Wander Roberto/CPB
Wander Roberto/CPB

O ouro que Beth Gomes sonhava ganhar em casa, enfim, chegou cinco anos depois

Mais velha da delegação em Tóquio, atleta não competiu na Rio-2016 por causa de requalificação de classe por sofrer de esclerose múltipla

Caio Possati, Especial para o Estadão

30 de agosto de 2021 | 19h55

Na prova de lançamento de disco para a classe F53 (para atletas que competem em cadeira de rodas por conta de lesões medulares), realizada na manhã desta segunda-feira (de Brasília), no estádio Olímpico de Tóquio, Elizabeth Gomes esperou todas as suas oito adversárias arremessaram primeiro até chegar a sua vez. Quando posicionou a cadeira de rodas para fazer o primeiro lançamento, já sabia que precisava superar os 15,48m da ucraniana Iana Lebiedieva para conseguir a medalha de ouro na Paralimpíada de Tóquio. Com a mão esquerda, ela faz o primeiro arremesso. O disco toca no chão. E depois de nedir, os juízes anunciam: 15,68m. Ouro garantido para a atleta que esperou cinco anos para saber o que é ser campeã paralímpica.

No restante da prova, leve por saber que não poderia ser mais ultrapassada por nenhuma adversária, Elizabeth evoluiu as próprias marcas. Chegou a  quebrar o recorde mundial, que já era dela, duas vezes. No fim, decretou uma nova marca lançando o disco a uma distância de 17,62m.  

Esse foi o primeiro ouro da paulista Elizabeth Gomes, que é atleta mais velha da delegação brasileira em Tóquio, com 56 anos. Aos 27, enquanto tentava  pular uma poça d'água em uma rua Santos, onde nasceu, ela caiu  porque a perna não respondeu ao comando do pulo. Já era o primeiro sinal da Esclerose Múltipla, que seria diagnósticada horas mais tarde. Depois do acidente, ela foi para o hospital e nunca mais voltou a andar.

A Esclerose Múltipla é uma doença autoimune, em que o sistema de defesa do corpo ataca células do sistema nervoso por entender que se trata de uma ameaça ao organismo. Os ataques acabam lesionando o cérebro e a medula, provocando graves sequelas na pessoa de forma gradativa. Por conta da característica da doença em ser progressiva, Elizabeth já passou por reclassificações ao longo da carreira.

Em uma dessas mudanças, Elizabeth chegou a perder uma Paralimpíada. Em 2016, quando a atleta disputava as competições no arremesso de peso, ela foi transferida da classe F54 para a F55, em que não havia provas da modalidade. Por conta disso, Elizabeth não pôde participar dos jogos paralímpicos em casa.

Carreira esportiva

A relação da recém medalhista de ouro com o esporte é anterior à descoberta da doença. Elizabeth jogava vôlei em Santos, e chegou a competir em torneios locais. Mesmo sendo obrigada a interromper a trajetória no esporte que mais gostava, continuou frequentando as quadras. 

Em 1996, ela começou a praticar basquete em cadeiras de rodas e, pela modalidade, foi convocada para disputar a Paralimpíada de Pequim em 2008. Dois anos depois, resolveu sair do basquete e se dedicar, exclusivamente, ao atletismo, que ela também já praticava.

Depois da frustração de 2016, a santista foi reclassificada para a classe F53 depois após um novo surto causado pela esclerose que reduziu ainda mais a mobilidade do seu lado esquerdo, em 2017.  Em 2019, foi medalhista de ouro no lançamento de disco no Mundial de Dubai, onde quebrou o recorde mundial, e também foi ouro nos Jogos Parapan-Americanos Lima pela mesma modalidade. 

Depois da prova, visivelmente emocionada, ela dedicou a vitória aos pais que já falecerem. "Esse sonho se tornou realidade. Foram cinco anos esperando por esse feito quando eu fiquei de fora das paralimpíadas do Rio por uma reclassificação funcional. E, hoje, eu pude comemorar esse feito que eu e minha treinadora, Roseane Farias, viemos galgando a cada treino, a cada suor derramado.", disse Beth em entrevista para a emissora SporTV.

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