Wenderson Araujo/ AFP
Wenderson Araujo/ AFP

'Não podemos mudar o que a ONU não conseguiu'

Presidente do COI fala sobre leis anti-gay em países sede e problemas ambientais em obras olímpicas

Entrevista com

Thomas Bach

Lukas Eberle e Maik Grossekathöfer - Tradução de Celso Paciornik, Der Spiegel

17 de junho de 2015 | 18h02

Entidades esportivas têm sofrido com a desconfiança da opinião pública pelos recentes casos de corrupção e até violações de direitos humanos no processo de preparação para grandes eventos mundiais, principalmente Copa do Mundo e Olimpíada

Nesta terça-feira, o alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), concedeu entrevista à revista alemã Der Spiegel em que aborda assuntos como a relação com países que possuem políticas homofóbicas e casos de desmatamento no Rio de Janeiro e na Coreia do Sul para dar lugar a futuras instalações aos Jogos de Verão de 2016 e de Inverno de 2018, respectivamente. 

Sr. Bach, quando foi a última vez que visitou um festival de ginástica alemão ou assistiu a um jogo de futebol da liga regional?

Para ser honesto, faz muito tempo. Não é tão simples assim eu assistir a jogos da liga regional.

Por quê?

Primeiro, porque não tenho muito tempo. E quando paro num clube, começa toda aquela coisa. As pessoas da cidade vizinha perguntam: Por que ele os está visitando? Por que ele também não nos visita?

O presidente do COI não deveria estar interessado no que a base está fazendo?

O que os faz pensar que não estou? No final de abril, havia uma corrida de 20 quilômetros em Lausanne da qual participei. Não completei a corrida - não quero dar a impressão errada aqui. Em maio, eu estava nas Ilhas Fiji, saindo da residência presidencial, quando vi um campo de rúgbi perto dali onde um time estava treinando. Entrei no local, assisti e perguntei a um jogador como estavam as coisas. Eles me convidaram para jogar.

Thomas Bach disparando no campo com uma bola de rúgbi embaixo do braço.

Não exatamente. Eles não me deixaram fazer um gol, mas tem a cobrança lateral, um lance no qual o time levanta o jogador para ele apanhar a bola no ar. Eu teria de fazer esse papel. Primeiro eu tive que me ajoelhar no chão, ajoelhado e ajoelhado, e os jogadores ficaram de pé em volta e deram ordens que eu não conseguia entender. Minhas coxas já estavam ardendo. A certa altura, eles perceberam que eu não entendo nada da língua Fiji, e aí um deles falou em inglês: Ei, você também tem de saltar! E aí eu saltei, e fui levantado, apanhei a bola e passei adiante. Funcionou maravilhosamente.

Os primeiros Jogos Europeus começaram em Baku, a capital do Azerbaijão, em 12 de junho. Vê futuro nesses torneios?

Eu sempre fico contente de ver esportes e atletas.

Algumas pessoas veem as coisas de outras maneira. No Azerbaijão há ativistas e defensores de direitos civis que estão na cadeia porque criticaram os Jogos Europeus.

Os Jogos Europeus não estão sendo organizados pelo COI, mas pelos Comitês Olímpicos Europeus. Mas não quero me safar dessa pergunta com argumentos técnicos.

Isso é bom.

Quando membros votam numa sede, eles não estão declarando que concordam com as leis do país. Não é uma votação para num sistema político. O COI não é um governo mundial.

Mas age com frequência como se fosse. Antes do início da Olimpíada de 2008 em Pequim, o COI enfatizou que estava ajudando a abrir a China para o mundo.

Não, não fizemos isso. Os Jogos são uma maneira de darmos um exemplo de uma sociedade aberta e sem discriminação. Queremos criar uma atmosfera na Vila Olímpica em que todos os atletas possam se encontrar num ambiente sem preconceitos. Se, no processo, isto levar à uma reflexão no país sede, então será muito bom. Mas temos de respeitar as leis de um país soberano. Por outro lado, a Arábia Saudita fez recentemente esforços determinados pelos Jogos Olímpicos. Minha reação foi: como mulheres não podem ter o mesmo acesso aos esportes que os homens na Arábia Saudita, enquanto mulheres não puderem nem sequer entrar num estádio de lá, não aceitaremos uma candidatura.

O senhor está facilitando as coisas para si ao tomar os esportes como problema. Por que não diz simplesmente: enquanto blogueiros forem açoitados na Arábia Saudita, o país não receberá os Jogos?

De novo: o COI é uma organização esportiva. Não podemos mudar o que gerações de diplomatas e uma série de resoluções da ONU não conseguiram. 

Desde 2014 o parágrafo seis da Carta Olímpica também proíbe a discriminação com base em orientação sexual. Para os Jogos de Inverno de 2022, há dois candidatos: Almaty e Pequim. Se vocês levarem sua Carta a sério, teriam que rejeitar as duas cidades.

Por quê?

No Casaquistão, políticos vem pressionando há anos por uma lei antigay ao estilo russo. E na China há clínicas em que homens gays são torturados com eletrochoques.

As responsabilidades do COI, bem como as oportunidades, estão ligadas aos Jogos Olímpicos e aos processos diretamente relacionados a eles. Nós só podemos oferecer uma inspiração para o desenvolvimento de sociedades e países, não instruções.

Então vamos colocar a questão de maneira diferente. Pode nos dar um exemplo em que o COI se sente responsável?

Com prazer. Em Sochi, havia problemas com o pagamento dos operários de construção que estavam sendo contratados para trabalhar nos locais esportivos. Nós interviemos em seu favor e conversamos com o comitê organizador russo. No fim, os operários receberam um pagamento retroativo de US$ 7 milhões. E agora, antes de nossa escolha da sede dos Jogos de 2022, estamos conversando com grupos como a Confederação Sindical Internacional e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Dois meses atrás, visitei a Human Rights Watch em Nova York. Também encomendamos nossos próprios relatórios sobre as situações em Almaty e Pequim.

Estaremos com a impressão errada de que a Olimpíada está se tornando cada vez mais interessante para ditaduras e pseudodemocracias que querem polir sua imagem?

Ouço com frequência a ideia preconcebida de que países democráticos não estão mais interessados na Olimpíada. Sobre esta questão, eu me pergunto como "democrático" está sendo definido. Vejam a lista de países que, ou sediaram os Jogos de Verão, ou estão para fazê-lo em breve: Sydney, Atenas, Pequi, Rio de Janeiro, Tóquio...

... e Doha em 2024.

De onde estão tirando isso?

O Catar está estudando se candidatar.

Não recebemos nenhuma candidatura sua. No momento, Boston, Hamburgo, Paris e Roma declaram sua intenção de se candidatar. Então, como podem ver, sua tese é muito polêmica.

No futuro, o COI permitirá que um país-sede realoque eventos esportivos para outro país se não tiver as instalações de competição requeridas. Isso parece bom, mas não excelente.

O que vocês não gostam nisso?

Na Coreia do Sul, onde serão realizados os próximos Jogos de Inverno, não há uma única pista de gelo no momento. O COI sugeriu sediar os eventos de bobsled e trenó de luge no Japão. Os sul-coreanos decidiram construir suas próprias instalações.

Nosso conceito de reforma, a Agenda 2020, ainda não se aplica a Pyeongchang, porque estamos limitados por nossos contratos ali. Mas é verdade, fizemos a oferta aos sul-coreanos. Mas não era específica ao Japão, eles poderiam escolher um país do seu agrado. Os sul-coreanos a rejeitaram e não podemos obrigá-los. Mas não posso esconder que acho essa decisão lamentável.

Por que não se empenhou numa verdadeira racionalização da Olimpíada? Quem tem alguma ideia, por exemplo, de quais provas compõem o pentatlo moderno?

Montar o programa olímpico é como tentar fazer a quadratura do círculo. Nunca se chega a um programa que funcione para todos. Nem mesmo a um programa que funcione para todos na Alemanha. Sinto que há duas questões principais: universalidade e alcançar um equilíbrio entre tradição e progresso. As pessoas têm sentimentos profundamente arraigados sobre certos esportes, alguns dos quais estão tão entranhados na história dos Jogos, que não se pode simplesmente dispensá-los por razões comerciais. A Agenda Olímpica 2020 torna o programa mais flexível. O país-sede agora pode propor um esporte que ele gostaria de ver.

Os japoneses adoram beisebol, de modo que haverá beisebol na Olimpíada de Tóquio em 2020. O beisebol foi um esporte de 1992 a 2008, mas não teve exatamente um sucesso estrondoso.

Espere aí. Os japoneses pediram para incluir 25 esportes. Nos Jogos de Verão da Juventude de 2014, em Nanquim, no ano passado, houve um Laboratório Esportivo no qual exibimos patinação inline, skate, wushu e escalada esportiva.

Acha que skate cabe na Olimpíada?

Acho.

O golfe será incluído na Olimpíada de 2016 no Rio. Não é exatamente um esporte da moda entre jovens.

A decisão foi tomada em 2009. E, aliás, acho que o golfe é popular entre jovens. Talvez não em todos os continentes, mas isso se aplica a vários esportes.

Sabe quanto está custando o campo de golfe do Rio?

Não sei. Mas será o primeiro campo de golfe público do Rio. Até agora, todos os campos de golfe são privados.

Está custando 20 milhões de euros (R$ 70 milhões). Uma área de conservação natural foi destruída para fazê-lo. Será que o COI não aprendeu nada?

Falei com o prefeito do Rio e ele me disse que para compensar o uso da área de conservação natural foi reflorestada uma área 17 vezes maior. Além disso, 625 mil mudas foram plantadas no campo de golfe - plantas que estavam lá antes de o campo de golfe ser construído. As reservas de água potável da cidade não estão sendo usadas para a irrigação, que usa um sistema de reaproveitamento. Não sou um técnico de assuntos hídricos, mas sei que o campo de golfe não terá efeitos adversos na quantidade ou qualidade das reservas aquáticas.

Parece difícil.

Nem tudo na vida é fácil.

Sessenta mil árvores foram derrubadas para abrir espaço para encostas para a Olimpíada de Inverno de 2018 em Pyeongchang. 

Para começar, nós propusemos ao comitê de organização que outra encosta poderia ser usada, mas não era isso que eles queriam. Depois, os sul-coreanos nos disseram que tudo estava sendo feito de acordo com as regras e regulamentos nacionais.

Mas lei é uma coisa, e senso comum é outra completamente diferente.

Permitam-me lembrar-lhes a primeira parte de minha última resposta.

O COI estimulou a transparência depois do escândalo da escolha da Olimpíada de Inverno de 2002. Como o COI foi bem-sucedido onde a Fifa falhou?

O COI implementou reformas radicais. Por exemplo, limitou o mandato dos membros executivos e do presidente e reduziu a idade limite para 70 anos. Os membros do COI também são proibidos de visitar países que estão na disputa.

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou sua renúncia. Mas o que a Fifa precisa fazer para recuperar sua credibilidade perdida?

A Fifa precisa fazer duas coisas: primeiro, precisa lançar uma extensa investigação das alegações e estabelecer exatamente o que aconteceu e, segundo, precisa iniciar uma grande reforma estrutural.

Consegue compreender por que o COI também tem um problema de imagem?

Não acho que tenha. Encontrei-me com 120 chefes de Estado e governo desde que assumi o cargo. Em todos os lugares onde vou, encontro um enorme interesse e, com frequência, uma boa vontade considerável. O COI é um observador oficial das Assembleia Geral das Nações Unidas. Além disso, nenhuma empresa, nenhuma estação de televisão assinaria acordos conosco que fossem válidos até 2031 se não confiassem no COI. Consolidar laços de longo prazo e financeiramente valiosos conosco é a melhor evidência da confiança existente.

As apostas para sediar a Olimpíada de Inverno de 2022 em Graubünden, Cracóvia, Estocolmo e Munique fracassaram por causa da oposição pública. Um referendo será realizado em Hamburgo neste outono para determinar se a cidade disputará a sede da Olimpíada de 2024. Está preocupado com o resultado?

Não. Não sou um especialista em pesquisas de opinião, mas com base em tudo que ouvi, há um amplo apoio a Hamburgo. Houve sérios problemas de comunicação em Graubünden e Munique, e foi por isso que os referendos locais falharam. Por exemplo, não foi deixado claro que o COI reserva US$ 880 milhões (R$ 2.446 bilhões) para os organizadores.

Ao que parece, a Eurocopa 2024 vai ser realizada na Alemanha. Isso poderá colocar um problema?

Não. Um país como a Alemanha, que é economicamente forte e entusiasmado com os esportes, conseguirá lidar com isso.

O senhor tem sido um dirigente esportivo por mais de 30 anos. Era vice-presidente do COI quando da fracassada candidatura de Leipzig para receber a Olimpíada de 2012. Como chefe da Confederação Alemã de Esportes Olímpicos tentou, sem sucesso, trazer os jogos para Munique. Agora é o presidente do COI e Hamburgo está na disputa pela Olimpíada de 2024. Será que sua carreira só se completará se a Alemanha conseguir receber a Olimpíada?

(pausa) Apesar de minha posição exigir neutralidade, eu ficaria encantado se a Alemanha recebesse os Jogos Olímpicos.

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