País dos Silva

Deu orgulho de ver como neste pais de tantos Silvas, um país tupiniquim conseguiu realizar uma Olimpíada com tamanha grandiosidade. No entanto nada disso teria importância sem os protagonistas, os chamados atletas.

ROBSON CAETANO, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2016 | 03h00

Como ser atleta no país dos Silva? Essa é uma pergunta que me faço constantemente, pois em um país que tem uma paixão intensa que é torcer pelo futebol, ficamos nos sentindo um pouco desprestigiados. Isso é muito ruim, principalmente quando uma Olimpíada acontece aqui no Brasil.

Os nomes que dão cor e vida a tatames, pistas de atletismo, ringues são os atletas. Somos uma nação que ainda não entendeu a importância do esporte, ainda não percebeu como podemos ser poderosos com politicas que fortaleçam o esporte nas escolas, nas instituições penais para jovens, nas favelas, dando uma nova perspectiva a este povo. Os jogos olímpicos são a prova de que podemos mudar para melhor, se realmente quisermos.

Sabemos como ninguém tirar o grito da garganta quando vemos nossos heróis conquistando medalhas. Rafaela Silva, com seu olhar de tigre, transformou uma situação desfavorável em ouro; Thiago Braz da Silva, com sua fé inabalável na conquista do título olímpico do salto com vara, mostoru que somos brasileiros. No entanto, sequer sabemos como esses Silvas se preparam para chegar a uma Olimpíada.

Muito treino, suor e principalmente sangue, pois abre-se mão de muita coisa para chegar ao sonho olímpico, e ainda não conseguimos alcançar a importância disto. A minha vida como atleta só se completou quando alcancei a medalha olímpica. E esse é o legado de mais um Silva, que assim como Adhemar Ferreira da Silva, luta pelas cores do país.

Ver Thiago Braz da Silva dar a volta olímpica me remeteu aos tempos em que ainda cantávamos o hino nacional nas escolas e tínhamos aula de moral e civismo. Ainda somos um povo que vaia sem saber porque, pelo simples fato se seguir uma onda. Por vezes, fico até um pouco envergonhado, mas tudo é valido para conquistarmos a medalha olímpica. Usamos nossas armas para conquistar o que merecemos. Os nossos atletas do passado abriram portas incríveis para sermos respeitados hoje, e só por essa razão teríamos de colocar todos os Silva deste país no pódio da vitória.

Quando o estádio olímpico se enche para ver um Usain Bolt, e vemos um ídolo como ele reger toda uma plateia de 55 mil pessoas ao pedir silêncio, entendo como somos importantes como pessoas, e mais ainda como atletas que produzem o espetáculo. O tempo de apenas correr, saltar, lutar sem ter noção do que gira no entorno acabou. Como atletas somos mais conscientes e a consciência nos leva a ter mais sucesso na vida profissional.

Os deuses do Olimpo no dia 14 de agosto testemunharam um Silva superar um Renaud, ou seja um representante do terceiro mundo contra um do primeiro mundo. Na batalha mais democrática que pode existir - e por mais que as vaias para o francês fossem fortes - ele era o campeão olímpico. Deveria ser mais forte mentalmente, no entanto sucumbiu a nossa torcida e ficou com a prata.

Nessas nove edições olímpicas que participei, tive a chance de passar por muitas emoções. E a maior delas foi quando tive de deixar as pistas e olhar todo este universo como jornalista. E devo dizer que essa Olimpíada no Brasil está sendo a mais divertida, a mais importante e a mais deliciosa que já vivi. Fazer parte da vida de cada um de vocês durante esse mês foi um privilégio. Gostaria de agradecer pela oportunidade de poder expressar minhas emoções daqui do estádio olímpico, sentindo a energia do público e toda magia dos Jogos, que desfila por todas as áreas que fazem parte deste novo conceito de entretenimento esportivo. E tendo a chance de ver todos os Silvas possíveis neste País multicultural.

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