No rosto em transformação de Pequim, um olhar sobre a China

Capital chinesa, que receberá em agosto as Olímpíadas 2008, mudou e deixou nações ocidentais comendo poeira

Nicolai Ouroussoff, The New York Times

15 de julho de 2008 | 16h40

É compreensível que os ocidentais se sintam atordoados e confusos ao sair do avião no novo terminal internacional do aeroporto daqui. Não se trata apenas da grandeza do espaço. É a sensação inevitável de que se está atravessando um portal para outro mundo, um mundo cuja adoção furiosa da mudança deixou as nações ocidentais comendo poeira.É uma sensação comparável à epifania que Adolf Loos, o arquiteto vienense, experimentou ao desembarcar do navio a vapor no porto de Nova York há mais de um século. Ele havia cruzado a fronteira com o futuro; a Europa, percebeu ele, estava agora culturalmente obsoleta.Projetado por Norman Foster, o reluzente terminal aéreo de Pequim é acompanhado por uma notável lista de outros novos monumentos daqui: o Teatro Nacional de Paul Andreu, de forma oval; o Estádio Nacional de Herzog & de Meuron, conhecido como "o ninho do pássaro"; o Centro Aquático Nacional PTW, com seu exterior translúcido e macio; e o quartel general da autoridade televisiva CCTV, projetado por Rem Koolhaas, cujas formas oblíquas e interconectadas estão entre os feitos arquitetônicos mais criativos da memória recente.Os críticos descreveram incessantemente estes projetos de destaque como expressões fanfarronas da supremacia global incipiente do país. Ainda assim estes edifícios não são meras expressões grosseiras de força. Como os grandes monumentos da Roma do século 16 ou da Paris do século 19, a nova arquitetura chinesa transpira uma aura que deve tanto ao fermento intelectual quanto à influência econômica.Cada construção, à sua própria maneira, encarna uma tensa disputa sobre o significado do espaço público na nova China. E embora pareçam às vezes aterradoras no seu gigantismo agressivo, elas também refletem o esforço do país para dar forma a uma identidade nacional emergente.O terminal do aeroporto projetado por Foster, o maior do mundo, é a expressão mais pura da adoção chinesa do credo modernista. O seu formato precipitado, que sugere dois bumerangues dispostos lado a lado, foi comparado ao de um dragão. Mas o seu verdadeiro antecessor é o aeroporto de Tempelhof em Berlim, um monumento à viagem aérea concebido por Albert Speer na década de 1930 como portal de entrada a uma nova Europa. Ambos são parte da visão de uma sociedade móvel, uma que passa pelo terminal ferroviário de Grand Central em Nova York e pelos imensos pavilhões de trens de Paris.Como Tempelhof, o terminal aéreo de Pequim exibe um pátio majestoso que desperta o glamour das viagens aéreas enquanto abriga um interior surpreendentemente íntimo. Mas Foster leva o ideal de mobilidade a um novo extremo. Guiados pelas luzes piscantes inseridas no teto do terminal, os recém-chegados deslizam por superfícies inclinadas e através de amplas passarelas para pedestres antes de serem despejados no pátio elevado. A partir de lá eles podem se dispersar por uma rede fluida de estradas, trens, metrôs, canais e parques cujos tentáculos abrangem toda a região.A vasta teia redesenhou completamente Pequim desde que a cidade foi escolhida para receber os Jogos Olímpicos há sete anos. É impossível deixar de pensar nos imensos projetos de obras públicas construídas nos Estados Unidos em meados do século passado, quando a fé na promessa da tecnologia parecia não ter fronteiras. Quem poderia adivinhar naquela época que esta fé desmoronaria entre os americanos, abrindo caminho para a Nova Orleans pós-Katrina enquanto o mesmo sonho renasce na China do século 21 numa escala 10 vezes maior?ARTE SUBLIME, MOLDURA ATENUANTEAinda assim a sensação de maravilhamento diante da transformação da China é facilmente amenizada durante a viagem de carro saindo do aeroporto. A paisagem banal das feias torres flanqueia o visitante de ambos os lados. Muitas destas torres são isoladas em complexos cercados, um reflexo da disparidade cada vez maior entre os influentes e os pobres. Embora a maioria delas tenha sido construída em antecipação às Olimpíadas, a sofrível qualidade de construção faz com que pareçam decrépitas e de muitas décadas de idade.É o verso da adoção chinesa do modernismo: planejamento tabula rasa do tipo que também marcou o movimento modernista na Europa e nos EUA durante os anos do pós-guerra. O experimento arquitetônico chinês transborda tanto de promessa quanto de miséria. Tudo, aparentemente, é possível aqui, desde triunfos utópicos da imaginação até expressões de indiferença em relação às vidas individuais capazes de exaurir a alma.

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