Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

'O atleta olímpico brasileiro é uma figura heroica'

Pesquisadora diz que é impossível imaginar que o Brasil tenha 108 medalhas nos Jogos dadas as condições materiais que foram dadas

Entrevista com

Katia Rubio

PAULO FAVERO, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2015 | 07h10

A pesquisadora Katia Rubio, da Escola de Educação Física e Esporte da USP, conta no livro “Atletas Olímpicos Brasileiros” a história de 1.796 pessoas que representaram o País nas edições da Olimpíada. Ela mostra por meio de verbetes biográficos como elas superaram as adversidades para realizar feitos extraordinários. Nesta entrevista, ela explica como foi o processo de trabalho.

O que caracteriza um atleta olímpico brasileiro? Qual o eixo comum entre todos eles?

Talvez ter um desejo maior de vencer do que as condições materiais oferecidas. Porque, se levarmos em conta as condições materiais para a prática esportiva, é impossível pensar que o Brasil tenha 108 medalhas olímpicas. Há uma mescla aí de desejo pessoal, com uma teimosia fora do limite, e óbvio as habilidades pessoais, motoras, que faz com que esse cara se destaque da média para poder trilhar o seu caminho em busca da experiência olímpica.

Qual a modalidade que você mais gosta?

Eu sou apaixonada por esporte. Não tem algo na competição olímpica que não me fascine. Mesmo modalidades que o Brasil não tem tradição, como hóquei sobre grama ou badminton. O esporte é uma experiência estética antes de mais nada. Poucos enxergam desta forma. O prazer, para mim, não está na competição, mas na perfeição do movimento. Quando assisto a uma prova de ginástica na qual o atleta executa a sua série com perfeição, aquilo é divino, é sobre humano. Ver alguém passar do limites, com todas as limitações que ele tem como humano, é maravilhoso.

Como surgiu a ideia do livro?

Foi uma decorrência natural da própria pesquisa, que tem 15 anos. Ela brotou durante a realização do meu doutorado, quando estudei a relação entre a formação da identidade do atleta e o mito do herói. Durante o processo da tese, me dei conta que a figura de projeção do atleta em formação, para se constituir como atleta olímpico, é essa figura heroica.

No livro você quis tratar todos como heróis?

Passado o doutorado, eu comecei a pesquisa dos medalhistas. Fui em busca de todos os nomes, no caso das modalidades individuais era tranquilo, nas coletivas eu buscava alguém que representasse esse grupo de medalhistas. Isso foi interessante porque são todas as histórias com final feliz. Ao final dessa pesquisa cheguei à história das mulheres, pois a primeira medalha feminina foi em 1996. Aquilo me chamou atenção, pois a primeira mulher brasileira a ir para os Jogos tinha sido em 1932, a Maria Lenk. Então pensei: ‘o que separa ela da medalha de 1996?’ Fiquei três anos estudando as mulheres olímpicas, aí a gente mergulhou na questão do feminismo no Brasil, das políticas públicas que impediram o acesso das mulheres ao esporte, e também cheguei naquelas que treinaram muito, fizeram de tudo e não tiveram medalhas, diferente do primeiro projeto de pesquisa. Não são histórias menos encantadoras ou menos desafiadoras do que são as dos medalhistas. Então, em 2008, comecei a pesquisa sobre todos os atletas olímpicos, que resultou nesse livro.

Qual história mais chamou sua atenção?

É difícil escolher uma. Quando começa a ouvir as histórias, algumas delas guardam características comuns, que são a falta de políticas públicas, o descaso com o esporte, a ausência da educação física na escola, e o professor dedicado que faz toda diferença em comparação a um professor burocrata. Enfim, tem alguns traços comuns a algumas histórias que fazem com que elas sejam especiais. Fico constrangida de escolher uma. O que me chama a atenção são algumas histórias de famílias que não sabem que seus antepassados foram atletas olímpicos, o que mostra um descaso pela memória, não apenas no sentido social, mas mais amplo. Mesmo no âmbito familiar, falta essa cultura.

Interessante...

Chama atenção também algumas histórias que se relacionam com momentos históricos específicos. É o caso dos olímpicos de 1968. Eles vão para os Jogos em plena ditadura no Brasil, em pleno fechamento do País, e quando perguntamos se eles tinham noção do que estava acontecendo, eles respondem que não. Eram pessoas que não tinham a menor ideia do que acontecia no País e hoje a gente sabe que houve certa manipulação da delegação para encobrir os fatos políticos daquele momento. Quando voltam, duas semanas depois é decretado o AI-5. Pelas histórias dos atletas, a gente entende o que é o esporte no Brasil e a gente entende um pouco melhor nossa própria história, porque de 1936 a 48 tem a marca do Getúlio Vargas, na década de 60 tem o dedo do Juscelino Kubitschek, enfim, é muito interessante poder ver a história do Brasil pela história do esporte.

Você pretende dar continuidade ao livro?

Essa é uma pesquisa que não tem fim, porque ela se renova a cada quatro anos, e nossa maior dificuldade é ter as condições materiais para continuá-la uma vez que esse projeto foi pago pelas agências de fomento à pesquisa, como Fapesp, CNPq e Capes. As políticas de fomento à pesquisa não estão muito preocupadas com o ciclo olímpico. Então às vezes consigo financiamento, às vezes não, e isso dificulta bastante a nossa vida uma vez que o maior gasto é com viagens. Só para fazermos os atletas do judô, foram percorridos 45 mil quilômetros de estrada, fora o que viajamos de avião.

Após ver o livro lançado, fica a sensação de dever cumprido?

É um prazer imenso, principalmente para os atletas mais velhos, que já se tornaram invisíveis, que foram esquecidos. O prazer deles em se ver em um livro pelo que fizeram satisfaz a mim como pesquisadora e apaga todas as marcas da precaridade que a pesquisa viveu em alguns momentos, como a falta de dinheiro e de apoio. É um prazer entregar os livros, ver os atletas recebendo seu exemplar, acho que não tem dinheiro que pague isso.

Qual sua expectativa do Brasil nos Jogos de 2016?

Eu penso que não vamos ter nada muito surpreendente em relação a outras edições olímpicas. A gente pode até desejar que o Brasil termine entre os dez mais bem colocados no quadro de medalhas, mas não existe milagre ou sorte no esporte. É uma atividade que demanda tempo. Então, quem não treinou no mínimo oito mil horas na vida não vai chegar a ser olímpico, e muito menos medalhista. Há trabalhos na universidade que apontam isso. Em algumas modalidades são necessárias dez mil horas de treino, outras 12 mil horas. São sete ou oito anos de treino. Então, não é possível, em sã consciência, esperar muito mais do que a gente teve em outros ciclos olímpicos.

ATLETAS OLÍMPICOS BRASILEIROS

Autora: Katia Rubio

Editora: Sesi-SP

Número de páginas: 648

Preço sugerido: R$ 120,00

ISBN: 978-85-8205-581-6

Ano: 2015

Capa: Brochura

Fomato: 20,5 cm x 25,5 cm


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