Na pouco tradicional canoagem slalom, por exemplo, Pepê Gonçalves caiu na semifinal, reclamou que ficou “quatro anos sem treinador” e ainda disse que investiu R$ 100 mil do próprio bolso para comprar equipamentos e participar de competições.

Foi realmente um ciclo olímpico duro para os atletas. Além da pandemia, o Estadão mostrou, com dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação, que o Bolsa Atleta teve uma redução inédita de 17% em seu orçamento entre 2017-2021, quando comparado ao período anterior. Foi a primeira vez que houve uma diminuição da verba desde a criação do programa federal, em 2005.

Enquanto o presidente da República se preocupa em frequentar jogos de futebol dos times mais ricos do país, o Ministério do Esporte evaporou no governo BolsonaroO Brasil não cria políticas públicas que incluam o esporte em suas propostas.

Como bem lembrou Pedro Nery, em sua coluna desta semana do Estadão, Rayssa Leal e Rebeca Andrade, indiretamente, são frutos de programas sociais como o Bolsa Família. Não se constrói um medalhista olímpico sem oportunidades sociais.

E as lamentações pela falta de apoio desta vez não escaparam nem de uma das modalidades mais vitoriosas na Olimpíada.

O vôlei de praia deixou Tóquio com a pior campanha da história: nenhuma dupla, no masculino e no feminino, chegou sequer à semifinal. Um esporte que sempre trouxe medalhas ao Brasil, desde que foi incorporado ao programa olímpico, em Atlanta-1996. “O mundo está investindo no vôlei de praia. Eles descobriram que é barato. E nós estamos ficando parados”, disse Alison, que fez dupla com Alvaro, após ser eliminado para a Letônia. 

Um parêntese. Você pode ter se questionado: “A Letônia tem praia?”. E a resposta é sim.

Entre os atletas da modalidade, há uma forte crítica ao modo como a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) está tratando a praia, com o enxugamento das etapas do circuito brasileiro e a falta de apoio para que jogadores do País disputem o circuito mundial. País com maior número de medalhas no esporte, o Brasil se acomodou. Quem sabe o fracasso no Japão abra os olhos. É a lição que esperamos que tirem do péssimo resultado.

Mas o vôlei de praia, por óbvio, está longe de figurar entre os esportes mais depreciados no país. Poucas modalidades traduzem o descaso das políticas públicas do Brasil nas Olimpíadas como o atletismo, por exemplo.

Temos uma delegação bem recheada na modalidade: 54 atletas. Mas boa parte deles sem chances de resultado expressivo, pela falta de investimento no esporte mais tradicional e com a maior quantidade de medalhas distribuídas nos Jogos. 

Silvia Herrera contou, em seu blog ‘Corrida Para Todos’, que colégios de São Paulo fizeram vaquinhas para ajudar a bancar itens básicos necessários para a viagem ao Japão das atletas Tatiane Raquel da Silva e Simone Ponte Ferraz (3.000m com obstáculos). E essa não é uma exceção. Quase um quinto da nossa delegação apelou ao financiamento coletivo para realizar o sonho olímpico em Tóquio.

Nem mesmo o campeão olímpico da Rio-2016 foge à falta de apoio. Thiago Braz, do salto com vara, pode comemorar seu bronze em Tóquio como se fosse um ouro, já que sequer tem clube atualmente e chegou à final sem favoritismo ao pódio.

Apesar dessa verdadeira maratona de 17 mil km (distância do Brasil ao Japão), com direito a muitos obstáculos, o Brasil deve seguramente bater seu recorde de pódios em Jogos Olímpicos: as 19 medalhas na Rio-2016. Até esta quarta, já eram 18 pódios garantidos em Tóquio. E ainda podem vir mais em modalidades como o vôlei, a canoagem, o atletismo e o skate park.

Mas é para as derrotas que devemos olhar com ainda mais atenção. Se o Brasil sonha em ser uma potência olímpica, não pode mais contar só com o poder de superação, a força dos projetos sociais ou programas das Forças Armadas para atletas de elite. É preciso pensar o esporte como investimento social.

Não se trata de ‘glamourizar’ a derrota ou de passar a mão na cabeça de ninguém. Trata-se apenas de criar oportunidades para sermos aquilo que temos potencial para ser. E merecemos ser.


*João Abel é editor do Drops, no Instagram do Estadão, autor de ‘Bicha’ e coautor de ‘O Contra-Ataque’. Escreve às quartas-feiras.

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