'O importante é o dia 5 de agosto de 2016', diz dirigente do COB

Planejamento de 2015, com Pan e Mundiais, é estratégico para a Olimpíada em que o Brasil quer ser top 10 pela primeira vez 

Entrevista com

Marcus Vinicius Freire

Amanda Romanelli e Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 07h00

A reta final para a Olimpíada do Rio chegou, com um calendário cheio para os atletas brasileiros em 2015. Em entrevista exclusiva ao Estado, o diretor executivo de esportes do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marcus Vinicius Freire, detalha que a temporada que vem pela frente será feita de forma estratégica para encarar Pan e Mundiais, em busca da melhor forma para os Jogos.

A meta de ser top 10, conquistando entre 27 e 30 medalhas, continua. Mas Freire admite: o Brasil não tem "gordura" em sua delegação para atingir esse objetivo, caso os principais atletas tenham problemas.

Quais são as metas do COB para 2015, reta final para a Olimpíada do Rio?

Os dois primeiros anos do ciclo foram os melhores da história olímpica brasileira. 2015 é mesmo a reta final, com 500 e poucos dias para os Jogos (nesta segunda-feira, faltam 543 dias), e um evento gigante pela frente, que é o Pan (em julho). Vamos levar 600 atletas para Toronto, em um Pan totalmente atípico, já que não vamos brigar por classificação para a Olimpíada em várias modalidades. E o calendário é complicado, porque encavalou com o Mundial de Desportos Aquáticos, na Rússia. Mas a gente continua focado em ser top 3, brigando pelo segundo lugar com o Canadá, que joga em casa e é favorito.

Mas esse também é um ano de muitos Mundiais.

Em relação aos Mundiais, vamos fazer a mesma comparação dos últimos dois anos. Vamos pegar os números de 2011 e comparar. A gente saiu, no primeiro ano de ciclo, de 11 para 27 medalhas (comparando 2009 e 2013) e, no segundo ano, de 15 para 24. Mostra que o trabalho está no caminho certo.

Para quem vale o Pan e para quem valem os Mundiais?

Cada atleta, treinador e diretor técnico negocia conosco, estamos dando muito mais voz a eles. O importante é o dia 5 de agosto de 2016 (data de abertura da Olimpíada). E o que é melhor para esse dia? Cada um monta a sua estratégia.

Para os atletas mais novos seria interessante disputar o Pan por causa da vivência?

Essa discussão é ótima. Nos nossos encontros de treinadores tivemos essa pergunta e cada tem a sua resposta. O Jesus Morlán, da canoagem, acha que ninguém tem que entrar na Vila, ninguém tem que dar entrevista. O Torben (Grael, treinador chefe da vela) diz o contrário. Que a vela sempre fica fora da Vila e que ele quer que a filha dele (Martine, campeã mundial da classe 49er) fique para ver como é.

 

 

O Brasil ficará na Vila, com os outros atletas, em 2016?

Majoritariamente na Vila, mas não totalmente. O judô vai fazer igual em Londres, quando ficou em Sheffield e saía de lá 48 horas antes da competição. No Forte de São João, que vai ser nossa base, ficam atletismo e natação, por causa da pista e da piscina. A gente também tem hotéis reservados pela cidade, para quem vai competir em Copacabana, no Aterro do Flamengo ou em Deodoro.

Essas reservas têm a ver com conforto ou controle?

Pensamos em facilidade, conforto e proximidade. É na Vila que você tem controle total, não no hotel. Mas vamos fechar a Vila para visitantes. A Grã-Bretanha fez isso. Criaram um outro espaço, perto da Vila, em que o atleta ia para encontrar o familiar, a namorada, o agente. Vamos fazer a mesma coisa. Isso não atrapalha só o cara, mas o time inteiro.

Hoje, a única equipe sem chance de classificação é o hóquei sobre grama feminino. Por quê?

Cinco anos atrás, fui a todas as federações internacionais para perguntar: como é que vocês me ajudam (a classificar para os Jogos)? A de hóquei disse que a distância era grande e era necessária uma evolução para vir o convite. O feminino não acompanhou e no ano passado já ficou fora. O masculino encostou na meta e vai ao Pan precisando ficar entre os seis para ter a vaga. O convite foi amarrado na evolução técnica. Tem quem discorde, acha que tem que ter time de qualquer jeito, mas não vejo assim. Eu acho melhor não ter um time do que perder de 70 a 0, 50 a 1, porque aí vira chacota. Melhor ter um plano para desenvolver em oito, 12 anos. Esse é o meu conceito.

Mas essa curva de evolução foi buscada pela confederação?

Sim, com o nosso apoio. No acordo havia compromisso de três partes. Da Federação Internacional, para convidar o time para alguns eventos; do COB, de sustentar algumas competições, independentemente dos recursos da confederação; e da confederação, em concentrar seus investimentos e atenções nas equipes. E ainda tinha o comitê organizador, que iria montar quadra, fazer uma área na universidade, e que estão fazendo... era um pacote.

Porque muitas atletas reclamaram de falta de apoio.

No lugar delas, eu também estaria protestando. Mas elas tiveram apoio até onde deixaram de bater a meta. E aí, o que acontece? A confederação de hóquei sobre grama é pequena, que não tem nenhum outro recurso a não ser o da Lei Agnelo Piva. No momento em que um alcança a meta e o outro, não, é melhor concentrar. Chegamos a uma bifurcação que não tinha outro caminho. Se continuasse dividindo o dinheiro, nenhuma das duas classificaria, porque teria de ir a quatro campeonato nesse ano. Então, era melhor colocar o dinheiro em uma só. Não escolhemos o masculino, é que eles cumpriram a meta e precisavam de recursos para continuar cumprindo. A China foi o único país-sede, nos últimos 20 anos, que participou de todas as modalidades. A Grã-Bretanha não participou de quatro, a Grécia de seis, a Austrália de um ou dois. É normal.

Existe a chance de o Brasil ficar de fora de mais alguma modalidade?

Nesse momento eu poderia dizer que o basquete, porque ainda não tem a definição do convite, então iria ao Pré-Olímpico para classificar. E tem o caso oposto. Nos saltos ornamentais sincronizado, feminino ou masculino, a gente pode escolher qual, já estamos na final. Temos o oitavo lugar nos saltos ornamentais sincronizado. Pela regra, o país-sede tem uma dupla na final. E aí o melhor resultado do Brasil até agora, podem me dar os parabéns (risos).

Como o COB tem trabalhado a questão da pressão em casa?

Temos um trabalho específico. Definimos que não existe atendimento de emergência. Temos 11 psicólogos tratando as equipes. A gente entende que jogar em casa tem o lado positivo e o negativo. O bom é a torcida a favor, conhecer o ambiente. O ruim é a distração, de querer saber se a mãe está na arquibancada, se os amigos ficaram do lado de fora. Não adianta achar que vamos eliminar isso. Temos de conseguir prepará-los para lidar com isso. Não vou ter como segurar mídia social, não vou jogar fora o celular.

O Brasil tem como meta ser top 10. Esse objetivo continua em ganhar entre 27 e 30 medalhas?

Sim, mas a gente tem que combinar com os demais… Quando se fala em medalhas, não adianta achar que com 27 eu vou ficar no top 10 se os caras que estão embaixo da gente ganharem 28. Então, é uma estimativa, olhando para o perfil dos últimos quatro Jogos. É uma meta arrojada, mas factível.

O Brasil tem "gordura" na delegação? O Everton Lopes, do boxe, era um possível medalhista e se profissionalizou. Assim como ele, o País pode perder outros...

Sim, perdemos o Everton, e ele estava na conta. Mas os outros países também podem perder. Eu gostaria que, para muitos atletas, a Olimpíada fosse amanhã e, para outros, daqui a dois anos. Porque uns estão maturando e outros estão prontos para ganhar tudo agora. E, depois, uma coisa é a meta. Se ganhar 27 medalhas e ficar em 11.º ou em 9.º, continuamos nela. Se ficar próximo, passar um pouquinho, faz parte do jogo. A tendência dos últimos Jogos é a de diluição das medalhas. Entrou mais gente embaixo: Azerbaijão, Usbequistão, Montenegro... São países da ex-Iugoslávia, da ex-URSS, que demoraram um pouquinho para se estruturar, ficaram um tempo apanhando, mas hoje estão quase todos arrumados e têm uma cultura forte de esporte. Na África, só quem corria era a Etiópia e o Quênia. Agora, não. E aí pode ser que, no Rio, a tendência seja até o contrário, de que para ficar em 10.º precise de 25 medalhas.

A naturalização é, hoje, uma realidade. Qual a posição do COB?

A gente não incentiva e nem desincentiva. Cada confederação tem a sua estratégia e apoiamos. Naturalizamos no tênis de mesa (Gui Lin), naturalizamos na luta (Eduard Soghomonyan). No polo aquático, nós trouxemos um treinador (o croata Ratko Rudic) e ele indicou que precisava que os brasileiros voltassem a ser brasileiros - porque temos brasileiro que foi medalhista olímpico com a Espanha e campeão mundial com a Itália e os EUA - e, para completar um time que quer ser top 8, ele precisaria ter dois ou três estrangeiros. Nós estamos no caminho de naturalizar porque a confederação assim escolheu. Mas acho que as federações internacionais devem impor restrições no número de naturalizados. O time do Catar (no Mundial Masculino de Handebol) tinha 12 jogadores e dez eram estrangeiros. Aí a seleção não é do Catar.

A pressão por resultado pode fazer aumentar o uso de doping?

Acho que cada vez menos. Mas, por outro lado, existe hoje um negócio chamado suplemento, que o atleta de alto rendimento não vive sem. Só que, dependendo dos substâncias do suplemento, é uma linha muito tênue (da quantidade proibida e da liberada)... Os caras vivem no limite, e essa é a preocupação. É igual ao uso do Facebook ou do Twitter, não para controlar e dizer que, a partir de agora, ele só vai comer ovo e frango.

Como o COB tem pensado as próximas Olimpíadas?

Criamos um programa de identificação e desenvolvimento de talentos, e trouxemos uma consultora que fez isso nos últimos 12 anos na Grã-Bretanha, a Sue Campbell. O primeiro diagnóstico dela é que temos identificação e um bom trabalho no alto rendimento, com um buraco no meio. Da nossa parte, montamos um protocolo de identificação nos Jogos Escolares, que é a nossa base. Na última edição, com 2 milhões de participantes, levamos o pessoal da Ciência do Esporte para detectar perfil e levar para algumas confederações.

Nós chegaríamos a essa formatação se o Brasil não fosse sede olímpica?

Chegaríamos se já tivéssemos uma equipe profissional como temos hoje. Mas talvez não teríamos os recursos. O Ministério do Esporte não estaria com essa vontade toda de fazer um plano como o Brasil Medalhas, o Ministério da Ciência e Tecnologia não iria me dar um laboratório de US$ 6 milhões, como o do Maria Lenk, as Forças Armadas possivelmente não teriam engajado 500 atletas. Esse é um sonho olímpico que o COB aceita comandar, mas é um trabalho conjunto. O grande legado dos Jogos em casa foi ter conquistado esse engajamento.

Como executivo que cuidou dessa preparação, o que essa proximidade da Olimpíada tem significado para você?

Acho que é a conclusão de um trabalho. Eu tenho dormido e acordado tranquilo, porque o trabalho que tinha que ser feito eu tenho certeza que a gente está fazendo. Tenho a tranquilidade de dizer que, hoje, o atleta brasileiro tem, no mínimo, a mesma condição que o estrangeiro concorrente dele. Minha única frustração é que eu gostaria de estar jogando ainda, queria essa condição quando eu tinha 18 anos. Mas, para mim, quanto mais perto da competição, melhor, porque quem gosta de jogo quer ver a bola rolando.

E para o Marcus Vinicius que subiu ao pódio em 1984?

É o máximo. Eu estou no lugar que eu sonhei estar, em uma Olimpíada em casa. Eu cuido dos atletas, e sinto que cada pedacinho de medalha também é meu, em todas as competições, em todas as Olimpíadas que eu fui. Comemoro de novo, como se fosse aquela do vôlei. Eu estou sonhando com as nossas 27, 28 medalhas, e dando a minha participação. Consegui montar um time que anda sozinho, com uma turma que viveu uma outra época e que está sonhando em ajudar os que estão nesse momento, que é o melhor do esporte brasileiro.

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