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Para a campeã de judô saída das favelas, jornada olímpica termina em casa

Conheça a história da judoca Rafaela Silva, esperança de medalha

John Branch, NEW YORK TIMES

15 de janeiro de 2016 | 16h38

Em uma rua estreita e íngreme a cerca de 8 quilômetros de onde as competições de judô das Olimpíadas serão realizadas em agosto, perto de uma pilha de tijolos na Rua Agostinho Gama, 31 degraus de concreto subiam pela lateral de um prédio até desaparecer. A escada não tem corrimão e alguns vergalhões podiam ser vistos saindo do concreto. Assim como muitas outras cidades contrastantes, longe das praias, nos morros e favelas, tudo parece estar ao mesmo tempo em construção e em ruínas.

Um galo cantava dentro de uma gaiola no alto da escada e do outro lado da porta, era possível ver a casa onde Rafaela Silva cresceu e sua família ainda vive. Na sala, a judoca dividia uma cadeira com a irmã mais velha, Raquel. Poucos atletas brasileiros serão acompanhados tão de perto durante as Olimpíadas do Rio quanto Rafaela Silva, campeã mundial de judô de 2013. O Brasil nunca ganhou mais de cinco medalhas de ouro na mesma olimpíada, mas nenhuma modalidade – nem a vela, nem o vôlei de praia, nem a natação – produziram mais medalhistas brasileiros que o judô.

Rafaela, de 23 anos, que compete no grupo de até 57 quilos, tem boas chances de faturar mais uma. “A única medalha que eu não tenho é a olímpica. Ter a chance de conquistá-la na frente da minha família e dos meus amigos não tem preço.” O chão da casa da família tinha uma pilha de roupa suja – em sua maior parte judogis, os uniformes de lona branca usados no judô – e as paredes estavam cobertas de prêmios. Raquel Silva, de 26 anos, também é campeã internacional de judô e faz parte da equipe brasileira, mas não conseguiu se classificar para as Olimpíadas.

Raquel já foi expulsa da escola por brigar. Rafaela sempre arrumava encrenca com os meninos da rua dela. Elas têm três anos de diferença e quase sempre estudaram em escolas diferentes.“Nós nos encontrávamos no meio do caminho para voltar juntas para casa. Quando eu virava a esquina, a Rafaela já estava brigando com alguém”, contou Raquel.

Os pais ajudaram as irmãs a fugirem das tentações. A academia de judô foi uma das estratégias, pois dava estrutura e diversão para as meninas.“O judô tem regras. As ruas não têm”, afirmou Raquel Silva, enquanto Rafaela concordava. Na parte de dentro do bíceps direito de Rafaela Silva, escondido em baixo do uniforme durante as competições, há uma tatuagem dos anéis olímpicos ao lado do texto: “Só Deus sabe quanto eu sofri e o que fiz para chegar até aqui”.

O TREINADOR VIU POTENCIAL

Um pouco antes e a alguns quilômetros dali, o treinador de longa data das irmãs Silva, Geraldo Bernardes, descreveu a jornada de Rafaela das favelas aos Jogos Olímpicos. Bernardes, de cabelos grisalhos e olhos azuis, é o antigo treinador da equipe brasileira. Um de seus velhos pupilos é Flávio Canto, que foi duas vezes às Olimpíadas e ganhou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004, tornando-se uma celebridade no Brasil.

Em 2003, Canto criou o Instituto Reação, uma escola de judô para pessoas de todas as idades e capacidades, na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. Ele se uniu a Bernardes, que já tinha outras academias, incluindo uma na Cidade de Deus.

Juntos, os dois transformaram o Instituto Reação em um programa que inclui cinco academias e 1.250 atletas, com 130 deles no “programa olímpico”, supervisionado por Bernardes. (Uma das pessoas que ajuda a manter o programa é a americana Ronda Rousey, medalhista de bronze dos jogos olímpicos de 2008, mais conhecida por sua atuação no MMA e que recentemente doou dinheiro para o instituto).

Há mais de uma década, as irmãs Silva estavam entre as alunas mais jovens e destemidas de Bernardes. Ele logo viu potencial nas duas.“A Rafaela era sempre muito agressiva, mas de um jeito que eu conseguia direcionar para uma coisa boa no esporte”, afirmou na Universidade Estácio, onde recentemente instalou sua academia em um enorme pavilhão com teto de metal e coberto de tatames. “Ela tinha muita energia e agressividade. Mas vi que essa energia podia ser direcionada para o esporte”.

Bernardes falou para as meninas que não permitiria que elas trocassem de faixa caso se metessem em confusões na escola ou nas ruas – e o incentivo foi bom o bastante para que elas fugissem das brigas. Ele ajudou a financiar seu treinamento, incluindo viagens para campeonatos que a família não conseguia pagar.

“Eu comecei porque gostava, mas o Geraldo nos mostrou outro mundo. Aquilo era um emprego. Era uma profissão. Ele plantou uma semente”, afirmou Raquel Silva. Rafaela não levou a coisa tão a sério. Ela ainda não gosta muito de treinar. Mas conseguiu a faixa preta aos 16 anos e se tornou campeã mundial de juniores.

“Tudo mudou em 2008, no campeonato mundial de juniores na Tailândia. Foi lá que percebi que era isso que eu queria fazer. Na minha vida toda até então, as lutas tinham sido fáceis. Elas duravam 10 segundos. E eu passava o resto do tempo só brincando. Mas depois do campeonato mundial, percebi que as coisas poderiam ser diferentes.”

Aos 19, ela ganhou a medalha de prata no mundial. Aos 21, a medalha de ouro. Mas o campeonato que nunca saiu da sua cabeça foram os Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Naquela época, Rafaela Silva já era considerada uma das maiores esperanças de medalha do país, mas foi desqualificada em uma luta preliminar por um golpe irregular, um detalhe técnico ligado a uma mudança recente das regras.

“A oponente era uma menina da Hungria que eu já tinha derrotado antes sem dificuldades. Não sei se entrei pensando que devia acabar logo com a luta, mas o juiz me deu um ponto, depois mudou e me desqualificou”, afirmou Rafaela. Essa derrota ainda a persegue. “Eu treinei quatro anos para as Olimpíadas, e em um minuto estava tudo perdido”, contou. O que aconteceu depois foi ainda pior. Alguns brasileiros nas mídias sociais a ridicularizaram e fizeram ofensas raciais, incluindo uma pessoa que disse que “lugar de macaco e na jaula”.

Rafaela não resistiu e respondeu, e não poupou as termos chulos ao fazê-lo. A guerra no Twitter chamou a atenção do Comitê Olímpico Brasileiro que condenou os ataques e a comissão do judô a convenceu de parar de responder aos críticos racistas. Quase quatro anos depois, ela nunca se arrependeu de suas ações.“Nem um pouco”, disse a judoca. Agora, chegou a hora das Olimpíadas outra vez, e a poucos quilômetros de casa.

Bernardes vai treiná-la no instituto. Sua irmã, que está uma classe de peso abaixo, vai ajudá-la no treinamento e os pais esperam conseguir ingressos para as apresentações da filha. O país todo vai assistir, esperando um resultado para comemorar. A vizinhança vai animá-la, para ver se a moça das ruas caóticas da favela poderá construir uma das histórias olímpicas mais improváveis dos jogos deste ano no Brasil.

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