Shiho Fukada/The New York Times
Shiho Fukada/The New York Times

Jogos Olímpicos dão esperança a ativistas da causa LGBTQIA+ no Japão

Desafio é superar antigos preconceitos. Um projeto de lei que qualifica a discriminação como “inaceitável”, por exemplo, foi bloqueado por legisladores conservadores

Motoko Rich e Hikari Hida, The New York Times

10 de junho de 2021 | 15h00

Quando Fumino Sugiyama, na época atleta da equipe nacional feminina de corrida com barreiras, decidiu se assumir para a equipe técnica como um homem transgênero, ele não sabia o que esperar. O que se seguiu o chocou em razão da brutalidade. “Você nunca fez sexo com um homem de verdade”, respondeu seu treinador, que depois se ofereceu para cumprir a tarefa, de acordo com uma carta que Sugiyama escreveu para Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional.

Sugiyama, de 39 anos, que agora é um ativista, quis mostrar a Bach uma impressão verdadeira a respeito da discriminação profundamente arraigada no Japão, em particular no rígido mundo dos esportes. Ele também esperava que Bach influenciasse o governo japonês a aprovar uma legislação para proteger os direitos de gays e pessoas transgênero. Fazer isso, escreveu Sugiyama, poderia proteger “a nova geração de atletas de experiências como a minha”.

Mas agora, a menos de dois meses da Olimpíada de Tóquio, as esperanças pela aprovação dessa lei estão se esvaindo. Enquanto uma comissão bipartidária avançou com um rascunho da legislação, mesmo seu modesto objetivo de qualificar como “inaceitável" a discriminação foi considerado exagerado por legisladores conservadores, que bloquearam a consideração do projeto pelo plenário do Parlamento.

O que deveria ser um primeiro passo no caminho da igualdade, evidenciou novamente, em vez disso, a forte oposição aos direitos LGBTQ por parte dos políticos de valores tradicionais a respeito de famílias que integram o governante Partido Liberal Democrático. Um político da legenda, durante a discussão da medida, afirmou que gays e pessoas transgênero “vão contra a preservação das espécies”. Outro afirmou ser “absurdo" que mulheres transgênero “exijam" usar banheiros femininos ou disputar medalhas no atletismo.

Essa reação mostra que o país ainda tem de percorrer um longo caminho para cumprir um dos princípios da Carta Olímpica: que qualquer tipo de discriminação tem de ser eliminado. O Japão é o penúltimo país na avaliação a respeito de direitos de gays e pessoas transgênero entre os 38 países ricos que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. É a única potência do G-7 que não legalizou uniões entre pessoas do mesmo sexo. E nenhum dos atletas inscritos para competir pelo Japão se assumiu gay ou transgênero, optando por permanecer no armário, afirmam ativistas, por causa do medo de reações negativas de fãs ou patrocinadores.

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É muito embaraçoso
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Kyoko Raita, integrante do conselho executivo do Comitê Organizador da Olímpiada de Tóquio

Por agora, os organizadores dos jogos afirmam que estão concentrados totalmente na extenuante tarefa e garantir um evento seguro enquanto o Japão luta para controlar a disseminação do coronavírus. Ainda assim, após defensores de igualdade de gênero terem colaborado para derrubar o presidente do comitê organizador da Olimpíada do Japão, em fevereiro, em razão de comentários sexistas, ativistas pelos direitos de gays e transgêneros acreditavam que tinham uma boa chance de provocar também uma ação política.

A proponente do projeto no partido governante, Tomomi Inada, ex-ministra da Defesa, afirmou em um vídeo postado no Twitter que não desistiria até que a atual legislatura chegasse ao fim, em meados de junho. “Com essa oportunidade olímpica, tentaremos criar essa lei”, afirmou Inada em uma entrevista. “Se perdermos essa oportunidade, será mais difícil.”

Mesmo que seja aprovada, afirmam alguns ativistas, a legislação é suave demais para surtir algum efeito. A medida não proíbe definitivamente a discriminação, em uma sociedade em que gays e pessoas transgênero com frequência temem revelar sua sexualidade ou identidade de gênero.

“Considero que o projeto de lei realmente não tem nenhum significado”, afirmou Shiho Shimoyamada, uma das poucas atletas de elite do Japão que se assume gay publicamente. “Se as pessoas dizem, ‘Entendo o que significa ser LGTBQ, mas isso é um problema para a equipe’, ninguém poderá julgar essas práticas discriminatórias” como ilegais, afirmou Shimoyamada, de 26 anos, jogadora de futebol que atuou profissionalmente na Alemanha por dois anos.

Ela afirmou que a comunidade esportiva do Japão é especialmente inflexível e intolerante, presa a perspectivas tradicionais de feminilidade e masculinidade. De acordo com uma pesquisa da Associação Esportiva do Japão, mais de 40% dos atletas que se identificam como gays, bissexuais ou transgêneros afirmam já ter escutado comentários preconceituosos.

Airi Murakami, de 31 anos, ex-jogadora do time nacional de rúgbi que se assumiu gay em abril, afirmou que sofreu assédio quando jogava basquete no ensino médio e namorava uma colega de time. Por anos ela sofreu com sentimentos de culpa e vergonha. “Admitir publicamente que você é parte da comunidade LGBTQ” é difícil, afirmou Murakami. Por mais duro que seja admitir que é gay na conformista sociedade japonesa, as atitudes das pessoas evoluíram em alguns sentidos mais rapidamente do que as dos líderes políticos do país.

Cerca de dois terços dos entrevistados em uma pesquisa realizada em 2019 pela Universidade Shudo de Hiroshima se disseram favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo; quatro anos antes, o índice era pouco mais de 50%. Aproximadamente 90% das pessoas se mostraram favoráveis a leis que proíbam discriminação contra gays e pessoas transgênero. Também houve movimentações no Judiciário. Este ano, um tribunal distrital de Sapporo decidiu que o fato de o país não reconhecer casamentos entre pessoas do mesmo sexo é inconstitucional.

Sob alguns aspectos, o Japão tem há bastante tempo um conceito fluido de gênero e orientação sexual. A cena gay prospera na vida noturna de um grande distrito no bairro de Shinjuku, em Tóquio, e o Japão tem uma célebre tradição de atuações masculinas em papéis femininos nos teatros Takarazuka, e Kabuki.

Mas a aceitação cultural nem sempre se traduz em apoio político por igualdade de direitos. “Insistir na politização da identidade sexual irrita pessoas mais conservadoras”, afirmou  Jennifer Robertson, professora emérita de antropologia da Universidade de Michigan, que cresceu no Japão. “Elas podem até ter um amigo que tem relações sexuais com parceiros do mesmo sexo, mas não querem ver essas pessoas priorizadas.”

Autoridades olímpicas baniram explicitamente a discriminação com base na orientação sexual pouco após Tóquio vencer a disputa para sediar os Jogos Olímpicos, sete anos atrás, em resposta a uma lei antigay aprovada na Rússia antes da Olimpíada de Inverno de Sochi, em 2014. Críticos afirmam que o COI demorou para agir - a cláusula só foi adicionada após os Jogos de Sochi terminarem - e duvidam, também, que a visibilidade das Olimpíadas ajude a resolver o problema no Japão.  

“É inútil esperar que as Olimpíadas levarão mais igualdade a um país-sede”, afirmou Satoko Itani, professor associado de esporte, gênero e sexualidade da Universidade Kansai, uma pessoa de gênero não binário (como no Japão, conservadores da Coreia do Sul, que recebeu a Olimpíada de Inverno de 2018, bloquearam um projeto de lei para promover equidade sexual).

No Japão, os organizadores olímpicos demonstraram somente um apoio moderado aos direitos de gays e pessoas transgênero. Em um dos primeiros atos de Seiko Hashimoto como presidente do comitê organizador em Tóquio, ela visitou a Casa do Orgulho em Tóquio, uma entidade criada para apoiar as comunidades gay e transgênero durante a Olimpíada e além (seu predecessor, Yoshiro Mori, nunca visitou o local).

Um esforço mais coordenado pode vir do mundo corporativo. Um grupo de empresas multinacionais assinou uma carta em apoio ao projeto de lei que defende direitos de gays e pessoas transgênero, incluindo parceiros do marketing olímpico como Coca-Cola e Intel.

Moriaki Kida, diretor executivo da consultoria EY no Japão, afirmou que mesmo que o atual projeto de lei não expanda suficientemente os direitos LGBTQ, a legislação seria um bom primeiro passo. Ver o partido que governa o Japão discutindo diversidade de gênero, afirmou ele, é algo “que eu nunca teria imaginado dez anos atrás”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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