Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Militares tomam ruas da orla do Rio em meio a alerta para ataque terroristas

Militares ocupam locais estratégicos do Rio de Janeiro a partir da zero hora deste domingo

Clarissa Thomé e Wilson Tosta, Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2016 | 17h00

Militares ocupam desde a zero hora deste domingo a orla do Rio de Janeiro e instalações estratégicas da capital fluminense, como estações de trem, de distribuição de água e de energia e as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2 e a Refinaria Duque de Caxias da Petrobrás. É o início oficial da operação de segurança das Forças Armadas para a Olímpiada de 2016, inicada em meio ao aumento de alerta para ataques terroristas.

Blindados foram posicionados nas vias expressas e na Transolímpica, que liga a Barra da Tijuca a Deodoro, na zona oeste, bairros com as principais arenas olímpicas. Vinte e dois mil praças e oficiais estarão no Rio, durante os jogos. Serão 47 mil agentes de segurança, levando-se em conta as outras forças, como polícias Civil, Militar, Federal e Rodoviária Federal e Força Nacional de Segurança.

A maior preocupação é com os chamados lobos solitários, terroristas que agem sozinhos, sem vínculos com organizações e recrutados a partir da internet. A apresentação “Prevenção ao Terrorismo 2016”, produzida pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e pela Agência Brasileira de Inteligência , e que circulou nos meios de segurança do País, já antecipava o risco desse tipo de atuação, antes mesmo de ataques como que deixou 84 mortos em Nice, na França. 

A prevenção contra esse tipo de ação se daria por meio do controle de fontes humanas (informantes infiltrados), acompanhamento de alvos (vigilância secreta de suspeitos) e ações em todo o território nacional. O plano proposto pela Abin também incluiu o monitoramento de redes sociais, cooperação com instituições nacionais e articulação com serviços de inteligência estrangeiros. Havia ainda preocupações legais com a tipificação do crime de terrorismo (aprovada pelo Congresso Nacional após longa e polêmica discussão), interceptação de comunicações e escuta ambiental.

“Infelizmente você tem situação em que pessoas desequilibradas, psicopatas, suicidas procuram ter relações com esses grupos terroristas para ter uma desforra ou fazer ajuste com a sociedade, com o mundo que lhe parece extremamente adverso. Daí a dificuldade adicional que você tem que lidar com essa forma de terrorismo, que não é o clássico, com organização centralizada, com pessoas treinadas, doutrinadas, que recebiam missões e as executavam”, afirmou o ministro da Defesa, Raul Jungmann, que foi um dos relatores da Lei Antiterrorismo.

Em uma tentativa de conter essas ações, foi formado um Centro Internacional de Inteligência, que reúne mais de cem agências do mundo para o compartilhamento de informações e monitorar ameaças terroristas. Também houve o treinamento de uma espécie de “tropa civil” para “percepção de situações potenciais de ataques terroristas”. Foram cerca de 40 mil pessoas, entre funcionários de pontos turísticos, do metrô, do setor hoteleiro e funcionários do metrô. Aprenderam como agir caso desconfiem de comportamento pouco habituais, como o hóspede de hotel que não sai do quarto, ou pessoas que caminhem na direção contrária à da multidão, e de objetos esquecidos.

Em outra iniciativa, a Secretaria de Estado de Segurança e concessionárias de transporte público espalharam avisos luminosos em ônibus, barcas e metrô alertando os usuários a avisarem a segurança também em caso de comportamentos suspeitos, como uma pessoa não uniformizada entrando em áreas restritas.

Todo esse aparato, no entanto, não tem sido suficiente para tranquilizar os espectadores dos Jogos Olímpicos – 50 mil ingressos foram devolvidos depois que o governador em exercício Francisco Dornelles decretou calamidade pública. A secretária executiva Laura Ferreira, de 41 anos, desistiu de assistir à final de taekwondo com o marido e os dois filhos – um deles, praticante da arte marcial. 

“Eu tenho medo de atentado e não confio que as forças de segurança consigam evitar a ação de terroristas. Porque simplesmente não existe segurança para atentado. Eles se valem do efeito surpresa. Como evitar o motorista de um caminhão desgovernado ou uma pessoa de puxar uma faca num vagão de trem?”, indaga.

Ela conta que viajou com o marido para a França em novembro passado, depois que ataques simultâneos deixaram mais de 130 mortos. “Meu marido é moreno e usa barba. Ele foi confundido com muçulmano várias vezes. Fomos revistados todos os dias, mais de uma vez, inclusive. Quero evitar constrangimentos e violência também”, afirmou. 

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) considerou, em seu planejamento para os grandes eventos do Rio, que dez delegações seriam as mais “sensíveis” do ponto de vista da segurança, sob risco alto de ataques terroristas. A lista é integrada por EUA, Canadá, Reino Unido, França, Egito, Irã, Iraque, Síria, Rússia e Israel. Sob risco médio, foram colocados sete países: Alemanha, Austrália, Dinamarca, Espanha, Holanda, Jordânia e Noruega. A delegação brasileira ficou na terceira relação, a de nações sob risco baixo. Não foi possível saber se essas relações foram alteradas. 

Algumas dessas delegações contrataram segurança particular para acompanhar seus atletas. É o caso da Espanha, que terá os serviços da Prosegur. A medida foi tomada depois que o medalhista olímpico de vela Fernando Echávarri, de 44 anos, foi assaltado por dois homens armados de pistola quando saía para treinar. Ele passava por Santa Teresa, na zona sul. “Perdi celular, carteira e equipamentos de treino. Mas o mais grave não é o prejuízo, e sim ter sido assaltado por homens armados de pistola, logo pela manhã. Depois disso, evitamos andar a pé. Saímos de táxi ou Uber”, afirmou o atleta.

Neste domingo, com a abertura da Vila Olímpica, iniciam-se também as restrições do espaço aéreo. O objetivo é proteger as delegações que vão se movimentar pela cidade. Nem mesmo voos de asa-delta e parapente estão permitidos. A Força Aérea Brasileira também vai controlar o uso de drones. Equipamentos que interferem na frequência das aeronaves remotamente controladas vão fazê-las pousar, caso estejam sobrevoando áreas sensíveis, como a vila dos atletas e arenas olímpicas.

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