Claus Fisker|Reuters
Forte, rápida e precisa, ponta-esquerda supera o bloqueio defensivo das adversárias Claus Fisker|Reuters

O canhão romeno do handebol se chama Cristina Neagu

Jogadora promete comandar a seleção rumo à medalha inédita

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

21 de março de 2016 | 07h00

Cristina Neagu nasceu em Bucareste e passou sua infância no bairro de Ghenca, muito próximo do estádio do Steaua Bucareste. Junto com as duas irmãs mais velhas e dos amigos, jogava futebol, basquete, mas se destacou no handebol. Em 2000, aos 12 anos, foi descoberta pela técnica Mariana Covaci. "Após apenas alguns minutos de observaçao, minha experiência me garantia de que se tratava de uma futura grande jogadora. A melhor do mundo no futuro." E a treinadora estava certa.

Logo após o primeiro treino, o número 5 do Clubul Sportiv Colar já tinha dona. Daí para frente, Cristina Neagu partiu para se tornar o grande nome do handebol romeno. "Eu não posso acreditar que aquela menina que atirava a bola no muro de casa se tornou a maior jogadora do mundo, respeitada por todas as adversárias", relembra a mãe Vasilica Neagu, funcionária de uma fábrica de pão aposentada, casada com um motorista de táxi.

Dona Vasilica não se cansa de deixar o quarto da filha sempre limpo. Uma das paredes é reservada para guardar os troféus e medalhas conquistadas pela filha mais nova em todos os cantos do mundo. "Atualmente, passo um dia tenho limpando todos os objetos. Trata-se de uma terapia e serve para matar a saudade dela quando está longe."

A seleção feminina de handebol da Romênia vai brigar por uma medalha na Olimpíada do Rio. Mas o título de melhor jogadora dos Jogos parece já ter dona. Cristina Neagu, eleita a melhor do mundo ano passado, comandou sua equipe na conquista da medalha de bronze no Mundial da Dinamarca. A atleta, de 27 anos, marcou 63 gols na competição.

Ponta-esquerda da equipe do ZRK Buducnost Podgorica, atual campeã da Liga dos Campeões da Europa, Cristina Neagu foi, ao lado da goleira Paula Ungureanu, a grande responsável por eliminar a seleção brasileira nas oitavas de final no último Mundial, quando as brasileiras defendiam o título. Placar: 25 a 23. E Neagu não parou por aí. Com grande atuação, levou sua seleção a uma vitória histórica sobre a Dinamarca, na casa da rival, nas quartas de final, por 31 a 30, depois de empate no tempo normal em 27 gols. A derrota na semifinal para a potencia Noruega (25 a 23) foi apagada depois do triunfo sobre a Polônia (31 a 22), que valeu o bronze.

Engana-se aquele que pensa que uma vaia possa tirar a concentração da romena na Arena do Futuro durante os Jogos em agosto. Com 1,80 metro e 71 quilos, Neagu é imparável. Supera qualquer barreira defensiva e seus arremessos parecem ter mira laser. Tanto de perto como de longe. Sua potência e tão grande, que, em muitos lances, nem precisa saltar para arremessar e surpreender a goleira adversária.

Os obstáculos não incomodam esta romena acostumada a enfrentar grandes problemas na vida. Em 2010, aos 22 anos, foi eleita pela primeira vez a melhor jogadora do mundo, mas teve pouco tempo para festejar. Uma lesão na cartilagem do ombro direito a levou para um tratamento de 605 dias. Boa parte do procedimento foi feito nos Estados Unidos, para desespero de dona Vasilica em Bucareste. Em janeiro de 2013, um novo revés na carreira, ao romper o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Mas os problemas parecem fortalecer ainda mais Cristina Naegu. Em seis meses, a jogadora já estava em ação como se nada tivesse acontecido, a ponto de conduzir o ZRK Buducnost Podgorica ao título da Liga dos Campeões da Europa, com 102 gols marcados.

No Rio, além de buscar o destaque individual, Neagu vai ter a missão de recolocar a Romênia no pódio olímpico do handebol. O time masculino teve seus tempos de glória. Foram três medalhas de bronze (Munique-1972, Moscou-1980 e Los Angeles-1984) e uma prata (Montreal-1976). As meninas vão em busca de um lugar inédito entre as três primeiras seleções. A melhor colocação até agora do time feminino foi há 40 anos, quando perdeu a medalha de bronze para a Hungria.

Se depender da atual fase de Neagu, a Romênia já pode contar com uma posição no pódio. O ano passado foi praticamente perfeito. O título europeu por equipes, a medalha de bronze pela seleção no Mundial e o segundo título de melhor do mundo. "Falta a medalha olímpica para coroar minha carreira". Em agosto, este sonho poderá se tornar realidade. Dona Vasilica vai ter mais um objeto para limpar no quarto da filha.

Tudo o que sabemos sobre:
Rio-2016HandebolOlimpíada

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.