Fabio Motta|Estadão
Fabio Motta|Estadão

'Nosso desafio são as escolas. Falta consistência'

Treinador da equipe paralímpica dos Estados Unidos, Joaquim Cruz está no Brasil para o Open de Paratletismo

Entrevista com

Joaquim Cruz

Marcio Dolzan / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2016 | 05h00

Um dos maiores nomes do atletismo brasileiro, medalhista de ouro em Los Angeles-1984 e de prata em Seul-1988 na prova de 800 metros, Joaquim Cruz lamenta que o Brasil esteja ficando para trás no atletismo. Treinador da equipe paralímpica dos Estados Unidos, onde mora desde a década de 1980, ele diz que falta ao País um projeto de longo prazo.

“Nosso desafio está nas escolas. Não temos consistência. O sistema do País não dá oportunidade para a criança”, disse ontem, ao Estado. O medalhista olímpico afirmou que os atletas norte-americanos estão ansiosos para competir nos Jogos e que o surto do vírus da zika não causa nenhuma preocupação. “Se Deus manda zika ou outro vírus, não será o desafio deles. O desafio deles é no estádio olímpico.”

Por que o atletismo do Brasil ficou para trás se compararmos com décadas anteriores?

Fizemos alguns bons trabalhos em modalidades e épocas diferentes. Teve a época do salto, com o Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio, João do Pulo. Depois, meio-fundo, Antônio Euzebio, Zequinha Barbosa, eu. Na mesma época teve a velocidade, com Nelsinho (Rocha), Geraldo José Pegado, Robson Caetano. Aí o salto ficou parado. Somente mais tarde apareceu a Maurren Maggi. Nosso desafio está nas escolas. Não temos consistência. O sistema do País simplesmente não dá oportunidade para a criança. As escolas precisam formar atletas, identificar atletas, e os clubes e as federações, prepará-los para o pódio.

Quando você fala em escola se refere ao ensino regular ou algo específico?

Sim. Ensinos fundamental e médio. Você pode falar dos clubes, mas as pessoas precisam pertencer aos clubes. As que não têm condições simplesmente não vão e ficam nas escolas, mas infelizmente não temos esporte nas escolas. Fiquei sabendo que, no Rio de Janeiro, uma vez por semana tem educação física (o currículo básico estabelece duas horas semanais). Isso é atividade recreativa, não é nada. Para um país jovem como o Brasil é uma pena.

Como é nos Estados Unidos?

Lá tem a educação física na grade escolar, e para o estudante que tem potencial e quiser desenvolver, tem um segundo período para praticar. Tem programas, tem um calendário de competições para todo o ano. Nesse calendário tem os duelos entre uma escola e outra, e depois um regional com os melhores atletas, que define quem disputa a final estadual. Se eu tenho um garoto que quer desenvolver o atletismo, ele já sabe que na escola dele vai ter isso durante três ou quatro anos, e que ele vai ter a oportunidade até de disputar um estadual. No penúltimo ano de estudos, se ele tiver resultados expressivos, as universidades começam a contatá-lo. E no último ano ele já sabe em que universidade vai estudar, porque alguém já o recrutou.

Você citou nomes vitoriosos no atletismo brasileiro e mostrou como é cíclico. O fato de surgirem atletas vitoriosos em determinada área faz com que outra acabe ficando de lado?

Não vejo assim. A razão é que não temos programas. Não tem programa de meia distância, não tem programa de velocidade... Só agora que tem o programa de salto com vara no Pinheiros. Não tem como identificar e desenvolver os atletas para modalidades locais ou diferentes. Você pega o Rio de Janeiro, por exemplo. Uma cidade fantástica para se desenvolver a velocidade. Você vai à Bahia e é outro lugar fantástico para velocidade e saltos. Mas não tem programas nesses lugares, não tem escolas. No Sul não tem programa para arremessos. Você tem que investir. Não é aparecer um Joaquim esporadicamente ou uma Maurren esporadicamente.

Acha que de alguma forma a Olimpíada no Rio vai fomentar o atletismo?

Vai fomentar porque se tem notícia sobre esporte direto na televisão. Se meu garotinho está em casa e vê essas notícias ele vai querer jogar futebol, praticar judô, fazer natação. Isso estimula, é bom, é positivo. Mas, acabando a Olimpíada, tem que ter oportunidade para ele. É preciso algo para a comunidade, e acho que isso deve acontecer.

Como o Comitê Olímpico dos Estados Unidos vê os Jogos do Rio? Existe alguma preocupação, especialmente no que diz respeito ao vírus da zika?

O pessoal está animado. O meu mundo é o centro olímpico (na Califórnia), onde tem atletas do mundo todo, e ninguém menciona zika. Os atletas estão aí para realizar um sonho, é uma ambição deles. Eles estão se preparando para vir ao Rio de Janeiro para realizar um sonho. Se Deus manda zika ou outro vírus, não será o desafio deles. O desafio deles é dentro do estádio olímpico.

Houve um crescimento no investimento de esporte de alto rendimento no País no atual ciclo olímpico. Depois do Rio-2016, isso se manterá ou voltaremos a níveis de outros tempos?

Da forma como está sendo (investido), não irá se manter. Foi investido muito dinheiro. Espero que continue, menor, mas que continue. Infelizmente estamos passando por uma recessão brava, tem a reestruturação no governo e ninguém sabe o que vai acontecer amanhã. Mas o esporte continua, e Tóquio já está se preparando para a Olimpíada de 2020. Nos Estados Unidos, a gente já conversa sobre Tóquio, já estamos nos preparando. O Brasil também precisa disso.

O que mudou da sua época para hoje?

Na minha época não se pagava, não tinha os contratos de hoje. Peguei uma época diferente, mas antes, o Prudêncio e o Adhemar não podiam pegar nada. Era amador puro. O Adhemar ganhou a Olimpíada (ouro em Helsinque-1952), deram uma casa e ele precisou devolver para manter o status de amador e continuar promovendo o movimento olímpico.

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