O Taj Mahal e o canguru

O que vemos é a tradicional desorganização e o 'jeitinho' brasileiro como norma

Fernando Paulino Neto, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2016 | 03h00

O Taj Mahal, na Índia, é considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Construído em mármore branco, cravejado de pedras semipreciosas, é um monumento construído no século 17, ao longo de 22 anos, pelo imperador Shah Jahan para ser o mausoléu de sua mulher, que morreu ao dar a luz a um de seus filhos. Depois, ao morrer, foi enterrado ao lado da mulher amada. O prédio espetacular recebe cerca de 3 milhões de turistas por ano e o governo da Índia tenta reduzir o número para preservá-lo. Para além de sua história romântica, virou símbolo de luxo e riqueza.

Por isso, a comunidade esportiva internacional entendeu perfeitamente quando o cartola máximo do movimento olímpico, o alemão Thomas Bach, falou reservadamente aos comandantes das federações internacionais de esportes para não esperar ver no Rio “nenhum Taj Mahal”. O recado nos bastidores era claro. Não adiantava ter a expectativa do luxo dos Jogos de Pequim, em 2008, e da organização perfeita dos Jogos de Londres, em 2012. O negócio era deixar de “mimimi” sobre os detalhes de infraestrutura dos Jogos Olímpicos do Rio e se preparar para fazer o melhor dentro das condições possíveis para os primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul.

Entre as preocupações estavam, principalmente, os atrasos nas instalações esportivas, a falta de eventos-teste em algumas modalidades, como o ciclismo, e detalhes, como cores de pisos de quadras etc. Ninguém reclamava das condições da Vila dos Atletas, considerada a menina dos olhos da organização. Seria onde o Rio e o Comitê Olímpico Internacional mostrariam a capacidade da cidade de realizar o evento. Deu no que deu.

O prefeito do Rio com sua costumeira incontinência verbal e suposta verve carioca juntou a sua incontável série de gafes e saias justas mais uma. Ameaçou por um canguru em frente ao prédio mal acabado da delegação australiana, tomou uma invertida de um diretor do comitê olímpico, recuou, e tudo terminou diplomaticamente acertado com uma troca de gentilezas. Ontem, deu a chave da cidade para os australianos (os outros 204 países visitantes não receberam a mesma consideração) e teve de engolir a ironia de ter, ele sim, recebido um canguru de pelúcia vestido com luvas de boxe.

Ajustes em alojamentos de vilas olímpicas são normais. É um número grande de apartamentos, todos novos, e um ou outro pode apresentar problemas. Um atleta brasileiro lembrou que no primeiro dia na vila de Londres, teve de tomar banho frio. Mas o que vemos neste primeiro resultado, na prática, da organização dos Jogos no Brasil é muito mais do que isso. É a tradicional desorganização e o “jeitinho” brasileiro como norma.

Os prédios da Vila foram entregues pelos construtores a tempo de serem vistoriados, testados, observados pelo Comitê Organizador. Aparentemente, isto não foi feito. Restos de obra, detalhes que podem faltar, especialmente se levando em conta os números gigantes dos alojamentos dos atletas olímpicos, não foram vistoriados. São 31 edifícios, divididos em sete blocos, com um total de 3.604 apartamentos. Evidentemente que os empreendedores também não podem ser eximidos de culpa. Afinal, entregaram prédios que virão a ser habitados pela classe média alta com acabamento precário.

Superado o impasse inicial com a contratação de emergência de um exército de encanadores, eletricistas, pintores e compras de última hora, os atletas começam a se sentir à vontade. Os turistas estão chegando e aproveitando o sol do inverno carioca. As coisas parecem começar a entrar nos eixos. Pelo menos por enquanto. A partir do dia 5, quando será realizada a cerimônia de abertura, começa o verdadeiro teste das instalações esportivas que causaram tanta apreensão aos dirigentes mundiais. E desta vez, nada pode dar errado, sob o risco de o mico planetário ser irreversível.

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