Gaspar Nóbrega/COB
Gaspar Nóbrega/COB

O que seu ‘time de futebol’ tem feito pelo esporte olímpico?

Passados os Jogos de Tóquio, é consenso que o desafio é ampliar a visibilidade e o investimento das modalidades até Paris-2024. ‘Esportes clubes’, ‘sociedades esportivas’ e ‘clubes atléticos’, honrem seus nomes

João Abel, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 12h00

Só o que é bom dura tempo o bastante para se tornar inesquecível. Os versos de Chorão ajudam a resumir o sentimento dos brasileiros sobre os Jogos Olímpicos de Tóquio. No clima de ressaca olímpica e com fuso trocado, talvez você ainda se pergunte inconscientemente: ‘que horas é a esgrima mesmo?’. Ou acorde sobressaltado no meio da noite depois de um pesadelo com aquele 20 a 12 no vôlei. Pois é, estava 20 a 12...

Mas o Brasil é um dos países que mais teve motivos para celebrar no evento. Uma dupla conquista: 21 medalhas no peito, recorde do país, e nenhum caso de covid confirmado na delegação brasileira, uma espécie de ‘22ª medalha’.

Sinto muito em quebrar o clima. Aqui é onde a gente volta para a realidade. Nossas atenções agora, em geral, retornam para o futebol brasileiro, com suas delícias e contradições. Não que ele tenha parado durante a Olimpíada, mas certamente perdeu os holofotes nas últimas duas semanas.

Ao mesmo tempo, surge um movimento, especialmente nas redes sociais, de apoio aos atletas olímpicos ao longo do próximo ciclo, que desembocará nos Jogos de Paris-2024. O Estadão mostrou, por exemplo, que o crescimento no engajamento dos perfis oficiais pode trazer patrocinadores aos competidores e ajudar a alavancar o esporte. A skatista Rayssa Leal já conversa com 20 marcas. Darlan Romani, do arremesso de peso, conseguiu levantar mais de R$ 265 mil com uma vaquinha virtual.

Mas nem só de apoio popular, patrocínio privado e incentivo público se constrói um medalhista olímpico. O elo que pode amarrar tudo isso é a existência de estrutura adequada para treinar, oferecida pelos clubes. Imagine se o Brasil fosse um país que tivesse dezenas de agremiações esportivas fortes, com milhares de fãs e grande visibilidade de marca. Pois é, nós somos. O que cada “time de futebol”, especialmente das séries A e B, tem feito pelas modalidades olímpicas?

O “time de futebol” aqui está entre aspas porque, na prática, eles deveriam ser muito mais do que isso. Está no estatuto, no hino, na política institucional da maioria deles a formação de atletas. De variados esportes. E não só daquele que mais tem apelo junto aos torcedores.

Hebert Conceição precisou de um golpe certeiro para conseguir o nocaute técnico e a medalha de ouro na categoria peso médio do boxe masculino em Tóquio. Na entrevista após a luta, carismático, ele soltou o tradicional “bora 'Bahêa', minha porreta!”, em referência ao seu clube do coração: o Esporte Clube Bahia. Tricolor fanático, ele evitou até o uso da palavra “vitória” (nome do maior rival) para falar sobre sua conquista.

Prontamente, o time baiano ofereceu a Hebert um tour e uma camisa personalizada do clube. A imagem do lutador como um torcedor apaixonado foi amplamente usada pelo Bahia ao longo dos Jogos Olímpicos. “E se investissem nele, e em mais boxeadores, como atletas?”, questionaram alguns torcedores.

Situação que se repetiu com outros clubes pelo Brasil. O Palmeiras aproveitou a prata do vôlei feminino para usar a imagem de Camila Brait que é… mais uma torcedora fanática do clube. Até aí tudo bem. Mas é claro que as respostas foram imediatas. “Surfar na medalha dos outros sem investir mais nesses esportes não dá, né? Toma vergonha e volta com o vôlei e o basquete!”, tuitou uma torcedora.

Dos principais clubes brasileiros, tirando os convocados para as seleções masculina e feminina de futebol, poucos tiveram uma real representação em Tóquio. A mais notável foi a do Flamengo, que voltou com o ouro e a prata de Rebeca Andrade, na ginástica, além do ouro de Isaquias Queiroz, na canoagem. Os dois são atletas do clube. O Cruzeiro, fortíssimo no vôlei masculino, levou três jogadores ao Japão: Isac, Cachopa e Alan. O Fluminense tinha Ingrid Oliveira nos saltos ornamentais. O Botafogo representado por Lucas Verthein, do remo.

Sabemos que existem outros fortes clubes e projetos olímpicos importantes no Brasil além das grandes equipes de futebol. Mas por que não cobrar uma política poliesportiva daqueles que têm o maior faturamento e visibilidade dentro do esporte nacional? A desculpa muitas vezes é a falta de receita gerada por outras modalidades, quando, na verdade, o custo para mantê-las é ínfimo comparado ao que se gasta com a equipe principal de futebol masculino. E os Jogos de Tóquio mostraram que o valor de extensão da marca, para além de uma única modalidade, pode sim ter apelo entre os torcedores. 

‘Esportes clubes’, ‘sociedades esportivas’, ‘clubes atléticos’, honrem seus nomes.


*João Abel é editor do Drops, no Instagram do Estadão, autor de ‘Bicha’ e coautor de ‘O Contra-Ataque’. Escreve às quartas-feiras.

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