Wilton Junior/Estadão
Ouro em 2016, Rafaela Silva volta a sonhar com a Olimpíada graças ao adiamento Wilton Junior/Estadão

Ouro em 2016, Rafaela Silva volta a sonhar com a Olimpíada graças ao adiamento Wilton Junior/Estadão

Nova data da Olimpíada resgata a esperança perdida de alguns atletas

Adiamento da competição faz esportistas que estavam punidos por doping ou lesionados a voltarem a sonhar

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, Paulo Favero , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Ouro em 2016, Rafaela Silva volta a sonhar com a Olimpíada graças ao adiamento Wilton Junior/Estadão

A mudança da data dos Jogos de Tóquio fez alguns atletas brasileiros recuperarem a esperança de vaga olímpica. A decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de transferir a competição para 2021 para evitar a pandemia do novo coronavírus significou para vários brasileiros a expectativa de ter um ano a mais para se recuperar de lesões, esperar punições por doping acabarem e até adquirir mais experiência e estar apto para estrear em uma Olimpíada.

Caso o início dos Jogos fosse mantido, a judoca Rafaela Silva teria de se contentar em acompanhar tudo pela televisão. Agora, a situação dela mudou. A campeã olímpica nos Jogos do Rio está punida por doping até agosto de 2021. Pelo prazo, a participação em Tóquio seria inviável, mas graças ao adiamento e ao recurso apresentado à Corte Arbitral do Esporte (CAS, na sigla em inglês), é possível que ela consiga participar. Rafaela só vai conceder entrevistas após o caso ser resolvido.

Quem passa por situação parecida é a tenista Beatriz Haddad Maia. De volta aos treinos na última semana, ela havia perdido totalmente as chances de competir no Japão por causa da suspensão de doping. O gancho de dez meses se encerra em 22 de maio.

Sem poder competir desde julho do ano passado, a brasileira sofreu forte queda no ranking, que é o critério de classificação olímpica. Pelas regras de qualificação, entram na chave olímpica as 56 primeiras colocadas do ranking da WTA, com o limite de ter apenas duas representantes por país.

"Eu, particularmente, estou tendo uma segunda oportunidade. Se fosse realmente neste ano, eu teria zero chance de jogar. Sendo no ano que vem, não sei como será feita a lista de corte, mas, se eu tiver oportunidade ainda de lutar por uma vaga, vou ficar muito feliz. Mas acho que a nossa preocupação agora é saúde e a integridade de todo mundo. E depois vem o esporte", disse Bia.

No atletismo, quem vive expectativa semelhante é Andressa de Morais. A medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Lima e ouro no Troféu Brasil no lançamento de disco foi suspensa provisoriamente por doping em setembro. O momento dela agora é de esperar a nova análise da amostra e depois, tentar confirmar a vaga olímpica.

Para Douglas Brose, do caratê, o adiamento será útil para se recuperar de lesão. Ele sofreu um grave problema no tendão de Aquiles em 2018, o que impediu sua busca pela vaga olímpica dentro da sua categoria original, até 60 kg. Para manter o sonho de disputar a Olimpíada, a solução dele é mudar de categoria e tentar a vaga entre os competidores até 75 kg.

O caminho para se adaptar com a mudança e conseguir vaga ainda será longo, mas a nova data da Olimpíada deu outro gás para ele. "Eu tinha antes um prazo muito reduzido para me preparar e estudar meus novos adversários. O adiamento me deu um fôlego. Para mim, isso me ajudou bastante a ganhar tempo", disse ao Estado o campeão Pan-Americano de 2015.

A ginasta Rebeca Andrade foi outra a ter comemorado. "Estou feliz porque vou ter mais tempo para me preparar e conquistar minha vaga. Espero estar lá para brilhar com os outros atletas", afirmou. A atleta é um dos principais nomes do país na modalidade e vem de três cirurgias seguidas no joelho direito. Agora, ela terá mais chances de se recuperar a tempo das seletivas olímpicas.

NOVA GERAÇÃO

O adiamento da Olimpíada deu alguns meses de bônus para atletas bem jovens, mas com enorme talento. É o caso do ginasta Diogo Soares, que acabou de entrar para a categoria adulta da modalidade. Medalhista olímpico duas vezes nos Jogos da Juventude, em Buenos Aires, ele vem tendo resultados impressionantes e deve brigar por uma vaga na equipe ao lado de Arthur Zanetti, Arthur Nory e outros. "Acho que agora teremos mais um ano para treinar e muita coisa pode acontecer nesse tempo. Não tem como prever nada, mas vou continuar trabalhando e preparando para que ele continue evoluindo", explicou Daniel Biscalchin, técnico do atleta.

Quem também pode surpreender na reta final é nadador Murilo Sartori. Aos 17 anos, ele coleciona recordes e ótimas marcas nas disputas de base. Com o adiamento dos Jogos, poderá se desenvolver para brigar por uma vaga na seletiva nacional. "Ele tem muitas chances porque seus tempos só melhoram na carreira. Mas como ele tinha planos de começar a faculdade em agosto nos Estados Unidos, temos de ver como isso vai ter impacto nele, pois implica mudança de treino, de técnico e de programa", explica Alexandre Pussieldi, especialista em natação e editor do site Best Swimming.

No tênis de mesa, Giulia Takahashi, de apenas 14 anos (faz 15 na quinta-feira), é uma promessa da modalidade que pode ser realidade em 2021. Ela é tida como um grande talento e poderia se juntar à sua irmã Bruna, principal jogadora do Brasil no momento. "Eu acho que o Brasil já tem sua seleção adulta e é claro, vou continuar batalhando e treinando firme para que quando apareça a oportunidade de participar de uma Olimpíada, eu esteja preparada", disse.

O técnico da seleção é Hugo Hoyama, que fez fama no tênis de mesa no Brasil. Ele reconhece o talento da atleta que ainda disputa competições no infantil e avisa que o grupo para Tóquio não está fechado. "Não só ela, como outras atletas têm chances. Todas devem estar preparadas, e no momento da convocação, decidirei pela que estiver em melhores condições de representar melhor o nosso País. Vou seguir o mesmo critério, as duas mais bem colocadas no ranking mundial e a terceira por escolha técnica", explicou. No momento iriam Bruna Takahashi, Jessica Yamada e mais uma atleta.

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Veteranos vão ter de reajustar calendário para chegarem em forma na Olimpíada

Transferência de data exige dos atletas mais velhos cuidados extras na preparação para a Olimpíada de Tóquio

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2020 | 04h30

O adiamento dos Jogos de Tóquio também trouxe dor de cabeça para os atletas. Os veteranos são os que terão maior problema para reajustar calendário e até planos de vida, principalmente em razão da proximidade da aposentadoria. O caso mais emblemático é o do velocista Justin Gatlin.

O norte-americano pretendia se aposentar neste ano, após disputar uma Olimpíada pela quarta vez na carreira. Agora terá que adiar seu plano de despedida para 2021, quando terá 39 anos. Mas a mudança na data dos Jogos não parece desanimar o campeão olímpico dos 100 metros em Atenas-2004.

"O objetivo é competir nas Olimpíadas de 2021. Eu acho que muita gente pensa que o tempo está contra mim ou os atletas mais velhos nessa situação e isso está longe da verdade. Eu acredito que sim que posso vencer uma medalha de ouro em 2021", diz o americano, medalhista de prata nos 100m no Rio-2016.

Allyson Felix, outra representante do atletismo dos EUA, tem problema semelhante. Após dar à luz a sua filha em dezembro de 2018, ela estabeleceu os Jogos de Tóquio, até então marcado para 2020, como sua competição final. Em 2021, ela terá 35 anos e, mantido os planos de disputar sua quinta Olimpíada, terá que enfrentar mais uma temporada de vida dupla, de mãe e de atleta.

Outra mamãe que tenta estender sua carreira como esportista é Serena Williams. Ela evita apontar uma data para sua despedida das quadras. Porém, aos 38 anos, sabe que precisará manter o alto nível por mais tempo para chegar com chances de brilhar em Tóquio. E, como já tem um ouro olímpico no currículo, obtido em Londres-2012, a busca não será apenas pelo pódio, mas pelo degrau mais alto. Com futuros indefinidos também estão Tiger Woods e Pau Gasol. Lenda do golfe, o primeiro busca sua primeira participação nos Jogos Olímpicos.

Neste ano, chegou a estar na disputada zona de classificação olímpica, mas uma lesão nas costas vinha atrapalhando seu rendimento. O adiamento, portanto, pode significar tanto mais tempo de recuperação quanto a possibilidade do crescimento dos rivais do seu próprio país. Em 2021, Woods terá 45 anos.

Assim como Woods, Gasol conquistou quase tudo em sua carreira. Falta apenas o ouro olímpico para completar a coleção, que já tem duas pratas e um bronze com a seleção espanhola. Convivendo com lesões e processos de recuperação física, o atleta de 39 anos está cada vez mais perto da aposentadoria. Agora terá um incentivo extra para disputar ao menos mais uma temporada na NBA.

BRASILEIROS

O adiamento também afetou o planejamento dos atletas nacionais. Uma das mais atingidas diretamente foi a meio de rede Fabiana Claudino. Seu objetivo para este ano era se afastar das quadras após os Jogos para realizar o sonho de se tornar mãe. O plano está sendo reavaliado no momento.

"Eu estava pensando que esse seria meu último ano olímpico. Até porque tenho o grande sonho de ser de mãe. Querendo ou não, preciso sentar para me organizar, preciso conversar com a minha família, com o meu esposo, para a gente tomar a melhor decisão", disse a atleta da seleção brasileira de vôlei.

O velejador Robert Scheidt, referência do Brasil na modalidade, também precisou ajustar seus planos de vida. O dono de cinco medalhas olímpicas parou após o Rio-2016. Mas decidiu retomar os treinos e competições em 2019 justamente para disputar sua sétima Olimpíada. Nos Jogos de 2021, terá 47 anos e competindo novamente na classe Laser, que exige melhor preparo físico.

Apesar da mudança de planos de disputar a sua última Olimpíada em 2020, Scheidt disse encarar positivamente o adiamento. "Infelizmente, o mundo está vivendo um momento muito triste e a saúde é a prioridade. Considerando a preservação da saúde dos atletas e todos os envolvidos. Considerando a possibilidade de se preparar de maneira igualitária, já que alguns ainda conseguem treinar e outros não. E considerando outras implicações, como processos seletivos, o COI optou pelo caminho certo."

O ciclista Henrique Avancini, especialista no mountain bike, não ficou muito feliz com o adiamento dos Jogos, mas não por conta de uma possível aposentadoria. O atleta de 30 anos queria que o esporte exercesse seu "papel social" para inspirar as pessoas em meio à pandemia do novo coronavírus.

"Qual é o papel de impacto social do atleta e do esporte? Não somos a classe que sempre fala de superação? Que conta histórias de recomeço, de garra, de fé e resiliência?", questionou o ciclista, nas redes sociais. "Se eu posso ser entretenimento, inspiração e uma razão para acreditar no recomeço, por que eu não me sacrificaria? O mundo inteiro precisa lutar, se adaptar e seguir adiante. Nesses últimos três dias, pela primeira vez na vida tive uma ponta de vergonha por ser atleta. Que eu e meus companheiros esportistas possamos refletir nesses tempos sobre qual o nossa responsabilidade social."

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