Amr Abdallah Dalsh / Reuters
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Robson Morelli
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O futebol feminino, e as modalidades olímpicas do Brasil, não pode ser abandonado após os Jogos

É preciso encontrar mecanismos para valorizar as modalidades e, com elas, os atletas, e encontrar novos talentos para substituir Marta, por exemplo

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 11h00

A eliminação da seleção feminina diante do Canadá nos Jogos Olímpicos de Tóquio não pode tirar a modalidade do caminho que ela tomou recentemente no Brasil, o da organização, dos campeonatos mais regulares, dos investimentos dos clubes e das condições oferecidas pela CBF. Assim como nada deveria acontecer com a comissão técnica liderada por Pia Sandhage. Deve ser o oposto disso, principalmente porque duas das principais atletas da equipe, Formiga e Marta, estão em suas últimas ações com a camisa da seleção. Formiga, de 43 anos, já anunciou sua despedida. Marta evitou comentar do assunto agora, no calor da queda. Ela tem 35 anos e vem demonstrando em seus discursos a necessidade de o futebol encontrar outras Martas e Formigas, que "elas não vão ficar para sempre".

O futebol feminino tem problemas a resolver no Brasil, quase um acerto de conta com uma modalidade que já deu medalhas olímpicas para o País. Isso valeria também para tantos outros esportes que não o futebol masculino. Não podemos deixar nossas Mayras, Rebecas e Martas na lama após os Jogos Olímpicos de Tóquio, como quase sempre acontece com nossos atletas. As bandeiras que vemos tremular nas primeiras colocações do quadro de medalhas em Tóquio são de países que têm no esporte, todos eles, um investimento pesado, uma aposta para melhorar a sociedade e competir com destaque nos torneios internacionais. 

DNA o Brasil tem em todas as modalidades, como mostramos no debutante skate e surfe. Não podemos mais permitir que potenciais medalhistas olímpicos andem a pé por duas horas para treinar, como Rebeca Andrade, ou que surfistas como Italo Ferreira peguem suas primeiras ondas com prancha de isopor. O esporte olímpico no Brasil pede passagem e deve ser tratado como o peso de sua história, do passado, como o tiro das primeiras medalhas, ou do presente, como o bronze de Mayra Aguiar.

O futebol feminino sempre enfrentou dificuldades e nunca mergulhou como deveria na caça aos talentos, nas categorias de base, nas escolas públicas. Massificar as modalidades é um dos caminhos. Só assim o Brasil vai aumentar sua quantidade de praticantes e encontrar e peneirar nelas as melhores em cada uma das modalidades, como pede Marta. Ela e tantas outras precisaram deixar o País para ganhar a vida com o que amam: o futebol. O futuro das modalidades olímpicas no nosso País não pode estar atrelado ao desempenho e à conquista de medalhas olímpicas e Mundiais. Precisa ser mais nobre do que isso.

Um primeiro passo foi dado nos últimos anos, muito em função dos Jogos realizados no Rio. Mas ainda é pouco. O alerta também serve para as marcas que só olham para o futebol masculino por causa da sua infinitivamente maior visibilidade. Ganhar e ganhar. Esse também não pode ser o único objetivo. É preciso apostar por acreditar. O futebol feminino nos clubes cresce, com algumas boas contratações, repatriações e formações de times. Ainda é preciso achar um jeito de mostrar melhor a modalidade. Falta esse acerto. Falta descer para as bases. Falta entrar nas escolas. Combinar estudos com esporte é um caminho que dá certo fora do Brasil.

É preciso trabalhar muito mais agora para formar equipes mais fortes pensando nos Jogos de Paris-2024. Isso vale para o futebol feminino, que fica pelo caminho nas quartas de final, mas também para qualquer outra modalidade, do basquete ao salto com vara, passando pela explosão que skate e surfe deverão ter agora. É um processo contínuo. Ou deveria ser. É um trabalho dos clubes, mas não somente deles. Deve envolver as federações, confederações e governos em suas três esferas. O Brasil precisa de mais Martas, Formigas, Mayras, Rebecas...

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