Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

No judô, a luta pela nação mais jovem dos Jogos, o Kosovo

Bicampeã mundial sonha dar ao país 1ª medalha de sua história

Alessandro Lucchetti, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2016 | 07h00

Foi uma pena ver a judoca brasileira Érika Miranda perdendo a final do Mundial de 2013, no Maracanãzinho. A brasiliense escrevia naquele momento uma bela história, superando um momento difícil na carreira. Durante seis meses daquele ano, ficara sem clube, vítima do desmantelamento da equipe de judô do Flamengo, por ordem do presidente Eduardo Bandeira de Mello. Naquele momento, no entanto, sua adversária, Majlinda Kelmendi, estava vivenciando um capítulo de um drama bem mais contundente. 

A lutadora estava dando ao Kosovo seu primeiro título internacional como país independente. Em 2008, aquela que era então uma pequena província da Sérvia, com menos de 11 mil quilômetros quadrados, declarava unilateralmente sua independência. Quatro anos depois, a IJF (Federação Internacional de Judô), reconheceu a independência kosovar. O Comitê Olímpico Internacional só o fez em 2014, o que obrigou Majlinda a competir na Olimpíada de Londres como representante da Albânia – mais de 90% da população do Kosovo, de menos de 2 milhões de habitantes, tem origem albanesa.

No Mundial de Cheliabinski, na Rússia, em 2014, Majlinda competiu como apátrida, com a inscrição IJF, da Federação Internacional, às costas. A Rússia é um dos países que não reconhecem o Kosovo como país independente; o Brasil é outro.

Majlinda, que vai carregar a bandeira do Kosovo na cerimônia de abertura dos Jogos, no Maracanã, faz questão de manifestar seu desagrado com o não reconhecimento. “Bem, sou uma atleta e tenho que estar focada no meu trabalho, mas é claro que quero ter tratamento equiparado ao recebido por qualquer outra atleta do mundo. Ninguém pode me tratar como se eu fosse ninguém. Sou do Kosovo e, quando venço, quero que a bandeira e o hino do meu país estejam lá”, afirmou a lutadora, em entrevista ao Estado.

Na Rússia, Majlinda se sagrou bicampeã, para desapontamento do próprio presidente do país, Vladimir Putin, ele mesmo um faixa-preta, que prestigiou o evento. “Nós nos sentimos muito mal com aquela situação, mas também muito motivados para obter um grande resultado, e conseguimos. Majlinda se sagrou bicampeã mundial exatamente na Rússia!”, disse Driton Kuka, treinador da lutadora, em reportagem da rede CNN.

Assim como as de tantos kosovares, a vida de Kuka seguiu um rumo diferente devido à situação conflituosa nos Bálcãs nos anos 90. Hexacampeão iugoslavo e um dos melhores de sua categoria, ele estava cotado para o pódio na Olimpíada de Barcelona. Mas os ataques da Sérvia ao Kosovo, de maioria albanesa, resultaram em sanções da ONU, entre elas o banimento iugoslavo dos Jogos de 92. Anos depois, durante a guerra do Kosovo, a população da bela cidade natal deles, a montanhosa Peja, foi praticamente dizimada.

A carreira de Kuka se encerrou quando ele tinha 20 anos de idade. Hoje, o judoca se realiza por meio de Majlinda, que foi conhecer a academia mantida por ele quando tinha oito anos de idade, após o final do conflito, em 2000. Aquele dojô era uma das poucas opções de entretenimento na cidade para os jovens da comunidade local.

Depois do fim do conflito, as limitações econômicas do Kosovo, que tem o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Europa, atrás apenas da Moldávia, empurraram Majlinda na direção de adquirir uma outra nacionalidade. Como ela não tinha apoio das autoridades locais, a família da lutadora, em dificuldade financeira, começou a pressioná-la para aceitar uma das propostas encaminhadas pelas nações que nadam em petrodólares e atraem estrangeiros para turbinar o desempenho no quadro de medalhas olímpico.

Majlinda resistiu, e hoje quer consolidar sua bela carreira com uma medalha olímpica – para o Kosovo.

Talvez, nessa trajetória, ela volte a encarar Erika Miranda, o que não a preocupa absolutamente. “Miranda é uma boa judoca e terá um grande apoio da torcida em sua terra, mas ocorreu mais ou menos o mesmo em 2013 e isso não me perturbou. Tenho meu próprio objetivo, tenho que fazer minha luta”.

Eleita pela FIJ a melhor judoca do ano de 2014, Majlinda é daquelas atletas que já podem contabilizar uma grande conquista – vai carregar a bandeira de seu país na cerimônia de abertura, no Maracanã.


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