Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Olimpíada ocorre em País dividido e em crise sem precedentes, afirma COI

Em discurso de abertura, Bach revela a dimensão dos problemas que evento enfrentou em sete anos

Jamil Chade, enviado especial ao Rio, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2016 | 20h57

O presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, disse em discurso de abertura do congresso do COI, que oficialmente abre os Jogos Olímpicos, que o Brasil passa por uma crise “política e econômica sem precedentes”. Segundo ele, essa situação “extraordinária” transformou a preparação do evento em tarefa “desafiadora”. 

O discurso foi feito diante do prefeito do Rio, Eduardo Paes. A festa reuniu a cúpula do esporte mundial e contou com show das cantoras Céu e Daniela Mercury. 

Bach disse que o evento veio para transformar a cidade em um momento “que o país está politicamente, economicamente e socialmente dividido. A transformação do Rio é histórica”, afirmou. “Se lembrarmos o que todos tivemos de superar, seremos capazes de apreciar os esforços sem paralelos de nossos amigos brasileiros”, disse. Para Bach, a crise coloca em “perspectiva” o que os organizadores conseguiram realizar. Essa tem sido uma viagem longa e que testou a todos: os acionistas do movimento olímpico, nossos amigos brasileiros e o COI. Não é um exagero dizer que os brasileiros têm vivido tempos extraordinários.

Para ele, “a primeira Olimpíada na América do Sul” está pronta. “Os cariocas estão prontos, os brasileiros estão prontos, as instalações estão prontas e os atletas também”, disse.

Bach diz que, para ele, o Rio não seria o mesmo hoje sem os Jogos como um “catalisador”. “A história vai falar do Rio antes e depois dos Jogos”, insistiu. Na visão do alemão, as “circunstâncias extraordinárias” que vive o Brasil fez o trabalho em equipe ainda mais importante e elogiou como crises, como a da Vila dos Atletas, foram resolvidas com “a cooperação de todos”. 

Em seu discurso, Bach elogiou o presidente do Comitê Organizador Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, e Eduardo Paes, além de afirmar que os sete anos de preparação tiveram um impacto social e econômico para a cidade carioca. “Desde que o Rio foi escolhido para sede, o PIB per capta aumentou em 30% e foi a população mais pobre que mais ganhou” disse. 

SOLIDARIEDADE

Bach também usou o discurso diante da cúpula do mundo esportivo para falar dos pedidos que, nos últimos meses, tem feito a diversos grupos para que entendam a crise no Brasil e não façam muitas exigências.

Antes de a festa começar e em uma reunião de trabalho entre os dirigentes, algumas delegações se queixavam abertamente a Christophe Dubi, diretor-executivo do COI, das condições de alguns locais de competição. 

“Vocês demonstraram grande solidariedade”, disse Bach aos presidentes de federações. “Obrigado pela contribuição, compreensão e flexibilidade sob circunstâncias extraordinárias”, afirmou. “A família olímpica sempre é melhor quando está unida”, disse. 

Por meses, Bach foi atacado por diferentes grupos esportivos, dirigentes e federações diante da recusa do Rio em realizar as obras que estavam originalmente planejadas.

No último domingo, uma das federações que mais se queixava era a de judô. “Não está pronto. Os assentos não estão no lugar e faltam muitos detalhes”, disse uma das representantes da Federação Internacional de Judo. Outro dirigente brincou: “Acho que vamos acampar”. “A crise no Brasil afetou”, confirmou Marius Vizer, presidente da Federação Internacional de Judô. Segundo ele, cada um dos eventos foi obrigado a passar por “ajustes”, com cortes de gastos.

Ao sair do encontro, horas depois e diante de outros jornalistas, ele informou que as rampas que serão reconstruídas na Marina da Glória, destruídas por conta de uma ressaca, serão menores do que a que existia, por conta das limitações financeiras. 

Ary Graça, presidente da Federação Internacional de Vôlei, também disse que a crise econômica afetou os planos. Segundo ele, por falta de dinheiro, caberá às federações de cada esporte pagar pela parte de entretenimento entre as provas. Ele disse ainda que, há cerca de oito meses, a arena do vôlei de praia em Copacabana teve de ser redesenhada, porque, nos planos originais, ela foi colocada de forma perpendicular à linha da praia, rompendo com a tradição que por mais de 20 anos marcou o local. 

Francesco Ricci Bitti, presidente das Associações de Federações Internacionais, tambémfalou que há trabalho ainda por ser feito: “Algumas das instalações não estão prontas.”

Andy Hunt, CEO da Federação Internacional de Vela, também apontou que “todos” abriram mão de requisitos que haviam enviado aos organizadores dos eventos no Rio. Segundo ele, as instalações para suas competições também não estão concluídas. 

Um dos alertas feitos pelo COI durante meses foi de que, diante dos problemas financeiros, algumas das obras poderia ter dificuldades. 

Carlos Arthur Nuzman, em um discurso durante o evento, também admitiu a crise e lembrou que, em sete anos, trabalhou com um prefeito, três governadores e três presidentes. “Enfrentamos grandes dificuldades. Desafios enormes”, disse. “Mas nunca desistimos. Nunca pensamos em desistir. Vamos mostrar ao mundo que podemos fazer esse Jogo”, afirmou. 

“Acima de qualquer interesse, é um momento de superar crises. Foi um duro exercício para todos nós para fazer esses jogos e fizemos juntos”, disse Nuzman. “Esporte é a forma mais forte para unir uma cidade, um país, um continente e um povo”, afirmou. “Jogos sempre dão esperança”, insistiu. “Hoje, temos uma nova cidade”, completou.

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