Steferson Faria/Divulgação
Steferson Faria/Divulgação

'O tae-kwon-do me permitiu reformar a casa da família', conta Venilton Teixeira

Atleta lutou contra a ameaça do tráfico e a pobreza da periferia de Macapá para virar aposta no esporte

Antonio Pita, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 05h00

Franzino e ainda com marcas da adolescência no rosto, Venilton Teixeira, de 21 anos, soube cedo aliar força à determinação para despontar como aposta da equipe de tae-kwon-do nos Jogos Olímpicos do Rio. Nunca conheceu o pai; a mãe o deixou três dias após o parto. Dos 17 irmãos, cinco morreram. Os colegas dos primeiros treinos foram aliciados por quadrilhas de traficantes de drogas na periferia de Macapá. Seu maior incentivador, o avô, morreu antes de vê-lo ganhar a primeira medalha, há quatro anos.

“É difícil jogar contra a corrente, mas eu consegui”, disse Teixeira, único representante do Amapá do Time Brasil nos Jogos, ao Estado.

Venilton é o 9.º colocado no ranking mundial da categoria até 54 kg. No último ano, ficou com o bronze no Mundial da Rússia. Também subiu ao topo do pódio no aberto dos EUA. As viagens foram sua primeira motivação no esporte: já passou por Turquia, México, Coreia do Sul e Egito. “Isto é só o começo. No próximo ciclo olímpico, estarei no auge”, prevê o rapaz. 

O tae-kwon-do é uma luta baseada em técnicas defensivas, com movimentos de precisão. A prática inspira no atleta autoconfiança para superar limites, com paciência e disciplina. A filosofia coreana por trás de um projeto social em Cuba do Asfalto, periferia alagadiça de Macapá, foi determinante para o jovem atleta.

“O bairro era muito perigoso, e o risco da criminalidade, muito grande. Muitos amigos seguiram esse caminho porque era o mais fácil”, conta.

Na época, aos 14 anos, ele era o mais indisciplinado entre dez crianças, irmãos e primos, que moravam com a avó Venina. “Cansei de correr atrás dele com a vassoura para tirar da rua”, disse a senhora de 58 anos, que trabalhou de diarista a carregadora de entulho para sustentar a casa. O avô do garoto era ambulante. Venilton também o ajudava, vendendo de açaí a crochê.

“Tudo que era projeto social eu corria com ele. Tentei capoeira e hip hop, mas ele não gostava porque seu nome não era chamado no microfone. Eu dizia: ‘calma, você ainda vai dar muita entrevista’”, relembrava Venina, enquanto preparava o lanche para o treino do neto, na semana passada. “Ele só pensou em desistir quando o avô morreu. Não tinha forças nem para chorar”, revelou.

Um acidente de carro impediu o avô de assistir pela televisão a final do primeiro Campeonato Brasileiro do neto. “Ele me dava muita força no esporte. Foi mais um incentivo para continuar treinando e chegar onde estou”, disse Venilton, que planeja ir mais longe.

“O tae-kwon-do me permitiu reformar a casa da minha família. Quero fazer um projeto para permitir isso a outras crianças”, completou. 

Seu irmão mais novo, de 14 anos, já segue os passos. A avó, que nunca assistiu a uma luta, tenta controlar a ansiedade e o nervosismo para pegar um avião, sair de Macapá pela primeira vez e torcer pelo neto nos Jogos Olímpicos do Rio, nas competições que começam no dia 16 de agosto. “A medalha vem, com certeza. Para mim, ele vale ouro”, disse.

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