Ben Stansall/AFP
Ben Stansall/AFP

O verdadeiro espírito olímpico

É fácil as pessoas opinarem, mas só o atleta que tem ideia do que o outro está passando

Fabiana Murer, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2021 | 05h00

A Olimpíada de Tóquio está sendo de insistência, superação, surpresas. Depois de um 2020 de treinos adaptados, de dúvidas, incertezas, falta de motivação e poucas competições, os Jogos estão acontecendo sem público, mas o lema continua existindo como sempre existiu. “Mais rápido, mais alto, mais forte” e com a inclusão do “Juntos”, um gesto que já existia e tem uma passagem bem interessante que ocorreu nos Jogos de 1936 que mostra isso.

Na Olimpíada de 2016, no atletismo, tivemos uma grande alegria com a medalha de ouro do Thiago Braz no salto com vara. Foi uma disputa emocionante e que surpreendeu a todos. O atleta que fica em primeiro lugar é sempre o mais lembrado, mas não foi isso o que ocorreu em 1936 no salto com vara.

A prova estava no final e as regras eram um pouco diferentes de hoje em dia. Restavam cinco atletas na prova do salto com vara, três americanos e dois japoneses. Na altura seguinte, um dos americanos ultrapassou a barra e sagrou-se campeão, mas um americano e dois japoneses teriam de disputar as medalhas de prata e bronze. O americano não conseguiu ultrapassar a marca estipulada, apenas os japoneses conseguiram, eles continuavam empatados e a organização não sabia o que fazer, pois isso nunca havia ocorrido antes.

Então decidiram que eles teriam de fazer mais um salto para o desempate. Os atletas, com o espírito de time e amizade, decidiram ficar empatados, mas isso não poderia acontecer, principalmente porque não havia duas medalhas da mesma cor. Então, ficou na responsabilidade do Japão decidir quem seria segundo e terceiro. Pela análise de tentativas erradas na competição, o time japonês decidiu a colocação dos atletas.

Os atletas não ficaram contentes com a decisão e achavam que os dois mereciam receber a medalha de prata.

Quando retornaram ao Japão, conversaram e decidiram cortar as medalhas ao meio e forjar duas novas medalhas. Metade de prata e metade de bronze, criando uma medalha prata-bronze, conhecidas como Medalhas da Amizade. Hoje em dia os atletas podem empatar, o que é justo.

O atletismo é um esporte individual, mas cada prova tem sua peculiaridade. Nas provas de pista (as corridas), os atletas não passam tanto tempo juntos como nas provas de campo (saltos, lançamentos e arremessos) e combinadas (decatlo e heptatlo).

Assim, diferentemente das corridas, esses competidores convivem por mais tempo dentro da pista e em algumas ocasiões até se ajudam. Vimos em vários momentos, atletas ajudando uns aos outros quando alguém caiu, incentivando e aplaudindo.

Hoje, com as redes sociais, é mais fácil as pessoas colocarem sua opinião, criticar e ser árbitros. Mas só o atleta tem ideia do que o outro está passando, com os seus problemas psicológicos ou de lesão, como temos acompanhado em Tóquio.

Somente quem está lá sabe da dificuldade que é chegar e estar entre os melhores do mundo. Por isso, para os atletas, a inclusão do lema “Juntos” faz ainda mais sentido.

No final sempre haverá os medalhistas, mas o que fica marcado para a história e que toca as pessoas são os gestos inesperados de ajuda, amizade e superação. Este é o verdadeiro espírito olímpico!

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