Jaime R. Carrero/Reuters
Jaime R. Carrero/Reuters

Olimpíadas oferecem o olhar a um futuro que pode ser mais pacífico

Este ano, celebramos o 125º aniversário do Comitê Olímpico Internacional e o 25º da primeira trégua olímpica das Nações Unida

Henry Kissinger / Membro de honra do COI, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2019 | 04h30

A humanidade jamais viveu sob uma única ordem mundial unificada. A ordem, quando mantida, só foi alcançada dentro dos limites cambiantes de limitadas regiões (do planeta). Hoje, as várias ordens que governam nosso mundo impactam umas às outras com frequência crescente e efeitos ampliados. Os Jogos Olímpicos exemplificam as possibilidades positivas da interconexão sem precedentes do mundo moderno. 

Sob os auspícios dos Jogos Olímpicos, apesar das diferenças de cultura e história que definem seus diversos sistemas, as nações do mundo de bom grado aproveitam a oportunidade (de quatro em quatro anos) para se unir. Na competição pacífica das Olimpíadas, a conquista de uma nação encoraja os esforços das outras, estimulando tudo a novas alturas em excelência humana.

Quando o barão Pierre de Coubertin reviveu a antiga tradição olímpica em 1894, seu mundo político era dominado pela suspeita. O mapa da Europa havia sido redesenhado e ajustes psicológicos à mudança ainda estavam em andamento; as ambições imperiais causavam deslocamentos e conflitos em todo o mundo; e a estabilidade no continente, embora alcançada no momento, era sentida – e era – transitória. 

Mas Pierre de Coubertin conseguiu transcender esse momento histórico com uma visão de amizade e confiança, inspirada por um ritual originário de um lugar e de um tempo ainda mais turbulento que o seu.

Esse espírito animador de confiança internacional mostrou-se capaz de resistir a períodos de divisão social, exaustão política e reviravolta total. Este ano, celebramos o 125.º aniversário do Comitê Olímpico Internacional e o 25.º aniversário da primeira trégua olímpica das Nações Unidas, uma resolução internacional de armistício que reitera nosso compromisso comum com a determinação original dos Jogos: “paz através do esporte”.

Eu agora já passei por quarenta e seis Jogos Olímpicos. Desde então, tive o privilégio de assistir a muitos Jogos pessoalmente, bem como a alegria de compartilhar essa experiência com meus filhos e netos. Cada uma dessas quatro dezenas de repetições dos Jogos teve seu próprio significado, informado pelos desafios e pelos triunfos do momento contemporâneo.

Ao longo de sua história, as Olimpíadas demonstraram sua capacidade de promover o entendimento humano, mesmo quando o acordo político se mostrou indefinível. Houve casos em que os Jogos exerceram essa capacidade, talvez os mais extraordinários dos quais tenham sido os oito anos de competição desempenhados por alemães do leste e ocidentais como única equipe, de 1956 a 1964, mesmo quando a Guerra Fria atingiu seu clímax e o mundo foi levado à beira da guerra nuclear. 

Os Jogos também serviram como vitrine do progresso global em direção ao objetivo inicial de Coubertin de cortesia entre os povos. A cerimônia de abertura dos Jogos de 1992 foi uma dessas ocasiões. No piso do estádio em Barcelona naquela noite de julho, nações recém-independentes da Europa Central fizeram sua orgulhosa estreia olímpica. Os alemães entraram novamente sob uma bandeira. A África do Sul, emergindo da escuridão do apartheid, retornou aos Jogos depois de uma ausência de três décadas.

O exemplo mais recente é a marcha conjunta das equipes das duas Coreias na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018. Às vezes, as Olimpíadas foram marcadas pela violência, do assassinato de atletas israelenses à transformação dos locais de Sarajevo em campos de execução. Mas a história do mundo marcada por inúmeras mudanças não impede sua melhoria, nem diminui o valor inerente do espírito olímpico.

Os Jogos Olímpicos oferecem o vislumbre de uma verdade mais ampla: a presença da competição não exige o advento do conflito. Os Jogos demonstram nossa capacidade compartilhada de tornar o compartilhamento, e não a diferença, a premissa fundamental da ação internacional – e, ao fazer isso, abre a possibilidade de compartimentar nossos interesses nacionais e regionais, disputando uns com os outros em uma área enquanto se colabora em outra. O arcabouço adequado permite que a competição e a cooperação existam juntas e possam até oferecer oportunidades de buscar alternativas para o confronto. 

É claro que os Jogos por si só não impedem guerras ou acabam com conflitos. Mas as Olimpíadas podem ser tomadas como inspiração em uma busca internacional por compreensão através e ao lado de contestações. Ao contrário de eras passadas, as ordens do mundo de hoje estão inextricavelmente ligadas. Elas continuarão a afetar umas às outras e, em alguns lugares, competir. Alguns veem isso como um desafio, mas os Jogos Olímpicos podem ser um símbolo valioso de como competir de maneira pacífica. A meu ver, é uma oportunidade.

Olhando para além desse momento da história, podemos construir um conceito de futuro no qual nossas redes multiplicadoras se transformam em vínculos que ressaltam a compreensão mútua, promovem a paz e impulsionam nossa busca compartilhada pelas muitas formas de grandeza humana.

DR. HENRY KISSINGER, MEMBRO DE HONRA DO COI E EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DOS EUA

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