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O legado de Tóquio

A saúde mental, o bem estar emocional, a visão dos atletas tornam-se também um valor

Daniel de Barros, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 05h00

E sem que esperássemos por isso eis que a saúde mental se tornou a principal notícia dessa Olimpíada. Quando Simone Biles, a ginasta americana mais bem-sucedida de todos os tempos, disse achar “que a saúde mental é mais importante nos esportes nesse momento” e anunciou que abandonaria a competição em função de seu estado emocional, deflagrou uma enxurrada de manchetes, análises, opiniões e, como não poderia deixar de ser, críticas. “Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos e não apenas sair e fazer o que o mundo quer que façamos.”

O tamanho desse gesto só a história será capaz de demonstrar, mas acredito que ele retrospectivamente será visto como o marco de um movimento que, se já vinha crescendo na sociedade, ganhou novo alcance após essa Olimpíada. Até então uma das cenas mais emblemáticas dos Jogos era a de Gabriela Andersen-Schiess, que em 1984 correu a primeira maratona feminina. Ela sofreu desidratação, teve cãibras, desequilíbrio e confusão mental, terminando a prova com grande sacrifício. As cenas dela cambaleante, se arrastando até a linha, tornaram-se símbolo da persistência e esforço, no qual a preservação da integridade física e mental não poderiam ser empecilho para se conquistar o objetivo. Bem a cara dos anos 1980.

O cenário agora parece diferente. “Eu não queria ir lá, fazer algo estúpido e me machucar”, disse Biles, ao se referir a um fenômeno muito comum entre ginastas, conhecido como twisties, a perda de referência do próprio corpo em meio às manobras, colocando em risco não apenas a precisão do movimento, mas a integridade física do atleta. Em vez do sacrifício da saúde em função dos resultados, o sacrifício dos resultados em função da saúde. Bem a cara dos millenials.

São sinais dos tempos. Se os Jogos concentram e ampliam o espírito de seu tempo, essas situações contrastantes exemplificam como poucas o ethos de cada uma de suas épocas. E, sinceramente, não estamos necessariamente progredindo dos valores errados para os corretos. Mas também não creio que estejamos involuindo moralmente. Estamos, isso sim, ampliando nossa liberdade de ação. Num ambiente que valoriza o resultado acima de tudo, inclusive da saúde, a atitude de Biles seria simplesmente impensável. Não é só que lhe faltaria coragem para tanto, é mais profundo: lhe faltaria repertório. Ela sequer vislumbraria a desistência como uma opção. Agora é diferente.

E para mim esse é o grande legado de Tóquio-2020: abrir nova possibilidade. Não é que o sacrifício em busca de objetivos deixará de ter valor. Claro que a persistência, o esforço, a ampliação dos limites continuarão a ser meritórios. Mas já não são a única recompensa. A saúde mental, o bem estar emocional, a visão dos atletas - e por extensão, dos trabalhadores, funcionários, executivos - como seres humanos, não como máquinas, tornam-se também um valor. Ampliam-se as possibilidades de caminhos. Quer se sacrificar? Tudo bem. Não quer? Tudo bem, também.

Muitos da minha geração (X) gritarão que é “mimimi” (esquecendo-se que nós, geração X, fomos os primeiros a ser alcunhados “me generation”). Dirão que essa postura não levará a lugar nenhum no mundo real, no mercado de trabalho e assim por diante. Não concordo, mas entendo. Afinal, por trás de um adulto dizendo que os jovens de hoje não estão preparados para o mundo que nós chefiamos, eu vejo um adulto morrendo de medo de não estar preparado para o mundo que esses jovens virão a chefiar.

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