Olimpíada inspira brasileiros a viverem grandes aventuras pelos Jogos

Experiência muda vida de pessoas que chegam ao Rio de carro, trailer ou até ônibus personalizado

Gonçalo Junior, enviado especial ao Rio, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 17h00

Segurando um espetinho de carne com farofa e uma lata de cerveja nas mãos, Rodrigo Ribeiro só balançou a cabeça e foi se sentando para assistir à partida de futebol feminino entre Brasil e Suécia. A reportagem estranhou essa falta de cerimônia, mas a companhia serviu como incentivo para encarar um bife que o cardápio teimava ser contrafilé. O parceiro inesperado também ensinou que viver os Jogos não é só se esgoelar por recordes e medalhas. Viver os Jogos também é viajar atrás de medalhas pessoais para o recorde que cada um inventou para si mesmo.

Esse engenheiro mecânico bem sucedido largou o emprego de três anos em uma das maiores montadoras de Manaus no início do ano por causa de uma depressão braba. Deixou tudo para voltar para a casa da família na outra ponta do mapa, no Rio Grande do Sul. Para marcar o momento de ruptura, de 'não quero mais isso para minha vida', a viagem é feita de carro, um Gol preto 2007 que ele ganhou da avó Carmen. Foi presente de formatura. Mas tinha uma Olimpíada no meio do caminho que mudou todo o roteiro. O novo capítulo de sua vida virou uma viagem olímpica.

O Gol virou seu lar até pouco tempo atrás, antes de conseguir um cantinho na casa de um amigo. À noite, ele abria o vidro e improvisava uma telinha contra os pernilongos. Tinha de dormir todo encolhido porque seus 1,96 m mal cabiam no banco todo inclinado do motorista. Deve ficar mais 20 dias no Rio, mas nada está decidido. A Olimpíada mudou sua vida. "A gente mergulha no nosso povo com muita intensidade. Por causa dos Jogos, todo mundo está com muita energia e isso contagia", diz.

A Olimpíada também tem um quê de autoafirmação. Rodrigo é gago. Quando pediu o estrogonofe no final da partida, a garçonete arregalou os olhos, mas foi paciente. Ele foi em frente e terminou o pedido. "Muita gente que gagueja se fecha e não se acha capaz de conquistar muitas coisas por causa da fala. Eu falo muito e não tô nem aí", diz o membro da Associação Brasileira de Gagueira.

A ciência avançou pouco para entender o problema. Não há um método 100% eficaz para anulá-la em adultos. A fonoaudiologia ajuda. Nas crianças, é possível deixar a fala fluente. O engenheiro tira do carro seu parceiro para ajudar a se misturar na cidade olímpica: um violão. Ainda mais despachado do que no dia do restaurante, ele começou a cantar no meio da rua Uruguai, no centro da Tijuca, uma música da Cássia Eller, aquela do "coronel Antonio Bento". Quando ele canta, não há gagueira.

Uma viagem de descoberta interior no meio das Olimpíadas também é o que propõe o terapeuta holístico Alcides Parlato. Mas sob um outro ponto de vista. Para equilibrar uma equação que tinha a necessidade de mostrar seu trabalho e a vontade de ver os Jogos, tudo isso sem gastar muito, Alcides viajou em uma Safari e está acampado no Recreio dos Bandeirantes. Safari é um trailer montado na estrutura de uma Kombi. O carro é confortável e, por fora, uma graça, amarelo, com as logomarcas dos Jogos. Quando acorda e dá de cara com o mar, Alcides encontra inspiração para fazer os atendimentos de medicina alternativa, que procura o equilíbrio entre corpo, mente e espírito a partir da frequência de luz e energia do universo. Ele afirma que ajudou Flavia Oliveira a conquistar o melhor resultado do Brasil na história do ciclismo em Jogos, o sétimo lugar.

ORÇAMENTO

Para ser muito boa, a viagem não precisa ser longa (como a do engenheiro) ou espiritual (como a de Alcides). Na sexta-feira, Lucas Camargo, estudante do segundo ano de Odontologia, decidiu fazer um bate e volta de Curitiba ao Rio só para "viver o clima de Olimpíada". Como a passagem aérea no sábado estava mais cara, decidiu ir e voltar no mesmo dia.

A graça do passeio relâmpago está no acompanhante, o avô Antonio Aires Tavares. Foi a primeira viagem dos dois juntos. Eles assistiram ao polo e ao handebol, tiraram selfies com os anéis olímpicos e se divertiram. "A gente veio ver as gringas também", diz o vô.

Do ponto de vista material, falando de dinheiro, a crise do País colocou uma dúvida na cabeça dos torcedores: como fazer o espírito olímpico caber no orçamento? Deuel Magalhães comprou a passagem aérea de Salvador para o Rio em várias parcelas. Queria fazer a vontade da filha, Gabriela, e acompanhar alguma coisa de ginástica, modalidade que ela pratica. "Estamos na casa de amigos".

Mais acima na pirâmide, o empresário Gustavo Amorim reuniu nove sócios e comprou um ônibus que foi transformado em uma casa. Os pedidos têm sido tão numerosos que o grupo está cogitando alugá-lo no final dos Jogos. Negócios olímpicos. Ele não revela o valor da adaptação, mas o ônibus tem dois banheiros, camas e cozinha. Tem até uma tevê do lado de fora.

A dona de casa Glaucia Vitório foi de ônibus para o Rio, mas não em um só para ela. Foi preciso abrir mão do avião porque estava muito caro. Foram mais de oito horas de Vitória até o Rio ao lado do filho Thalles, de nove anos. Mas, por que o filho? É a mesma história da Gabriela. "Ele faz judô e queria muito ver uma luta. Eu resolvi trazê-lo. A gente faz tudo pelos filhos, né?", disse a dona de casa.

O menino adorou a bagunça do estádio cheio. Olho grudado no telão, nem se importou com a derrota de Alexandre Pombo logo no primeiro combate. Ele gostou de ver a torcida gritando: "Pooombo!", inclusive na derrota. De longe, deu para ver o abraço gostoso que ele deu na mãe, assim, do nada. Estava lá a medalha da dona Glaucia.

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