Kitamura Toshifumi/AFP
Kitamura Toshifumi/AFP

No Rio, Bolt troca o cronômetro pelas câmeras

Homem mais rápido da história controla com precisão imagens dos seus feitos

José Roberto de Toledo, enviado especial ao Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2016 | 18h56

Usain Bolt não domina só o tempo e o espaço. O homem mais rápido da história controla com igual precisão as imagens que vão eternizar seus feitos. Roteiriza visualmente suas provas e segue fielmente esse roteiro. Como Gisele Bundchen na passarela, é consciente de cada gesto, de cada expressão. Posa para as câmeras enquanto dá as passadas mais rápidas do mundo.

Ao ganhar a terceira medalha de ouro olímpica nos 100 metros,  durante a Rio 2016, Bolt tratou de criar uma imagem única da inédita vitória ao cruzar a linha de chegada. Empertigou o tronco e bateu no peito duas vezes, enquanto conferia a cena no telão do estádio. O contraste não poderia ser maior com seus adversários. Como todo velocista em fim da prova, esticavam o peito à frente, maximizando a aparência de esforço.

Bolt finaliza suas provas como quem está se poupando. Todo o gestual passa a mensagem de que ele poderia ir mais rápido se quisesse. Mas, entre ganhar um décimo de segundo ou parecer imbatível, o jamaicano não pensa duas vezes: troca o cronômetro pelas câmeras sem pestanejar. Claro que isso fica fácil quando se é o detentor dos recordes olímpico e mundial da prova.

Na semifinal olímpica, no Rio, Bolt foi além. A 20 metros do fim, virou o rosto para o lado de dentro da pista, mirou os fotógrafos e sorriu escancaradamente, enquanto os outros corredores se esfalfavam muito atrás. A imagem risonha do campeão foi captada pelo fotógrafo Cameron Spencer e ganhou as redes sociais, plasmando nas telas e mentes a ideia de que, para o campeão, não há concorrência possível e a vitória é natural. 

Se às vezes parece um Bip Bip de desenho animado fazendo troça do Coiote, Bolt, por outras, usa seu poder sobre as câmeras para  controlar o público. No Rio, em mais de uma prova ele levou o indicador estendido à boca enquanto se alinhava para a largada, comandando o silêncio da torcida, como uma bibliotecária.

Poucos esportistas demonstram uma compreensão tão ampla das novas e velhas mídias, um controle tão absoluto sobre a imagem que projetam, tudo sem dizer palavra. Como Pelé e Muhammad Ali descobriram, não basta chutar melhor, socar mais forte nem correr mais rápido. Para virar ícone, há que se comunicar. Bolt não só encarnou o raio humano nas pistas como transformou suas aparições em filme do qual é roteirista e diretor.

 

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