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O ouro que não virá

O Brasil pode ganhar um monte de medalhas, mas não a de país poliesportivo

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2016 | 03h00

Quantas medalhas o Brasil conquistará na Olimpíada em casa? A pergunta está no ar e, à medida que se aproximam os Jogos, se torna mais recorrente. Há estudos e projeções, elaborados por especialistas, com base em estatísticas, histórico de desempenho e comparações. Mas ninguém crava com exatidão, porque ainda não se pode controlar o imponderável. Roger Federer, por exemplo, era barbada de pódio para a Suíça. O joelho, no entanto, o tirou da grande festa, conforme se confirmou ontem.

As autoridades esportivas patrícias esbanjam otimismo, como ficou evidente em entrevista de Marcus Vinicius Freire publicada no Estado no final de semana. O dirigente calcula que, entre ouro, prata e bronze, nossos atletas estarão em condições de colocar o País na lista dos dez primeiros colocados no quadro geral.

Se isso ocorrer, representará proeza inédita para uma nação que costuma ser figurante na maior manifestação esportiva global. Ótimo, parabéns aos envolvidos, que a rapaziada eventualmente vitoriosa guarde para sempre o momento único e conte história para as gerações futuras. A alegria será legítima e ninguém pode diminuí-la.

A leitura que se impõe, porém, é mais abrangente. O que significam as medalhas pelas quais o COB anseia? Na visão empolgada de Freire, sinal inquestionável de que o investimento feito nos últimos anos foi correto. O antigo jogador de vôlei detecta evolução na formação de professores, treinadores, atletas, gestores, até de jornalistas. Festeja o fato de que 30 modalidades novas serão seguidas mais de perto por 200 milhões de brasileiros, e não só 10 ou 12 das tradicionais.

Mais ou menos. A aposta pesada, intensa, milionária concentrou-se nas modalidades em que o Brasil costuma se sair bem – entenda-se sair-se bem como faturar medalha. Então, que se destinem recursos para vôlei, natação, judô, atletismo, iatismo, ginástica, basquete, futebol. Além deles, houve atenção para esportes em que há fenômenos capazes de surpreender. E tem gene a rezar – fora os atletas e seus respectivos familiares – para que algum atirador, alguém do remo tenha realce; assim, se justificará o “legado”.

Não houve, desde 2009, planejamento para que viesse o “ouro” mais reluzente, a grande medalha, de valor inestimável, duradouro e prazeroso: transformar o Brasil em terra poliesportiva. Em vez de COB e governo venderem a ideia de que seremos potência, se subirmos tantas e tantas vezes ao pódio, deveriam preocupar-se em ter plantado e cultivado o gosto pela prática esportiva, como lazer, educação, saúde. Como inclusão social.

A Olimpíada deveria ter desencadeado uma epidemia do bem, na forma de envolvimento da população com o esporte. Houvesse interesse em captar pra valer o espírito olímpico, era de imaginar-se a construção de uma infinidade de quadras, ginásios, pistas de atletismo, piscinas, ringues em todo canto do País. Neste momento, era para termos hordas de crianças e jovens a disputarem provas de locais, municipais, estaduais, regionais, nacionais – de handebol a esgrima, de ginástica rítmica a marcha atlética, de hóquei a golfe.

Quantas quadras de basquete surgiram em Boavista, por exemplo? E piscinas em Manaus? Há pistas de atletismo em João Pessoa? E academias de boxe em Macapá? Goiânia ganhou quadras de tênis? Onde se pode jogar vôlei em Porto Velho? Como faz para um menino desenvolver habilidade em tênis de mesa em Teresina? E assim por diante.

Estas são situações hipotéticas, mas não fora de propósito, e provocam uma deliciosa viagem em torno de um Brasil esportivo que poderia existir, mas que não existe, nem existirá, pois a empolgação pela Olimpíada se restringe a arenas e medalhas para afagar o ego de cartolas.

Por falta de espaço, nem fiz o mea-culpa do papel da imprensa, da qual sou parte... Por ora, resta seguir com simpatia como se sairão nossos conterrâneos nos Jogos.

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