Olhar pra frente

Muito bem, desde a noite de ontem nunca mais ouviremos a ladainha “o Brasil vai em busca do ouro inédito no futebol”, entoada até então a cada quatro anos, com regularidade tormentosa, e repetida à exaustão nesta edição dos Jogos. Enfim, nos livramos desse carma. Aleluia! O alto do pódio veio, foi conquistado no último pênalti, após 120 minutos de duelo equilibrado e limpo com os alemães. A frustração de décadas virou fumaça no gramado do Maracanã.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2016 | 03h00

O resultado vai além de uma conquista, por si só elogiável. Em primeiro lugar, serviu para o público exorcizar um pouco o amargor dos 7 a 1 que os germânicos lascaram na cacunda da seleção principal dois anos atrás. Num olhar frio, claro que não foi revanche coisa nenhuma, a partir do fato óbvio e básico de que se tratava de outro tipo de competição, com outros jogadores, em outro campo, etc. e tal.

Mas, quem tem o direito de subtrair do público alegria legítima? Os gritos, os xingamentos de lavar a alma, os rojões a riscarem o céu do País mostraram que para o torcedor o 1 a 1 teve valor extraordinário. Já basta os recém-criados “censores de estádio”, que se metem a avaliar se é ético ou não vaiar adversários. Que o povo se divirta com o ouro colocado no peito.

A façanha marca a trajetória dos 18 homens que vestiram a amarelinha no torneio olímpico, em andanças por Brasília, Salvador e Rio. Cada um deles guardará a prova do sucesso nos acervos pessoais e poderá curti-la sempre que bater saudade. E colham dividendos nas respectivas carreiras; são profissionais e vivem de metas alcançadas.

Raciocínio idêntico aplica-se a Rogério Micale, treinador coadjuvante no mundo glamouroso dos “professores da bola”. Fazia lá seu trabalho em equipes de base, como funcionário da CBF, mas era carta fora do baralho para a Olimpíada. Estava a guardar lugar para Dunga, e a missão caiu-lhe nos ombros com a troca de guardião no time principal e com a decisão de Tite de não tocar um barco que não lhe pertencia.

Micale oscilou, como a própria equipe ao longo do desafio – e mesmo ontem –, e no fim tudo terminou bem. Se não é estrategista refinado, tampouco se mostra um curioso ou paraquedista na função. Assim como vários dos jovens campeões olímpicos, cresceu com o passar de etapas e obstáculos; vai tirar proveito da situação. Tem aberto mercado para voos maiores – ou, no mínimo, para levar adiante projetos com a gurizada das seleções juvenis. É um dos que correram risco e dos que agora saem no lucro. Merecido.

A herança maior da festa desse 20 de agosto de 2016 – ou legado, para ficar em termo usado e abusado – pode vir lá na frente, quem sabe em 2018 na Rússia ou certamente em 2022 no Catar. E na forma de título mundial de marmanjos, aquele incomensurável e do qual já colecionamos cinco. A senda a trilhar despontou no quintal de casa; mas já era conhecida e andava encoberta por ervas daninhas; basta segui-la e poderia ser resumida como “estilo brasileiro” de jogar futebol, porém remodelado, que alie técnica e tática.

A expressão acima não deve ser lida como ode ao passado romântico. Não é exaltação da época em que tínhamos Pelé, Coutinho, Vavá, Garrincha, Tostão, Ademir, Rivellino, Gérson. Nada de saudosismo. Esses todos são lendas e têm lugar especial na nossa memória afetiva; não estou a sonhar com clones deles.

Talvez não consigamos atingir a excelência daqueles mitos, pois o jogo hoje é outro: dinâmico, compacto, pede engajamento e múltiplas funções dos atletas. Dentro das exigências atuais, que muitos técnicos patrícios tendem a negar, se viu no comportamento de Neymar, Luan, Wallace, Gabriel Jesus, a viabilidade de combinar habilidade a combate, força física, disciplina tática.

O estilo brasileiro pode voltar a assombrar rivais, com roupagem nova. Por que não tomar por base, como pontapé inicial – não como ponto de chegada – a aventura olímpica? Talento? Esse dom os nossos moços nunca deixaram de ter. A bola é sua, Tite.

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