Editora Todavia
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Outra vez, mãe

Tatiana Salem Levy é escritora e autora de 'A Chave de Casa' e 'O Mundo não vai acabar', entre outra obras

Tatiana Salem Levy, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Olimpíadas, pra mim, sempre foram sinônimo de ginástica olímpica - que agora se chama artística, eu sei. A mudança do termo a torna mais humana, o que ela de fato é, como mostrou com tanta coragem Simone Biles em Tóquio. Mas, pra mim, sempre foi coisa dos deuses, ou melhor, das deusas, desde quando eu era criança e chegava mais cedo à aula de natação só pra ficar assistindo às meninas da ginástica olímpica, sonhando em ser como elas, lamentando a minha incapacidade de ser como elas, mas viajando através delas. Guardo até hoje o mesmo espanto pueril cada vez que vejo um desses corpos dando piruetas no ar.

Quando, em Tóquio, Rebeca Andrade fez sua apresentação anterior à da medalha de prata, chamei meu filho, de 5 anos, para assistir comigo: “Uau! Uau! Uau!” Ele exclamava sem parar, e juntava à sua exclamação uma pergunta: “Mãe, você consegue fazer isso?” Afinal, para crianças dessa idade, mães são semideusas, por isso deveriam saber fazer o que Rebeca Andrade faz.

Junto com a decepção, veio também a cumplicidade: assistiríamos às provas de Rebeca juntos. Torceríamos por ela juntos. Mas, primeiro, dou a ele, que nasceu e sempre viveu em Lisboa, um pouco de explicação sobre quem ela é. Procuro sempre lhe contar um pouco do Brasil no qual acredito, o Brasil forte e alegre, que, este sim, me faria levá-lo som sua irmã e seu pai para que ele crescesse lá. Nada a ver com o Brasil fascista e racista que está no governo. Para que toda vez que ele grite “Fora Bolsonaro” saiba que está gritando “Viva Rebeca, sua mãe Rosa, sua antecessora Daiane!”

Confesso que tenho uma dificuldade enorme quando meus filhos pedem para eu repetir uma história, reler um livro que acabei de fechar. Mas ainda bem que há internet e a gente pôde ver dezenas de vezes seguidas a apresentação de Rebeca, ao som de “Baile de favela”, nossos corpos acompanhando do jeito que dava a sua graça. Nunca um “outra vez, mamãe” tinha caído tão bem (quando cansou e foi brincar com seus piões, que agora também têm outro nome, continuei a dar replay).

No dia do ouro, tivemos a sorte do horário conspirar a nosso favor: já eram mais de nove da manhã em Portugal, a casa toda acordada. “Vamos, filho, ver mais um salto da Rebeca.” “Ela vai ganhar medalha, mãe?” “Nunca se sabe, mas o importante mesmo é saltar.” Mudei uma palavra só para não me sentir velha demais, me perguntando por que a gente sempre repete o que diziam as nossas avós.

E, no entanto, depois dos saltos, depois da reluzente medalha de ouro que fez meu filho dar os seus saltos particulares e encheu de lágrima tantos rostos brasileiros, Rebeca Andrade ainda nos mostrou, com suas sábias palavras, que seu corpo fala por ela, mas também pela sua mãe, sua avó e todas as mulheres negras, descendentes de escravizados, ou elas próprias escravizadas, oprimidas nesta terra que tanto as exclui.

Só tem uma coisa que sempre lamentei na ginástica olímpica: a brevidade. Enquanto um jogo de vôlei pode durar três horas, uma apresentação de ginástica nunca dura mais do que aquele minutinho. Uma vida inteira de dedicação para aperfeiçoar o corpo, para torná-lo capaz dos saltos mais belos e, pum, tudo tão rápido.

Penso na história do pintor chinês, contada por Calvino nas suas propostas para este milênio: depois de exigir dez anos para desenhar um caranguejo para o imperador, ele pega um pedaço de papel, um lápis e, em alguns minutos, faz o caranguejo mais perfeito do mundo. Os saltos de Rebeca são esse caranguejo. Parece que nasceram prontos, perfeitos, olímpicos - mas só existem porque antes deles existiram os anos, muito humanos, de trabalho, a que podemos chamar de artísticos. Mas são também a graça e a leveza do corpo que, além de saltar, dança - herança, inscrita no seu corpo, das mulheres que vieram antes dela; herança que ela certamente deixará para as meninas e os meninos que em 2021 vibraram com a sua vitória.

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