No último dia, vôlei recupera título e marca adeus de Serginho da seleção

Líbero se aposenta com duas pratas e dois ouros olímpicos

Antonio Pita, Ciro Campos e Paulo Favero, enviados especiais ao Rio, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2016 | 05h00

Serginho tem um compromisso hoje, em São Paulo, no bairro de Pirituba. O maior medalhista olímpico brasileiro em esportes coletivos já reservou na agenda a inadiável programação de se sentar em uma mesa e degustar a comida preparada pela mãe. Quer almoçar frango com pirão, acompanhado por tubaína e para sobremesa, bolo de cenoura com chocolate na cobertura. O cardápio do líbero dono de quatro medalhas está tão definido quanto o futuro dele na seleção brasileira.

O título obtido sobre a Itália, no Maracanãzinho, ontem encerrou a carreira dele pelo Brasil. Os 3 sets a 0 (25/22, 28/26 e 26/24) marcaram o adeus do jogador de 40 anos, mais de uma década de seleção, duas medalhas de ouro e duas de prata. Ele não quer voltar atrás na decisão, como fez em 2015. Ao longo de dois anos e nove meses ele ficou longe da seleção, decisão tomada ao fim dos Jogos de Londres. Um pedido do técnico Bernardinho para ajudar no ciclo olímpico o fez mudar de ideia.

Atuar em uma posição cujo papel é defender e não marcar pontos lhe rendeu em troca elogios e admiração. Os colegas o têm como ídolo e o mundo do vôlei admira o talento pela facilidade em defender os ataques junto com a capacidade de agilizar o jogo a partir da recepção. Mesmo aposentado da seleção, Serginho vai continuar em quadra pelo Sesi, na Superliga.

“O que eu mereço depois do título? Mereço a minha casa agora. Mereço buscar os meus filhos na escola, quero andar a cavalo, quero ir embora daqui o quanto antes”, comentou, cercado pelos três filhos. Curiosamente, o único que pratica esporte é o do meio, Matheus. A escolha foi pelo basquete.

O mais velho, Marlon, já cursa faculdade de arquitetura e foi quem mais acompanhou a carreira do pai. “Agora meu pai vai descansar. Temos que aproveitar ao máximo, porque acabou a seleção. Em 2013 foi o primeiro aniversário que ele passou comigo. Como é em maio, sempre tem Liga Mundial”, comentou Marlon.

Serginho, dono de um haras em Jarinu, fez várias piadas durante a entrevista ontem. As declarações engraçadas do líbero ao sair do ginásio vieram depois dele ir aos prantos na quadra. Na cerimônia de premiação ele teve o nome gritado pela torcida, foi jogado para o alto pelos companheiros e não se intimidou com o microfone nas mãos. Primeiro, comandou o “peixinho”, depois agradeceu o público e estendeu no piso da quadra a camisa utilizada na final.

Na volta olímpica pelo ginásio o líbero estava com a medalha e os três filhos. Após conquistar medalhas em outros países, saiu do Maracanãzinho contente por ter participado de um ciclo de renovação e ainda atendido à expectativa familiar. “Não devo mais nada para nenhum filho, porque o mais novo estava me cobrando para eu ser campeão olímpico. Nem todos tinham visto. Foi a vitória de um grupo que merecia. Valeu cada bolada forte que levei nos treinos em Saquarema daquele canhão de bolas maldito”, comentou.

Se a final lhe trouxe risos, a campanha rumo ao momento alegre foi complicada. As duas derrotas na fase de grupos para Estados Unidos e Itália fizeram o líbero virar um líder exigente. “Ele costuma chamar para dar bronca quando é preciso”, contou Wallace. O veterano recorreu a um exemplo pesado para motivar o grupo antes do jogo com a França. Era ganhar ou passar o vexame do adeus precoce.

O “presidente”, como é chamado por alguns companheiros, precisou agir como ditador, falar duro para que lhe entendessem. O capitão e levantador Bruninho afirmou que o discurso do veterano motivou o grupo. “O principal e mais tocante foi quando ele disse que estava na UTI, que era a última chance dele de medalha, de glória. Ele disse que não podia morrer sendo de uma geração do ‘quase’ e que merecíamos o ouro.”,

As duas pratas em 2008 e 2012 foram combustível para a emoção do líbero, que logo após o jogo terminar, ajoelhou-se para chorar. O recorde olímpico de quatro decisões no vôlei pertence ao Brasil e teve em Serginho um personagem que começou na seleção como fã, para terminar como a referência.

Serginho viu pela televisão o ouro em 1992 e se lembrou de ter corrido até a rua para pular de alegria. Cerca de dez anos depois ele dividia a concentração com jogadores que tinha como ídolos, como Maurício e Giovane. Depois, estreou em Olimpíada em 2004, ao ganhar o ouro em cima da mesma Itália que ajudou a derrotar ontem.

A carreira vivida entre tantas gerações até o confunde na memória. “O sentimento da conquista é igual. Em 2004 fui campeão olímpico com alguns que eram meus ídolos lá de 1992. Querendo ou não, a gente acha que o Giba está do lado. Mas é o Lipe. Tem horas que o Lucarelli parecia o Dante”, comparou.

Agora são os colegas que o reverenciam. “Se alguém merece isso aqui é ele. Chegou a quatro finais consecutivas, é bicampeão olímpico, é alguém para ficar no coração de todo brasileiro. Precisamos fazer todas as homenagens possíveis”, elogiou o levantador William.

Serginho disse que não se deslumbra com a carreira e logo vai esquecer que fez história. Entre familiares, cavalos e cicatrizes deixadas pelo vôlei, o líbero afirmou ter em mente pensamentos mais urgentes, já para hoje. “O vôlei me deu uma hérnia de disco, uma operação no joelho, outra com quatro parafusos nas costas, mas me deu quatro medalhas e amizades verdadeiras. Tenho os pés no chão, sou simples sei quem sou e de onde vim. Amanhã já estarei comendo o frango da dona Didi (mãe do jogador)”, afirmou.

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